Uma intenção arrojada e com alguns perigos

 

 

Devo confessar que não sou um profundo conhecedor do nobre mundo da educação. Conheço o que conhece o comum dos cidadãos e reconheço que é uma matéria difícil. Tenho, sensivelmente, a mesma experiência que têm os meus compatriotas.

Mas, sendo uma matéria difícil, é um assunto que nos toca directamente.

Tocou-nos e toca-nos enquanto estudantes. Toca-nos enquanto pais e encarregados de educação.

E, sendo um assunto que nos toca tão directamente, e que, num passado não muito recente, nos tocou enquanto estudantes, não é justo exigir que não tenhamos uma palavra a dizer.

Somos todos utentes dum sistema que é de todos.

afonso_paixo_fo_1.jpgÉ comum ouvirmos críticas acesas ao sistema de educação. Todos criticam e ninguém está satisfeito. Todos reconhecemos que o nosso sistema de ensino está desadaptado as realidade dos nossos dias.

Não são poucos os que lançam severas críticas ao corpo docente das nossas escolas.

Culpamos, com frequência, os nossos professores, a quem se acusa de não darem boa preparação aos alunos, que são os nossos filhos.

Com frequência, ouvimos os pais culparem os professores porque os nossos filhos não obtiveram rendimento suficiente, ou porque não foram aprovados no final do ano.

Penso que a participação dos pais e encarregados de educação no processo educativo, ajudará a responsabilizar todos e orientará as críticas, que ouvimos todos os dias, para um sentido mais construtivo.

Manda o bom senso que não se menospreze a opinião dos pais e encarregados de educação: têm uma palavra a dizer, enquanto principais interessados no nosso sistema de ensino.

Tanto quanto entendo, trata-se apenas dum projecto, ainda em consulta, e que prevê que os pais e encarregados de educação dêem a sua opinião no sistema de avaliação dos professores. É apenas um dos factores de avaliação. E um factor minimalista que não justifica reacção tão forte dos sindicatos.

Todos reconhecemos que é necessário mexer num sistema a justificar reformas e este sistema de avaliações é muito mais vasto do que a simples avaliação feira pelos pais.

A opinião dos pais é apenas um dos factores, muito pequeno, dentro dum sistema mais vasto de avaliação que interessa à carreira docente.

Se descontarmos alguns pais mais descontentes, por terem os filhos reprovados ou com menor aproveitamento, este pode ser um factor de maior união dentro da comunidade escolar.

Entendo os receios dos professores. Serem avaliados por quem não tem formação específica para essa função é desconfortável.

Mas não é isso que acontece às outras profissões e actividades?

Quem é que avalia os médicos na sua função privada? Quem avalia os advogados? Quem avalia os arquitectos? E os engenheiros? E….os todos os outros que são avaliados por pessoas estranhas à profissão?

Quase todas as profissões são avaliadas por pessoas que não pertencem à própria profissão. É assim que acontece no sector privado.

Não creio que os professores saiam desdignificados. É também uma oportunidade de divulgar mais as suas actividades junto dos encarregados de educação.

Os pais e encarregados de educação também serão responsabilizados porque deverão justificar as suas notações.

Ora, se todos reconhecemos que é necessário fazer qualquer coisa para melhorar o nosso sistema de ensino, há que dar o benefício da dúvida à Ministra da Educação e reconhecer-lhe o mérito e a coragem de não se acomodar optando pela via mais pacífica que é a de não agitar muito as águas.

O Ministério da Educação tem sido, ao longo dos vários mandatos, uma trituradora de ministros e técnicos, exactamente porque não é um ministério fácil.

É necessário e urgente fazer reformas num sistema que todos reconhecemos necessitar.

É uma forma de responsabilizar os pais, sem prejuízo da consideração e o respeito que nos merecem os professores.

É uma medida polémica , mas cheia de intuito reformista, com grandes riscos e os seus perigos

Reconheça-se e atitude, a coragem e o arrojo da Ministra de Educação

 

Afonso Paixão