"Não terão colocado um zero a mais?". O número, avançado pelo vereador da Câmara da Trofa Jaime Moreira ao JN (1600 crianças), deixou Adelaide Pires, directora da única creche do concelho que possui acordo com a Segurança Social, "assustadíssima". Mas não, não houve engano. Aliás, o valor peca por defeito. Isabel Veiga, chefe da divisão de acção social da Câmara, garante que serão cerca de 2000 as crianças com menos de quatro anos que não têm creche subsidiada pela Segurança Social para frequentar.

A creche e jardim-de-infância dos Bombeiros Voluntários da Trofa, actualmente com 37 inscrições, é a única instituição particular de solidariedade social com capacidade para receber crianças dos zero aos três anos. De resto, existem no concelho duas instituições particulares com aquela valência.

Contudo, apesar da discrepância sugerida pelos números, a creche dirigida por Adelaide Pires não tem excesso de candidaturas "Temos uma procura muito próxima do que é a oferta.  Só não temos resposta para a faixa etária dos 24 aos 36 meses". Precisamente, dos dois aos três anos.

Mas, ainda assim, a lista de espera contempla apenas 12 nomes, número residual num universo de cerca de duas mil crianças. A responsável da acção social da Autarquia arrisca uma explicação "Muitas pessoas não inscrevem lá os filhos [na creche dos bombeiros] porque sabem que está lotada".

Por isso, os pais recorrem a instituições de concelhos vizinhos, como Santo Tirso ou Vila Nova de Famalicão, incluindo infantários privados. Noutros casos, "contratam amas por valores inacreditáveis", refere o vereador.

Uma outra hipótese de Isabel Veiga avança para questões sociais. "Não podemos esquecer que, na Trofa, há uma zona muito rural,e muita gente deixa os filhos com os avós". Adelaide Pires partilha a opinião e vai mais longe, apontando o dedo aos elevados índices de desemprego registados no concelho.

"Quase todas as famílias têm alguém desempregado. Qual vai ser o privilégio da mãe? Deixar o filho com a madrinha, com a tia ou com a avó porque estão desempregadas". Além disso, "se há uma avó em casa, culturalmente é um escândalo mandar as crianças para o infantário".

Ana Correia Costa/JN