« As freguesias agregadas e as que derem origem a freguesias criadas por alteração dos limites territoriais, constantes da coluna A do anexo I, mantêm a sua existência até às eleições gerais para os órgãos das autarquias locais de 2013, momento em que será eficaz a sua cessação jurídica.» ( n.º 3 do art.º 9.º da Lei n.º 11-A/2013 de 28 de janeiro, aprovada pelo PSD/CDS ). Significa que no passado dia 29 de setembro de 2013 a freguesia de Guidões morreu. E não sei se não terá perecido mesmo para aqueles que nela nasceram pois o n.º 5 do art.º 6 da mesma lei diz: « O Governo regula a possibilidade de os interessados nascidos antes da data de entrada em vigor da presente lei solicitarem a manutenção no registo civil da denominação da freguesia onde nasceram

Fui assaltado por um individuo e fiquei sem duzentos euros. O homem esperou pacientemente que eu chamasse a polícia. Mas eu preferi agraciá-lo com mais cem euros. O exemplo poderá ser absurdo mas a similitude é verdadeira. O PSD/CDS aprova uma lei que põe fim à nossa freguesia de Guidões e cerca de quatrocentos eleitores guidoenses foram recompensa-los com o voto. Não os eleitores do sul de Guidões. De facto, na mesa n.º 2 (Escola do Cerro), o PSD/CDS foi colocado no terceiro posto e não me lembro de alguma vez a CDU ter tido 30,70% nesta mesa. Mas na mesa do Norte, das populações do Outeiro, Póvoa, Bicho e arredores, já assim não aconteceu. A freguesia de Guidões acabou. E aqueles que votaram no PSD/CDS, têm culpa. Neste julgamento não vai nenhum sentido de retaliação, quando muito, alguma mágoa. Mas há que assumir responsabilidades. Tudo o que nos prejudique daqui em diante pela escolha que fizeram é responsabilidade de quem votou no PSD/CDS. Guidões ficou sem voz. Faltaram dez votos para que a CDU elegesse e assim retirasse a maioria absoluta ao PSD/CDS, para que houvesse diálogo, justiça e equidade. Como se não bastasse o aumento dos impostos, as reduções nos salários, pensões e reformas, a retirada de benefícios sociais, o corte nos serviços públicos de saúde e educação, os cortes no subsídio de desemprego, o PSD/CDS é ainda responsável pelo fim das freguesias, pelo fim da freguesia de Guidões. E houve gente que fez esta opção política! Não consegue ultrapassar o preconceito, apesar de estar demonstrado de que quem come as criancinhas não são os comunistas, quem mata os velhinhos é esta política atual da troika e do PSD/CDS, quem rouba as casas aos pobres é a política financeira através dos bancos, e não os comunistas. Mesmo assim, muitos votam a favor desta política. Aqui sim, há muito masoquismo. Resta-nos, a quem musica souber, compor um Requiem pelo fim da freguesia de Guidões. Será um Requiem com um andamento mais forte do que o do segundo andamento do Requiem Alemão de Brahms em que os timbales baterão com uma tal violência a matraquear a consciência desses eleitores de forma a deixá-la pesada e terminará com uma peça ainda mais dolorosa e sofrida do que a Lacrimosa dies illa do Requiem de Mozart pela dor dos verdadeiros Guidoenses.

As pessoas que votaram CDU, porque entenderam o perigo dos interesses da freguesia e das periferias ficarem desguarnecidos, porque alcançaram a necessidade de uma assembleia equilibrada em que a representação da CDU seria importante para que houvesse mais justiça e igualdade, porque desejavam manter viva a luta pela sua freguesia de Guidões, fizeram bem. Só a CDU, que praticamente duplicou a sua votação e a sua percentagem, estava em condições de retirar a maioria absoluta ao PSD/CDS. Faltaram apenas dez votos à CDU para isso, enquanto o PS teria de ter mais cento e dezoito votos para o conseguir.

O facto de respeitar o veredicto popular não significa que não me possa pronunciar sobre ele. Sempre o disse e escrevi: o povo é soberano. Mas terá também de arcar com as suas responsabilidades e saber que a sua vida depende das suas escolhas e da sua intervenção. Como o pregar à moda do padre António Vieira aos peixinhos nem sempre dá frutos é preciso dizer-se que, se hoje vivemos como vivemos com todo o pesadelo que ainda se aproxima, a culpa, em parte, é dos eleitores pela escolha que fizeram. Passado um tempo vociferam:« Eu não votei neles…são todos iguais…etc…». Mas, de facto, votaram. E por isso perdemos o emprego, diminuímos na saúde, na educação, no salário, na reforma, e até sem a freguesia ficamos. Tudo graças às escolhas que o povo fez ao longo dos anos com o seu voto no PSD/CDS e no PS. Esta é uma verdade indesmentível.

 

Atanagildo Lobo