jose moreira da silvaO movimento dos capitães, derrubou um regime caduco e abriu caminho a uma nova era da história portuguesa, com a adopção de um regime democrático. Este movimento, que era exclusivamente militar, apartidário e independente das forças politicas, e sem qualquer compromisso com civis, tinha um programa próprio, que contemplava desde o início a entrega do poder às instituições competentes, mediante um sufrágio que as legitimasse.

O sentimento comum e fortemente enraizado, na maioria dos capitães dos três ramos das Forças Armadas que fizeram o 25 de Abril, era de mal-estar e desencanto, e muitas vezes de revolta.

Os militares, capitães e outros, cedo se aperceberam de que os seus problemas eram pequenas contradições de uma contradição mais vasta: o próprio regime politico.

Mesmo colocando em risco as suas próprias vidas, tudo arriscando para libertar o povo português de todos os jugos, não deixaram de cumprir o seu ideal e assumiram a missão nacional da continuação da luta que há muito tempo era travada pelo próprio povo.

Os Capitães de Abril não usaram, nem se serviram do poder, para usufruírem de regalias pessoais ou profissionais e mesmo depois de implantada a democracia, recolheram aos quartéis e permitiram assim a governação do país a quem o povo escolheu em eleições livres e democráticas.

O 25 de Abril não é certamente um simples produto dos últimos anos da ditadura. Tem as suas raízes históricas, sociais e culturais em causas profundas. Mas terá, no mínimo, sido entusiasmada pela mentalidade daquela geração que tão decisiva foi para conseguir agrupar à sua volta, homens e mulheres que não quiseram faltar à chamada que a história lhes fez e assim ajudaram o seu país a sair do isolamento a que estava condenado há vários anos.

Portugal, que regressou em Abril, ao fórum das nações livres e amantes da paz, constituiu o motor de um movimento pioneiro de enormes transformações democráticas em todo o mundo e demonstrando que as Forças Armadas não estão condenadas a ser um instrumento de opressão, podendo pelo contrário, ser um elemento libertador.

Os Capitães de Abril, consideram que está por cumprir o ideal de desenvolvimento social para o país, pois há muita desigualdade social e pobreza que não estavam nos seus objectivos para o futuro de Portugal.

O 25 de Abril ainda não está concluído. Enquanto existirem mais de dois milhões de pessoas que vivem no limiar da pobreza e o país se colocar entre os últimos países da União Europeia, falta cumprir Portugal. No entanto, não se pode comparar o Portugal do passado ao do presente, e obviamente, a esperança, num futuro melhor, é muita.

Ao cumprir todas as suas promessas, os Capitães de Abril, que tudo arriscaram para a libertação do país, transformaram o seu acto libertador numa acção única na história da humanidade. Podem, e devem, estar orgulhosos.

Todos os anos, e não só em aniversários “redondos”, o povo português, através dos seus eleitos, presta homenagem aos Capitães de Abril, convidando-os para as cerimónias oficias. E eles dizem sempre: Presente!

Que bom que é escrever sobre Abril, em Novembro, aqui e agora!

 

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt