Os andores com vários metros de altura voltaram a sair à rua, numa procissão que, ano após ano, continua a atrair milhares de pessoas ao coração de S. Martinho de Bougado.

“Casamento molhado, casamento abençoado”. O provérbio português bem que se podia aplicar também à procissão em honra de Nossa Senhora das Dores, que decorreu no domingo, 21 de agosto. A cerimónia é um dos pontos altos das festas mais conhecidas do concelho e, apesar das nuvens ameaçadoras, milhares de pessoas cedo começaram a juntar-se nas bermas das ruas que unem dois marcos históricos de S. Martinho de Bougado: a Igreja Matriz e a Capela de Nossa Senhora das Dores. À medida que a hora do início da procissão se aproximava e a circulação do trânsito era interrompida, também na Rotunda do Catulo os fiéis e curiosos se juntavam para ver passar os andores.

Alzira Galque assistiu à procissão pela “primeira vez”. “Sou do Brasil e não conhecia as festas. Gostei muito dos andores, tirei fotos a todos, mas o último era o mais bonito”, confessou. Opinião semelhante tem Joaquim Silva, que também elegeu o andor de Nossa Senhora das Dores como o “preferido”. Morador na freguesia do Muro, garante “todos os anos” assistir à procissão, que não resiste a classificar de “maravilhosa”.

 

 

Cada aldeia de S. Martinho de Bougado cumpre a tradição e traz à rua o seu andor. Para além da altura das estruturas, das cores e da decoração funcionarem como chamarizes para os mais novos, a procissão tem ainda outros motivos de interesse. Com cinco anos, o pequeno Ricardo Campos confessava, com a ingenuidade característica da idade, que o que gostou “mais” foi “dos cavalos, porque fizeram cocó”. Ainda assim, “também” gostou dos andores e a luta saudável entre as aldeias já se nota nos mais pequenos. Em jeito de resposta ensaiada, Ricardo não hesita na hora de escolher o andor predileto: “O de minha casa”, que é como quem diz, o do S. Martinho, trazido à rua pela população das aldeias de S. Martinho, Real, Coroa e Carqueijoso.

 

E, se no início apenas as nuvens podiam assustar, a chuva fez-se mesmo sentir na fase final da procissão, fazendo com que os guarda-chuvas cobrissem o manto humano que acompanhava os andores e as centenas de figurantes, que retratam cenas bíblicas que completam o trabalho feito ao longo de meses com a preparação dos andores.

O pároco de S. Martinho de Bougado, Luciano Lagoa, acredita que a fé em Nossa Senhora das Dores ainda está bem presente nas pessoas. “Foi mais do que uma procissão, foi uma demonstração de fé do povo trofense, que sempre que se trata de Nossa Senhora das Dores mostra-se presente. É uma ocasião muito especial para a nossa comunidade”, defendeu.

Ainda assim, o pároco reconhece que “a curiosidade” também é um fator importante para a presença de tanta gente, sobretudo para quem vem de outras localidades: “Há muitos caminhos para chegar até Deus e, por vezes, através do exterior, podemos chegar ao interior”.

Os figurantes que incorporam a procissão, afirmou o padre, “têm sido um problema cada vez maior”. “Antigamente era preciso recusar participantes, no entanto, agora é o contrário e é preciso pedir para que façam parte da procissão”, explicou. “A mensagem e as cenas relacionadas com Nossa Senhora” transformam-se numa “espécie de evangelho feito pelas ruas da terra”. “É algo importante, do qual não devemos abdicar”, alertou.

A procissão deste ano contou com a presença de Pio Alves, bispo auxiliar do Porto, que participou na cerimónia pela “primeira vez”: “Não conhecia a procissão da Trofa, que na sua estrutura é típica do Minho, mas este tipo de andores é a primeira vez que os vejo e são de facto umas peças espetaculares”. Pio Alves enalteceu ainda o facto de o público, “de modo geral”, ter-se comportado “com muito respeito e com sentido de participação”.

As aldeias de S. Martinho continuam, assim, ano após ano a cumprir uma tradição com cerca de 250 anos de história.

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