A falta de “garantias” da Câmara para transferir “atempadamente” a verba de apoio à realização do Carnaval, fez com que “oito das 14 escolas inscritas” desistissem do desfile. Autarquia justifica-se com uma “nova lei” que “dificulta a tarefa para saber qual o procedimento correto a ter para poder apoiar”.

“Não participamos, porque a cerca de uma semana para o evento fomos informados que a Câmara ainda não sabia como nem quando ia disponibilizar a verba que é habitual para as associações de pais fazerem face às despesas de Carnaval”. Foi desta forma que o presidente da Associação de Pais da Escola Básica de Feira Nova, Pedro Teixeira, explicou por que decidiu não participar no desfile carnavalesco da Trofa, no próximo domingo, 23 de fevereiro. O desenvolvimento das negociações entre as associações de pais  e a autarquia fez com que, até esta quarta-feira, só seis das “14 que estavam inscritas” confirmassem a presença, segundo José Maria Oliveira, presidente da Federação das Associações de Pais da Trofa (FAPTROFA).

Inicialmente, as expectativas para o corso carnavalesco eram altas, uma vez que o número de inscrições superou as participações do ano passado (11). “Tudo levava a crer que seria ainda melhor, quer em termos do número de escolas participantes como de alunos”, frisou José Maria Oliveira.

No entanto, o processo sofreu um revés, a cerca de uma semana do evento, porque, no entender da FAPTROFA, “não ficaram reunidas as condições de financiamento conforme tinham sido propostas”. “Havia um compromisso da Câmara Municipal no sentido de nos transferir uma verba de 12.500 euros para fazer face às despesas do Carnaval até antes do início do evento, mas a partir de uma determinada altura, por força de problemas internos, não conseguiu garantir atempadamente o financiamento e nós não tínhamos condições financeiras para fazer face às despesas. Em reunião, as associações tiveram que tomar uma decisão”, explicou. Daí ficou decidida a desistência de oito das 14 escolas inscritas.

A Câmara Municipal da Trofa, por seu lado, alega que o compromisso “sempre se manteve” e que “as associações têm a garantia, reiterada por email, que a autarquia está disponível para apoiar”, no entanto, não consegue assegurar a entrega da verba antes do evento. O vice-presidente, António Azevedo, afirmou ao NT que “a nova lei obriga a que todos os apoios têm de ir à Assembleia Municipal” e que “não é possível fazer o ajuste direto, como foi feito o ano passado à FAPTROFA, nem atribuir subsídios”. “A nova lei 75/2013, que apareceu há pouco tempo, está a dificultar-nos a tarefa para saber qual o procedimento correto a ter para podermos apoiar”, explicou.

O autarca mostrou-se “desapontado” com a postura da FAPTROFA, que enviou um email que considerou “intimidatório” a estabelecer uma data – “18 de fevereiro” – para a entrega da verba.

A resposta da Câmara, de acordo com o autarca, serviu para “reiterar o compromisso assumido” de “comparticipar as despesas inerentes ao evento por parte das associações de pais” e a “lamentar o facto de ainda não ter sido possível ter os procedimentos necessários para a concretização deste compromisso”, revelando “intenção resolver o problema com maior brevidade”. António Azevedo afirmou que “não” obteve resposta e, mais tarde, “num novo email, algumas associações responderam que iam ao desfile e outras que não”. A FAPTROFA, acrescentou, “mandou uma SMS no domingo, mas devia ter falado comigo num dia de trabalho, pois estou na Câmara de manhã à noite”.

José Maria Oliveira, presidente da FAPTROFA, referiu ao NT que essa mensagem para o telemóvel do autarca foi uma das tentativas de contacto para dar a conhecer ao executivo “uma solução” concertada no dia anterior, numa “reunião de emergência” da Federação. “Foi uma proposta que surgiu para podermos fazer o Carnaval com o máximo de associações. Tentamos contactar o executivo de várias formas, mas não foi possível e até hoje não chegamos à conversa e a proposta ficou sem efeito. Se houve alguém que tentou resolver este problema foi a FAPTROFA, cuja direção gastou horas e horas da sua vida pessoal e profissional para encontrar uma solução”, afiançou.

Esta quarta-feira, em comunicado, a Câmara Municipal assegurou que “vai honrar, integralmente, a sua parte no compromisso assumido com a FAP TROFA” e que “o valor acordado será disponibilizado assim que estiverem cumpridos e assegurados todos os mecanismos legais obrigatórios”.

 Seis escolas confirmaram presença

Apesar das desistências, houve quem decidisse participar. As escolas de Cedões (Santiago), Estação (Muro), Finzes (S. Martinho), Querelêdo (Covelas), Lagoa (Santiago) e Esprela (S. Martinho) acederam ao convite da autarquia, mesmo sem receber a verba antes do desfile. Pedro Carvalho, presidente da AP da Escola da Lagoa, explicou que “o que interessa é a festa para as crianças” e que “não é um pequeno entrave que vai fazer voltar atrás”. “Já é tradição a nossa escola participar nestes festejos. Já trabalhamos nisto há três semanas, temos a coreografia feita e o carro alegórico mais ou menos enfeitado. Pensamos primeiro nas crianças e depois no resto”, sublinhou.

Pedro Carvalho encara a desistência das outras escolas “com tristeza”, porque “se calhar, as crianças já estavam a contar com a participação, que para elas é sempre uma alegria”. “Acho que, às vezes, os pais complicam mais sem pensar no bem das crianças”, acrescentou.

Além disso, o presidente da AP da Escola da Lagoa “confia que a Câmara vai apoiar”. “Foi-nos garantido o transporte e os prémios. Já em relação à entrega dos apoios financeiros que tivemos nos anos anteriores, não sabemos de que forma será feita. É sempre bom recebermos algum para fazermos um trabalho melhor, mas também falamos com os pais que contribuíram para as suas roupas”, afirmou.

Este ano, Pedro Carvalho prevê a participação de cerca de “50 crianças” da escola, esperando que “o tempo ajude” no dia do desfile.

Quanto ao grupo de escolas que não participam, há algumas que conseguiram arranjar uma alternativa. A de Feira Nova, com cerca de 140 crianças, vai cumprir a tradição e participar no desfile que se realiza em S. Mamede do Coronado. A escola de Vila segue-lhe o exemplo.

“Queremos ter um desfile magnífico com as nossas crianças e com outras escolas que se queiram juntar a nós”, afirmou Pedro Teixeira, que espera a participação da Escola de Querelêdo.

Desfile sai à rua no domingo

Polémicas à parte, o desfile tem início marcado para as 15 horas de domingo, na Avenida junto à nova estação de comboios. O tema escolhido este ano para as escolas foi “Raízes e Tradições”, que os mais pequenos terão que retratar com criatividade e alegria, para convencer o júri.

O corso carnavalesco também está aberto a todos os foliões que queiram participar. Os melhores serão premiados pela Junta de Freguesia de Bougado. Os interessados em participar devem inscrever-se até sexta, 21 de fevereiro, na Câmara Municipal da Trofa- Polo II, Divisão de Educação, Desporto e Juventude, pelo telefone 252 409 850, através do email educacao@mun-trofa.pt ou ainda no próprio dia, junto do secretariado. As inscrições são gratuitas e, no final do Corso, haverá prémios para os melhores foliões.

Questionado pelo NT, António Azevedo afirmou que o executivo ainda estava a “equacionar” um local alternativo para a realização do desfile, em caso de chuva.