No passado 2 de março de 2013 participei numa das maiores manifestações de sempre, e diga-se, que sou um homem vivido nestas experiências. Da Batalha aos Aliados, a cidade do Porto transbordou em emoções contraditórias. A Raiva e a Alegria de mãos dadas desceram Santa Catarina. Em Passos Manuel nasceu a esperança que superou o desalento e nos Aliados desaguou a vontade de intensificar a luta, derrubar muros, soltar ventos de liberdade e multiplicar a ânsia da libertação das troikas que nos amordaçam, sugam e empobrecem. Sim, desta vez foi claro o objetivo político: A demissão do governo, o termo desta política de direita, a expulsão da troika. As palavras de ordem, os objetivos anunciados pela organização, a larga maioria dos cartazes, tarjas e panos refletiam essa vontade indomável de ressuscitar os valores de Abril, a democracia de Abril, a liberdade de Abril. «O Povo unido jamais será vencido», «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», «demissão», e as palavras messiânicas daquela canção que seria senha da mais bela revolução do mundo, porque foi a minha e foi a nossa revolução, «Grândola vila morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade», troavam com vigor, passo a passo, conquistando a esperança, adquirindo a força e a energia necessárias na luta pela saúde, pela educação e pelos direitos ameaçados e roubados ditatorialmente pelo governo e pela troika.

O governo do PSD/CDS, que apenas faz mal aos portugueses, a quem retira direitos e sobrecarrega de impostos para enriquecer os ditos mercados ( bancos ) através de um juro altíssimo e indevido, o presidente da república que não sai do seu palácio, que apesar de dizer umas coisas acertadas de vez em quando, nada faz em socorro do povo português e de Portugal e a maioria parlamentar do PSD e do CDS que apoia esta politica e de onde saíram homens «decentes» como Dias Loureiro e Duarte Lima, apenas merecem uma resposta do povo português: um estrondoso pontapé no traseiro e serem corridos o mais rapidamente possível do poder. Depois necessitam de um fracasso aparatoso nas urnas nunca antes visto em Portugal. Espero que o povo português tenha memória e que não se esqueça de todo o mal que esta gente lhe fez e faz.

Em termos políticos necessitamos de uma alternativa. Esta só poderá residir na Esquerda. Com algumas das forças políticas de esquerda, nomeadamente do PCP, do PEV e do BE, já contamos. E com o PS contaremos? Ou irá o PS continuar a persistir no cumprimento do memorando que assinou e nesta política que nos conduziu aqui?

Esta política produziu uma queda do PIB de 7,7% desde o pedido de resgate, queda do investimento na ordem dos 50%, queda da procura interna de 20%. Esta política aumentou a dívida pública (50,8 pontos percentuais do PIB, metade da riqueza produzida pelo País, desde 2008), produziu centenas de falências, disparou o desemprego, agigantou a miséria e a exclusão social. Mais de um milhão e quatrocentos mil desempregados, dos quais menos de um terço recebe subsídio de desemprego, significa que a simples satisfação das necessidades básicas está em causa, significa um ilimitado contingente de homens e mulheres, jovens e menos jovens, sem recursos para pagar a casa, a água, a luz, a escola dos filhos, a comida que era suposto pôr na mesa.

As políticas das troikas e do memorando estão condenadas ao fracasso. E quando Passos Coelho diz que está tudo «em linha» com as previsões do Governo, mais não quer dizer que todo o dito plano de ajustamento é um plano deliberado com o fim de reduzir o País e o povo à miséria e que está tudo a correr nesse sentido.

Está o PS de acordo com isto? Ou estará disposto a romper com o memorando e com a Troika?

A manifestação nacional do passado 2 de março, com mais de dez por cento da população na rua, é bem representativa da vontade de romper com esta política, com o memorando e com a Troika. Só a renegociação da divida, como já amiúde se disse, deixará espaço para o investimento e o desenvolvimento de industrias produtivas, uma melhor distribuição da riqueza e o aumento da procura interna. E das duas uma: ou a Europa aceita isto, ou teremos de romper também com a Europa e com o Euro, reconquistando definitivamente a soberania nacional. A «Grândola Vila Morena» já a cantamos em protesto pelas ruas deste país. Reconquistando a soberania confirmamos ser «o povo quem mais ordena». Com uma política verdadeiramente de esquerda com o povo e ao serviço do povo, definitivamente fundaremos a «Terra da Fraternidade».

Guidões, 4 de março de 2013. Atanagildo Lobo