O que é um acidente? É um acontecimento fortuito, uma infelicidade que invade o nosso dia-a-dia e que pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora e a qualquer pessoa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, um acidente é “um acontecimento independente da vontade humana, provocado por uma força exterior, agindo rapidamente e que se manifesta por um dano corporal ou mental.”

Os acidentes ocupam o primeiro lugar nas causas de morte e incapacidade temporária e permanente em crianças e jovens. As suas capacidades físicas e cognitivas, grau de dependência, tipo de atividades e comportamentos de risco alteram-se ao longo do seu crescimento e nem sempre se correlacionam com a sua capacidade de reconhecer, evitar ou enfrentar o perigo. Por este motivo, as crianças e jovens são particularmente sujeitas a ocorrência de acidentes.

Os acidentes mais frequentes em idade pediátrica são os rodoviários. Somos, a este respeito, o pior país da União Europeia com taxas de mortalidade equivalentes ao dobro da média europeia; seguindo-se os afogamentos, as quedas, as queimaduras, as intoxicações e as situações de asfixia como as situações de maior incidência.

Os elevados custos pessoais, familiares, sociais e económicos constituem um grave problema de saúde pública. Por isso, tem sido realizado um esforço para evitar ocorrência de situações propícias de acidentes, quer através do desenvolvimento de equipamentos mais seguros, quer pela aprovação de leis que minimizam os riscos de acidentes.

Esta preocupação e esforço ativo da sociedade não devem ser desvalorizados, pois já deram provas. Segundo dados do relatório de segurança infantil de 2009 (APSI, 2012), as mortes de crianças e jovens até aos 19 anos diminuíram cinco vezes em oito anos.

A proteção das crianças e jovens requer que todos os agentes estejam empenhados, especialmente a participação ativa dos pais, pois são eles que controlam os espaços domésticos, criam hábitos e definem as regras de segurança. A sua intervenção ativa é fundamental ao nível da vigilância das crianças em muitas situações (ex. praia, piscina), mas também na implementação de medidas de segurança no ambiente doméstico (ex. cancelas nas escadas, protetores de tomadas) e na educação para a segurança rodoviária (transporte seguro no automóvel, uso de sistemas de retenção, educação/instrução das crianças e jovens em quanto piões e condutores).

Os profissionais de saúde podem intervir junto dos pais, crianças, jovens e restante comunidade com vista à transmissão de informação e promoção de mudança de atitudes e comportamentos para a prevenção dos acidentes e assim, tornar o dia-a-dia das nossas crianças e jovens mais seguro.

A segurança por definição é a ausência de risco inaceitável, que pode ter como consequência a morte ou incapacidades definitivas. Um espaço seguro é aquele onde os perigos estão identificados e são conhecidos e o risco de acidentes com consequências graves e/ou definitivas está controlado, isto é, reduzido ao mínimo. Saber identificar o risco implica estar informado e saber como eliminá-lo ou minimizá-lo.

É importante saber que, além do grave problema dos acidentes rodoviários, os afogamentos são a segunda causa de morte acidental em crianças e jovens em Portugal. Ocorrem principalmente em ambientes familiares como a banheira, piscina, lago de jardim, poço, tanque, rio, praia ou mesmo baldes ou alguidares. A morte por afogamento é rápida e silenciosa, pelo que bastam uns minutos, para haver um desfecho trágico. No caso dos afogamentos de crianças pequenas (menores de 4 anos) uma profundidade de apenas 2,5 cm de água pode ser suficiente para ocorrer um afogamento. Assim, é mais que evidente que as crianças, principalmente as mais pequenas, não podem ficar sem vigilância e presença física de um adulto quando existe água. Quando se trata de piscina ou mar, para as crianças com menos de 4 anos (ou as que não souberem nadar) o uso do colete é obrigatório, de modo, a remediar as situações de queda acidental na água.

Não se esqueçam que a grande maioria das crianças adora água e inevitavelmente irão tentar fugir da sua vigilância para ir brincar junto da mesma. É importante ter acesso restrito às piscinas, tanques, não deixar alguidares ou baldas com fundos de água… São verdadeiras armadilhas para os mais pequenos.

Os acidentes domésticos têm principal relevo nos primeiros anos de vida (principalmente entre 1-4 anos) e são exemplo disso as quedas (da cama, do fraldário ou do sofá), no caso das mais pequenas; das escadas quando já gatinham ou dão os primeiros passos e das varadas quando já trepam. Como podem verificar, o desenvolvimento e as capacidades psicomotoras têm grande influência sobre os riscos aos quais estão expostas as nossas crianças.

As queimaduras (lareiras, fogão, solares), as intoxicações (medicamentos, cosméticos, produtos limpeza, pesticidas), a asfixia (almofadas, brinquedos), os choques elétricos (tomadas mal protegidas) são igualmente acidentes comuns em contexto doméstico.

Perante a relevância do fenómeno, propomo-nos criar através desta crónica mensal, um espaço de reflexão sobre a importância de crescer em segurança e de adotar comportamentos que potenciem o crescimento saudável das nossas crianças e jovens.
Como estamos no Verão, tempo de praia, mar e sol, na próxima crónica vamos abordar os cuidados com o sol e os comportamentos de prevenção a adotar.

Enfermeira Sandra Costa e Enfermeira Elsa Silva