Ano 2006
Cartoons da discórdia
Já lá vão mais de cinco meses, que um jornal dinamarquês (Jylland-Postn) publicou uma dúzia de cartoons que caricaturavam o profeta Maomé. Estes desenhos, apesar de visarem o terrorismo e não o Islão, foram considerados ofensivos às crenças e sensibilidade religiosa dos muçulmanos. O editorial que os acompanhava afirmava que a liberdade de expressão pode implicar “desafiar, blasfemar e humilhar”. Uma atitude pouco responsável do jornal em causa.

Solidários, jornais europeus, espanhóis, franceses, italianos, alemães, noruegueses e holandeses, reproduziram os mesmos cartoons, passando os cidadãos destes países a serem, também eles, alvo de agressões.
Vários cidadãos dinamarqueses, franceses e noruegueses são ameaçados de morte; a representação da União Europeia em Gaza é invadida por grupos armados; igrejas e edifícios cristãos, bem como casas e centros culturais dos países que reproduziram os cartoons são apedrejados e destruídos; um padre católico italiano é morto a tiro na Turquia; um diplomata alemão é raptado na Palestina; as representações de vários países europeus são vandalizadas, e incendiadas; bandeiras e outros símbolos nacionais de países europeus são queimados e espezinhados; centenas de pessoas foram feridas no meio destes tumultos; seis pessoas já morreram em consequência directa da raiva islâmica.
Isto tudo em países que restringem ou condicionam a liberdade de manifestação e protesto públicos, com fortes dispositivos e controlo policial que não souberam impedir o descontrolo e intensidade dos incidentes.
Mesmo com os pedidos de desculpa formais do jornal em causa, os apelos ao respeito e responsabilidade por parte do Secretário Geral da ONU os esclarecimentos do Primeiro Ministro da Dinamarca, e as tentativas de apaziguamento por inúmeros Chefes de Estado e de Governo ocidentais, também não foram suficientes para acalmar a ira e a violência pelo que se poderá conjecturar, que é evidente a manipulação das consciências indiferente ao volume e proporção dos factos ou à sua explicação.
Com esta grave discórdia, veio a terreiro a discussão pública sobre a liberdade de expressão. Existem limites? Com certeza! Os crimes de injúrias, de ofensa ao bom-nome e dignidade pessoal, bem como o abuso de liberdade de imprensa são constantemente invocados na sede própria: os tribunais.
Em Portugal, cabia ao Ministro dos Negócios Estrangeiros uma posição oficial que tardou em falar sobre o assunto e quando se decidiu a fazê-lo, não poderia ter sido mais infeliz. Tão preocupado que estava em demonstrar o seu repúdio pelos excessos da imprensa, que não condenou a violência nem a manipulação de consciências que provocaram ataques violentos contra Estados membros da União Europeia, em especial a Dinamarca, exemplo irrepreensível de democracia, tolerância e apego à paz.
Espera-se e deseja-se que a crise seja debelada, que o respeito e consideração por povos e religiões sejam observados, que o ódio e o racismo não prevaleçam e que a Europa não se ajoelhe perante ameaças aos nossos valores fundamentais.
José Maria Moreira da Silva
moreira.da.silva@sapo.pt


