Só o andor de Nossa Senhora das Dores, que pesa cerca de 650 quilogramas, exige o esforço de três homens a trabalhar durante uma semana, cerca de 12 horas por dia. As centenas de metros de cetim e os milhares de alfinetes acompanham semanas de trabalho.

A tradição quase secular diz que no terceiro domingo de Agosto dez andores desfilam no centro da Trofa, rodeados de dezenas de intervenientes na procissão em honra de Nossa Senhora das Dores e que se vestem de forma alusiva a personagens bíblicas. A procissão atrai anualmente milhares de pessoas, mas poucas são aquelas que se dispõem a manejar com muitos metros de cetim e milhares de alfinetes.

Cada andor pode pesar cerca de quatrocentos quilogramas e chegar a ter uma altura de 15 metros, dividindo-se em base, oratório e coroa. Para os enfeitar são necessárias muitas horas de trabalho. Nada melhor para confirmar esta realidade do que João Silva, gerente da Agência Funerária Trofense, responsável pela elaboração de quatro dos dez andores da Procissão. Só para o andor da santa, que pesa cerca de 650 quilogramas, são necessários três homens a trabalhar durante uma semana cerca de 12 horas por dia.

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“Estamos aqui a trabalhar desde 26 de Junho e depois da procissão desarma-se e anda-se mais um mês a limpar tudo e as pôr as carcaças em ordem”, contou ao NT/TrofaTv João Silva.

A imponência dos andores que desfilam na procissão de Nossa Senhora das Dores é inegável e a cada ano que passa continuam a atrair milhares de curiosos. A particularidade reside no andor da santa que não conhece mais cores que não o azul e o branco.

Todos os andores armados durante dias a fio percorrerão o centro da cidade, partindo da Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado. Depois de passarem pela romaria e Capela da Nossa Senhora das Dores, regressam à Igreja.

Mas antes, no domingo de manhã “os andores são levados para o adro da Igreja, são deitados na horizontal, engata-se a coroa em cima do andor e depois há ainda a cruz para colocar no cimo”, recordou João Silva. Depois de preparados, são levantados com cordas e ficam na posição vertical para depois se fazerem os acabamentos e decoração.

Apesar de não serem exclusivos no país, os andores são, em quantidade, os mais representativos de Portugal. Para os carregar são precisos cerca de 16 homens, tal é a sua altura e elevado peso.

A Agência Funerária Trofense é responsável pela construção dos andores do Paranho, Valdeirigo, Esprela e Finzes. Para os tornar uma realidade são precisos 11 quilos de alfinetes e cerca de 200 metros de cetim “encurrilhado”.

Ao todo, os andores obrigam a um investimento de cerca de três mil euros, que comportam gastos no ornamento e na contribuição para os homens que carregam os andores. Ciente de que “há cada vez menos armadores”, João Silva tem dúvidas quanto à continuidade da tradição. “Se isto é para continuar eu tenho as minhas dúvidas, não por falta de pessoas da aldeia para pegar (nos andores), mas porque é difícil arranjar o dinheiro”, lembrou.

Desta forma, os poucos armadores que restam lutam pela sua continuidade, porque sabem que se a tradição se perder “a festa da Senhora das Dores nunca mais terá o mesmo brilho”.