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Casa Ecofixe, construída à base de pneus, terra, latas e madeira reciclada, em Alvarelhos, é a “primeira legalizada em Portugal”.

 Pneus, cimento, latas de bebidas refrigerantes, madeira e terra. Estes materiais parece-lhe ter algo em comum? Apesar de parecer estranho estão a ser utilizados para construir as paredes da Casa Ecofixe, que está a ser edificada na freguesia de Alvarelhos.

A Casa Ecofixe, como foi batizada, e uma habitação térrea construída há base de materiais reciclados e que funcionará de forma sustentável, inspirada no conceito Earthship, criado na década de 70, no México, pelo arquiteto Mike Reynolds.

Tudo começou há dois anos, quando o casal Marta Santos, de 31 anos e Técnica Superior em Sociologia, e Pedro Silva, de 39 anos e Desenhador, decidiu “procurar uma casa para iniciar uma vida a dois”. Ao verificarem que as casas “tinham um preço muito mais alto do que podiam pagar”, começaram a “pensar em alternativas” e, junto de amigos, surgiu a ideia : “Perguntaram-nos o que é que achávamos de fazer uma casa de pneus, pois o material seria sempre mais acessível. E foi assim que começou”, adianta Marta Santos.

Apesar de “não ser uma ideia nova”, a Casa Ecofixe está a ser “implementada” pela primeira vez em Portugal. O conceito da casa “não é totalmente ecológico”, mas o casal vai tentar “ao máximo procurar sempre alternativas de reutilização e de aproveitamento”, uma forma de também “pouparem dinheiro”, que é uma parte que os “preocupa bastante”.

Depois de ver a “informação” deste conceito, começaram a ver como queriam a casa e de que tamanho seria, vendo até que ponto seria possível “fazer o que pretendiam”.

A partir daí começou-se com a recolha das latas de refrigerantes pelos cafés e restaurantes da zona. Como as pessoas achavam “estranhissimo” a necessidade de “tantas latas”, os proprietários iam explicando o conceito, vendo a reação das pessoas, que achavam o conceito “estranho”. “Nós próprios achamos isto muito diferente, porque quem não é da área ou não está habituado a ouvir falar disto, a primeira reação que tem é logo ‘vamos agora construir uma casa de pneus e daqui a um ano temos a casa no chão não é’. Ficaram assim um pouco na expectativa a ver o que é que saía daqui, mas toda a gente está simplesmente a participar, sendo até tema principal de várias conversas”, denunciou.

Marta Santos contou que este tema já não causa tanta “estranheza”, existindo já pessoas que “já querem saber como é que se faz e como é que se implementa”, podendo “ser uma ideia” para outras pessoas implementarem também.

Paralelamente, “o projeto deu entrada” na Câmara Municipal da Trofa, que emitiu a licença de construção no dia 28 de fevereiro de 2013. “Isto é um projeto de uma construção normal de uma casa, com as contas que têm de ser feitas, com os termos de responsabilidade e com as partes que um projeto normal de uma casa normal tem de ter”, explicou o processo.

Depois de obterem “esta legalização”, sendo a “primeira casa legalizada em Portugal”, começaram à procura de empresas de construção que trabalhassem nesta área. “Foram alguns processos difíceis, mas, como disse, esta fase inicial de recolha de materiais, bem como a legalização na Câmara da Trofa até agora tem sido, curiosamente, a parte mais fácil”, mencionou.

 

Com a Ecofixe nasceu uma nova empresa de construção

As paredes exteriores vão ser feitas de pneus, enchidos com terra, sendo utilizadas latas para fazer “o enchimento de espaços de maior vazio” . Já as interiores serão construídas com as milhares de latas, que foram recolhidas ao longo de dois anos pelos cafés e restaurantes da zona. Um revestimento de areia e cimento garante o acabamento final das paredes. Já a estrutura da casa, vai ser constituída por tábuas de madeira recicladas de obras demolidas.

Este é o projeto que o casal tem para a construção da sua casa. O conceito foi apresentado a “cinco empresas”, a quem pediram “um orçamento para a obra”, mas apenas uma respondeu: “Obtivemos um não e das restantes não obtivemos resposta. Entretanto conhecemos o senhor David que se interessou pelo projeto e decidiu criar a sua própria empresa para levar à frente este projeto. Era um técnico de uma dessas empresas mas entretanto decidiu empreender por este lado das partes alternativas e das construções”, contou Marta Santos.

