O Golgotha, de Frank Martin

Ao meu estimado amigo,

Doutor Ferreira dos Santos, mui digno Reitor da Igreja da Lapa – Porto.

Sexta-Feira Santa, 3 de Abril 2015, é data que vou, longamente, recordar.

Concerto monumental e marco indelével plantado, pelo Coro da Sé Catedral do Porto, nos interstícios milenares das pedras que enformam a antiga e grandiosa Igreja da Nossa Senhora da Lapa.

A minha “capacidade de espanto” (como todos os bons provincianos) é grande, quase insuperável… Desta vez, no entanto, juntou-se-lhe uma milagrosa e salutar perturbação ao percepcionar a meu lado uma familiar querida, ressuscitada, assistindo ao concerto no mesmo lugar que, comigo, sempre ocupava. E uma gorda lágrima de mim se libertou!
A música e o libreto do oratório, espalhando todo o seu esplendor até à luz perpétua, conduziu-me a este fenómeno indizível !!! E O Golgotha, de Frank Martin, tal como o Doutor o havia enunciado, espelha bem todo o “horror daquela Sexta-Feira Santa” e a “esperança do Domingo de Páscoa”. É uma obra prima que nos faz pensar no “brutal enígma” da morte e da ressurreição.

Obrigado querido amigo, Cónego Doutor Ferreira dos Santos, por nos ter proporcionado um concerto com esta densidade artística e religiosa. Obrigado Padre Santos, tal como carinhosamente o tratam na nossa terra.

A dada altura do concerto pareceu-me discernir, do lado direito do tablado do coro, uma brecha e fantasiei que talvez pudesse ser ali o meu lugar! Senti, então, uma enorme frustração por ter perdido o honroso convite para lá estar e perjurei o medo sensível que tenho de poder desiludir as pessoas.

Às vezes interrogo-me de como é possível transmitir, ensinar, pôr a cantar tanta gente, obras tão difíceis, sendo que o resultado final se apresenta sempre em tão alto nível!
É o espírito que resplandece, é o carisma, o saber ou a empatia? Creio que são a conjugação de todos estes dons! Aceite os meus parabéns e a minha admiração!
Sei bem que o aplauso ou o elogio têm valoração relativa: o elogiado valoriza-os consoante a valia do elogiador!

No meu caso, porém, a mais valia é a sua consistência perene e sincera.

José Maria Areal
Alvarelhos e Guidões