“Hoje vou ao café… ouvir poesia” levou obra de autores portugueses ao Muro. Fernando Pessoa e António Gedeão foram os homenageados da noite.

As paredes ladrilhadas em tons de tijolo, os sofás azuis e os banquinhos forrados com tecidos de várias cores dão um toque de aconchego à sede da Associação Recreativa Juventude do Muro. Nas mesas baixas, as chávenas vazias de café ou chá misturavam-se com folhas soltas e livros de poesia. As janelas embaciadas eram a prova do frio que se fez sentir na noite de sexta-feira, mas no interior da sede, o calor e o ambiente quase faziam lembrar um encontro natalício com toda a família.

O primeiro a “chegar” foi Fernando Pessoa, rompendo com o ruído das conversas em surdina das mais de 50 pessoas que quiseram ouvir e declamar poesia. Com o seu estilo irreverente e progressista, lá foi explicando que “um poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”. António Sousa, amante da poesia e responsável pela animação da Casa da Cultura da Trofa, foi o primeiro a levantar a voz para honrar os nomes dos poetas portugueses. Seguiu-se uma incursão por outros poemas de Pessoa, com “A Mensagem” a assumir o papel de destaque. A única obra publicada em vida por Fernando Pessoa, que morreu há 75 anos, foi recorrente ao longo de toda a noite, com a História de Portugal a ser lembrada em poemas como “O Mostrengo” e “O Quinto Império”.

Também António Gedeão, que completaria 104 anos a 26 de Novembro, foi lembrado nessa noite, com o poema “Lágrima de Preta” a arrancar palmas do público, num hino à igualdade entre todos.

Outros vieram como Camilo Castelo Branco, Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, António Aleixo e Xanana Gusmão, todos com mensagens de amor, de intervenção ou de história. Os mais audazes assumiam a veia poética e apresentavam poemas próprios.

O ambiente acolhedor libertava as pessoas e João Fernandes, presidente da Assembleia Municipal, e Fátima Silva, responsável da associação, não resistiram a participar, declamando alguns textos.

A iniciativa “Hoje vou ao café… ouvir poesia”, promovida pela Casa da Cultura da Trofa, tem percorrido todo o concelho, proporcionando momentos de convívio didácticos, arrastando cada vez mais público para os cafés por onde passa.

No mês de Dezembro, a organização faz uma pausa na promoção da actividade, que deve retomar em Janeiro, na freguesia de S. Mamede do Coronado.