Como “já conhecia este método construtivo”, David Araújo, empreiteiro, decidiu criar a empresa Projeto Eco-Civil, para se dedicar à “construção sustentável e reabilitação de edifícios”, segundo o conceito Eartship. “O projeto foi-me dado a conhecer por um grande amigo, que fez o projeto, e desde logo tive o maior interesse em participar neste projeto”, explicou.

Para o empreiteiro, a principal dificuldade foi “a nível de informação”, tendo existido “um processo de procura exaustiva de todos os métodos construtivos”, bem como “das melhores soluções para cada uma das dificuldades” que possa surgindo ao longo do processo.

Como “tudo tinha a ver com materiais reciclados e reutilizados”, Mário Roriz, empreiteiro do Projeto Eco-Civil, que entrou numa fase “posterior” do projeto, gostou da ideia e “não hesitou” em fazer parte da equipa.

Na “questão do processo construtivo”, Mário Roriz afirmou que, sendo “um conceito importado” do arquiteto Mike Reynolds, que criou o Earthship há “40 anos”, há “pouca coisa para inventar”, existindo “muitos estudos” que “comprovam” a sua viabilidade. “Temos, essencialmente, que ter cuidado e executar um projeto que existe e que está aprovado publicamente. Sendo um sistema importado é também um bom suporte para nós porque, sendo uma coisa nova, dificilmente podia avançar e demoraria muito tempo a avançar”, referiu.

Em Portugal, a Casa Ecofixe é a primeira legalizada, mas já “não é caso único”. O projeto deste casal parece ter inspirado outro, que adquiriu uma vivenda para submeter ao mesmo sistema, estando já “em fase de apreciação” na Câmara Municipal da Trofa. Mário Roriz contou que há “fortes possibilidades” deste novo projeto “andar para a frente”, mas, como “o processo é novo”, o proprietário “quer ver para crer”, uma vez que tem “algumas dúvidas” quanto ao conceito.

 

Casal conta com vários apoios

Com cerca de “200 metros quadrados”, o valor da construção da habitação ronda entre os “95 a cem mil euros”, já a contar com o equipamento da cozinha, casas de banho e painéis solares, o que, tendo em conta a dimensão da casa, “não tem nada a ver com outras construções”.

Por esta ser “a primeira habitação” deste género, “várias empresas, entidades e particulares” têm-se “associado” a este projeto, tendo o casal tido “um bom feedback”. Exemplo disso é a empresa local Metais Jaime Dias, que “desde logo apadrinhou o projeto”, e a Valorpneu – Sociedade de Gestão de Pneus, que “adorou a ideia e quer continuar a acompanhar o processo”. Familiares e amigos também têm apoiado a causa, como é o caso da “arquiteta Graça Silva e Armindo Magalhães”, que está a fazer a “fiscalização da obra”.

Já durante o dia de terça-feira, dia 9 de abril, também uma empresa de tintas “resolveu participar neste projeto” e tornar-se “uma parceria interessante”. O casal espera que “outras empresas” venham a associar-se, porque, além desta obra ter como “mais-valia ser mais barata”, o objetivo é “gastar o mínimo possível, pois ainda não têm a totalidade do dinheiro”.

Com este conceito, ganha a “própria comunidade e o planeta”, pois estão a “reaproveitar todo um conjunto de materiais que normalmente são deixados ao abandono”. O casal conseguiu arranjar “cerca de oito portas interiores em bom estado”, que vão ser reaproveitadas. “Com esta estratégia que arranjamos basicamente todas as portas interiores da casa ficaram pelo preço de uma. Fazer as coisas assim dá sempre muito mais trabalho, mas é mais económico”, denotou.

“A médio longo prazo”, este projeto só tem “mais-valias”, pois vão “poupar imenso” em energia, o que se vai refletir na “fatura mensal”.

“Conscientes” das suas “limitações monetárias”, o casal espera que a Casa Ecofixe seja “um virar de paradigma”, mostrando às empresas e proprietários que “já passou aquela fase de ter a casa pronta exatamente” como querem. “Se realmente queremos implementar alguma coisa que seja nossa de futuro, acho que cada vez mais temos que nos envolver no processo. Dá muito mais trabalho, mas também nos vai dando mais gozo estas conquistas que vamos tendo ao longo deste tempo”, declarou.

Marta Santos “orgulha-se” de terem “implementado” este projeto e, depois de ser aprovado pela Câmara da Trofa, terem “movimentado as pessoas”.

Caso tenha ficado interessado neste conceito pode aceder à página do projeto (www.facebook.com/pages/A-NOSSA-CASA-Ecofixe) e acompanhar o desenvolvimento da Casa Ecofixe.