A divisão administrativa do país teve poucas alterações no decorrer do último século. Só foram criados 12 novos Concelhos, desde o início do século passado: oito na Primeira República; só um no Estado Novo (Vendas Novas, em 1962); também só um, em duas décadas e meia de democracia, de 1974 a 1998 (Amadora, em 1979); três no decorrer do ano de 1998. Neste ano, profícuo na criação de novos municípios, foram criados: Vizela, em 19 de março; Odivelas e Trofa em 19 de novembro.

A criação de um novo Concelho é sempre um facto marcante na vida dos munícipes desse Concelho. Os sonhos, muitos deles bem antigos, são concretizados e a esperança de uma vida melhor nasce no interior de cada um. Foi assim em todos os novos Concelhos; foi assim, com muito maior força e vigor, no Concelho da Trofa. Sonhos e esperança, uma legitimidade dos Trofenses. Já lá vão 13 anos!?!

Os outros Concelhos, criados no mesmo ano em que foi criado o Concelho da Trofa, tiveram uma dinâmica e um desenvolvimento interessante com a construção de equipamentos e atividades permanentes na área da cultura e do desporto. O mesmo não aconteceu no Concelho da Trofa, que quando nasceu como Concelho, os Trofenses estavam cheios de sonhos e esperança que depressa se desvaneceram.

Era a esperança na construção de um Concelho harmonioso e solidário com saneamento básico e água ao domicílio em todo o Concelho, equipamentos culturais e desportivos distribuídos por todas a Freguesias, novas redes viárias (variantes à EN14 e EN104 e circular à Trofa); parque escolar com qualidade; Metro de Superfície; realização de eventos de nível superior, construção do edifício dos Paços do Concelho. Ou seja: a construção de um Concelho modelo, um Concelho exemplar.

E o que se passa 13 anos depois e mais de trezentos milhões de euros (mais de sessenta milhões de contos) desbaratados? Muito marasmo e pouco ou nada em termos de obras, muita tristeza e uma dívida colossal de “bradar aos céus”. Um passado para esquecer, um presente sem chama e sem ideias e um futuro hipotecado. Não foi para isto que milhares e milhares de Trofenses, naquele histórico dia 19 de novembro de 1998, desceram às ruas de Lisboa para “Ir Buscar o Concelho”. Os Trofenses continuam a ver carneiros nas nuvens, como vêem obras feitas na Trofa; não porque estejam lá, mas porque procuram vê-las.

Foram 13 anos a defraudar as muitas expectativas. O Concelho da Trofa, em tempo de “vacas anoréticas”, é gerido com uma vacuidade absoluta, que é uma forma peculiar de nada fazer. A gestão municipal, tem sido um vazio total de ideias e obras e tem estado mais preocupada com a poda das anonas do que com o desenvolvimento do Concelho. Uma Câmara Municipal deve ser gerida por pessoas com ideias e capacidade de trabalho e terem a nobre missão de servir o Concelho e não estarem só preocupadas com um futuro melhor para si, para os seus filhos, enteados, irmãos, sobrinhos, amigos e amigos dos amigos.

O Concelho da Trofa depara-se com a sua própria “decapitude” neste estado de entropia em que se encontra, pois em tão pouco tempo chegou a um estado de decadência e laxismo tal, que perdeu massa crítica, inteligência, força anímica e até já se fala em desmembrar-se. A desilusão tem sido uma constante. Não parece, nem é, a Trofa de há 13 anos atrás.

Os Trofenses mereciam muito mais e melhor! Mesmo assim, a falta de obras que justifiquem tanto dinheiro desperdiçado, as desilusões, as dívidas, o atoleiro em que se encontra e a falta de rumo não eliminou, nos Trofenses, a capacidade de sonhar e continuar a ter esperança em dias melhores. Pode viver-se sem obra e sem dinheiro. Mas é impossível viver-se sem sonhos nem esperança. Os Trofenses são assim. O futuro vai ser melhor. O futuro tem de ser melhor! A Trofa merece!

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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