No âmbito do Ano Europeu do Voluntariado, o jornal O Notícias da Trofa está a divulgar – ao longo do ano – testemunhos de pessoas que fizeram ou fazem voluntariado, tentando descortinar o que motiva alguém a dar de si sem esperar nada em troca. Laurinda Martins sempre deu de si ao outro. Recentemente viajou em missão para S. Tomé e Príncipe.

“Desde criança que sinto que a minha vida podia ser diferente, por isso, desde muito cedo comecei a dedicar o meu tempo a ajudar as crianças que tinham mais dificuldades de aprendizagem e tantos outros serviços que prestei. Já na juventude, trabalhei como voluntária num hospital, em casas particulares com doentes em fase terminal e ainda não parei.

A oportunidade de ser voluntária nasce da atenção que damos aos outros, da nossa disponibilidade interior, do nosso amor ao próximo, mais do que tempo real. A minha partida, surge na sequência de um documentário na RTP acerca das dificuldades de toda a ordem, que adultos e crianças passam, em África, concretamente em S. Tomé e Príncipe. Há, porém, em mim algo de inato para o serviço aos mais desfavorecidos. Esta minha missão foi também a realização de um sonho que me acompanha desde a infância.Todas as coisas têm um tempo e há um tempo para tudo e para mim este foi o tempo certo. Fui sozinha, mas com o coração cheio de amor para dar!

Trabalhar com aquelas crianças é esquecermo-nos um pouco das nossas “coisas” e estarmos disponíveis. Em minha opinião, penso que fazer voluntariado em terras de África não dá para todos, isto porque não existe quase nada; faltam alimentos, roupas, medicamentos, bancos nas escolas, livros.

As crianças vivem com tantas carências que basta-lhes pão e colo para serem felizes. As crianças não têm brinquedos. Uma garrafa de plástico que apanhem no lixo pode ser um brinquedo, mas se for necessária pode servir como utensílio para ir buscar água. Para mim foi uma lição de vida: viver com tão pouco e ser feliz!

Superei as dificuldades à medida que iam surgindo, adaptei-me facilmente ao clima (quente e húmido), alimentação não dava para escolher, mas tenho como regra o seguinte: se eles gostam e vivem, não sou mais do que eles. A minha maior dificuldade foi o de ter de tomar banho em água fria, até que descobri que havia água quente no fogão de lenha lá de casa e logo comecei a encher meio balde e depois de temperada, tomava um banho de copo. Foi a minha maior dificuldade! Paralelamente a tudo isto, tive que gerir algumas emoções muito fortes; o luto pela morte da minha mãe, falecida há um mês, o desconhecido, a aventura de ter ido só, o clima, a cultura e acrescentar a tudo isto, a morte repentina de um irmão, tinha chegado a S. Tomé 24 horas antes. Estou certa de que consegui gerir tudo de forma serena, graças à Fé que tenho. O Deus em quem acredito é o mesmo em todo o lado! Essa foi a minha consolação, o meu seguro!

A experiência no voluntariado tem sido, para mim, uma riqueza infindável em termos espirituais e humanos e cada vez sinto mais esse apelo de me dar sem reservas, mas, permitam-me os leitores, que esta partilha tem como finalidade encorajar outros jovens, outras pessoas a darem um pouco de si e não expor aqui o que tenho realizado. A vida não se contabiliza, vive-se!

Em jeito de agradecimento e partilha, quero agradecer ao Senhor Bispo de S. Tomé, D. Manuel António, à sua irmã Paula, todo o apoio prestado, apesar das suas vidas tão preenchidas ao serviço da comunidade. O Senhor Bispo é o responsável pela Cáritas Diocesana, entidade onde estive a trabalhar, pois tinham um orfanato. Para mim foi surpreendente quando vi que em casa do Senhor Bispo viviam duas lindas meninas de sete e 16 meses. Porquê ali? Para que sobrevivessem eram necessários cuidados especiais e a Cáritas ou o Hospital não dispunham de meios para tal, então a Paula, irmã do Senhor Bispo levou-as para casa e ambos cuidavam delas. Hoje (10 de outubro) recebi um email a dizer que já tinham mais uma lá em casa. É justo realçar a ajuda que os portugueses dão àquela instituição, através da Cáritas Portuguesa. Por esta via, chegam brinquedos, papas e fraldas. Os missionários têm um papel muito importante na promoção humana deste povo”.

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