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Crónica: A Máquina da propaganda Parte VII

Crónica: A Máquina da propaganda Parte VII

Há quem defenda tratar-se de uma ferramenta útil. Não ouso negá-lo. O ajuste directo, em alguns casos, permite poupar tempo e dinheiro. Um mecanismo legítimo que, como tantas outras coisas, como nós, humanos, é falível. E passível de ser instrumentalizado por políticos sem escrúpulos, como alguns que temos por cá.
Lamentavelmente, o ajuste directo permite alguns abusos e situações pouco claras, reveladoras dessa grande maleita nacional que é a promiscuidade entre política e negócios. As situações multiplicam-se, um pouco por todo o país, e a Trofa não é imune ao fenómeno. Por cá temos conhecido alguns casos, não raras vezes com familiares, amigos, financiadores de campanhas e moços de recados à mistura, que demonstram, de forma cristalina, o quão fácil é agir no limite da legalidade. Ou para lá dela.
Podia encher todas as páginas deste jornal com dados relativos a dezenas de ajustes directos e outros contratos que, ao longo destas quase duas décadas de emancipação política, deram um importante contributo para a falta de transparência na gestão da coisa pública. Porém, para o tema em questão, apenas um importa, ainda que existam vários ajustes directos a orbitar em torno da relação entre a CM da Trofa e o Correio da Trofa (CT), algo que, por si só, daria outro escrito. Mas o que vos trago hoje, em particular, é a prova viva da promiscuidade entre as duas entidades. Sim, promiscuidade.
Quando o CT foi criado, pelas mesmas pessoas que geriam a assessoria de imprensa da coligação PSD/CDS-PP, a dona do jornal era a empresa Comunicatessem, propriedade do então marido da chefe de gabinete de Sérgio Humberto, Zita Formoso. Porém, durante um curto período de tempo, entre o nº 23, de 14 de Fevereiro de 2014, e o nº 38, de 19 de Dezembro do mesmo ano, o jornal esteve nas mãos de outra empresa, a Flexisílaba – Publicações, Lda. E de onde surgiu esta empresa?
Criada apenas 11 dias antes da primeira edição em que surge como proprietária do CT, a Flexisílaba era propriedade de Pedro Póvoas e André Cordeiro, respectivamente director e editor do jornal desde o seu início. Até aqui tudo bem, que não há nada de ilegal em dois funcionários de um jornal criarem uma empresa para comprar o jornal para o qual trabalham, depois de o terem ajudado a criar para que a coligação pudesse manipular os trofenses.
A parte estranha é que, em Agosto de 2014, o executivo Sérgio Humberto decidiu assinar um contrato por ajuste directo, no valor de quase 20 mil euros + IVA, com os seus amigos da Flexisilaba. O contrato, que pode ser consultado na plataforma web Base.gov, dizia respeito à concessão de uma revista chamada Inforede (levante a mão quem alguma vez a viu) e para organizar um concurso de fotografia. Repito: 20 mil euros + IVA para uma revista, que pode muito bem nunca ter existido, e para um concurso de fotografia que foi o maior flop da história do concelho (quem viu aquela tentativa falhada de exposição na entrada do Aquaplace sabe do que falo, mas não faltam fotos para dissipar as dúvidas de quem as tiver).
Por estranho que possa parecer a alguns, a maioria dos portugueses não ganha 20 mil euros durante um ano. E pode parecer uma quantia pequena, quando comparada com alguns gastos estapafúrdios a que a classe política portuguesa nos habituou, mas não é. Para além de se tratar de uma quantia que saiu dos cofres públicos, logo do nosso bolso, e sem concurso público, evitando que a concorrência pudesse dar ao trabalho aos amigos do senhor presidente. E este executivo não hesitou um segundo na hora de entregar esta quantia a uma empresa criada por pessoas que trabalharam na campanha eleitoral que os levou ao poder. Não tenho dúvidas da legalidade do acto, nesta república das bananas, mas que dizer das questões éticas e morais que envolvem este negócio, considerando a ligação profunda entre as duas entidades?

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