Qualquer pessoa que se exprima politicamente, integrando ou não um partido e independentemente da sua orientação ideológica, pode ser acusada de aproveitamento político. Basta, por exemplo, ter uma opinião que incomode um determinado poder, seja local, nacional ou até partidário, num momento mais ou menos crítico da sua existência. E, se pensarem bem, estamos perante um excelente subterfúgio: de uma assentada, contorna-se uma questão incómoda, muitas vezes sem a responder, e encena-se o teatro da vítima, esse grande mobilizador da vida político-partidária, em particular para tropas mais leais e pouco dadas a pensar. Pelo menos pela própria cabeça.

Para quem observa de fora e elabora o seu julgamento sem recorrer a cartilhas, distinguir entre aproveitamento político e análise factual de uma situação é um exercício relativamente simples. Olhemos para o caso do aterro. Vejamos as declarações que foram feitas por Sérgio Humberto (SH) e ajuizemos, sem óculos partidários ou ideológicos, qual era, até ao dia em que o negócio foi tornado público, e mesmo após esse momento, a posição do executivo. Era favorável, defendia vigorosamente a sua construção e desvalorizava todo e qualquer impacto ambiental e sanitário, com o próprio SH a garantir a sua inexistência.

Dizer que SH tentou, a todo o custo, trazer o aterro para a Trofa é aproveitamento político? Não, não é. É a constatação de um facto irrefutável e muito relevante, na medida em que nos mostra até onde SH é capaz de ir nas nossas costas. E é também por isso que pode e deve ser amplamente divulgado, para que os trofenses conheçam melhor quem os governa, para lá da propaganda. Acusações de aproveitamento político, neste contexto, são desculpas de mau pagador, de quem lida mal com a verdade, por ter sido apanhado a mentir, e não tem um argumento válido ou sólido para apresentar.

Contudo, e se vamos falar sobre aproveitamento político, que dizer da postura do executivo, que afirmou ter mudado de posição, por (alegadamente) ter ouvido a voz do povo? Ouvia-a onde? Nas redes sociais? Fez imediatamente uma sondagem? Foi de porta em porta, questionar quase 40 mil trofenses? Qual foi, exactamente, o barómetro que permitiu ao executivo auscultar a população em tempo recorde, poucos dias após a descoberta do negócio secreto? Desculpem, mas isto não faz qualquer sentido. O problema não foi a opinião da população, que o executivo não teve tempo nem condições para ouvir. O problema foi que, descoberto o segredo mais bem guardado deste executivo, não lhe restava outra solução que não fosse recuar, porque nunca, em momento algum, os trofenses aceitariam um aterro no seu concelho. E este negócio não foi negociado em segredo por acaso. Em política, não existem acasos.

Como é natural, perante tanto malabarismo amador, os restantes partidos tomaram posição. Esperavam que fizessem o quê? Que ficassem calados a assistir ao desastre? O que faria o PSD, se fosse oposição, e o partido no poder tivesse negociado um aterro sanitário na penumbra? Ficava calado? Claro que não! E basta recuar à campanha de 2013 para perceber isso mesmo. Aliás, importa sublinhar que ninguém se aproveitou politicamente desta situação como o próprio SH, que, pouco tempo após ser conhecido o chumbo da CCDR-N, correu para as redes sociais para declarar vitória e agradecer a quem esteve ao seu lado. Ao seu lado a fazer o quê? A cortejar a Resinorte para que o aterro fosse instalado aqui? SH fez tudo para trazer o aterro, defendeu-o com unhas e dentes, ocultou a sua negociação da população, humilhou os eleitos de Covelas, nunca esteve ao lado da população e agora canta vitória? Querem maior aproveitamento político que ver este político de carreira cantar vitória e puxar para si os louros, depois de tudo ter feito para nos condenar a 50 anos de aterro?