Laura Cruz, de 41 anos, é trofense e tem uma deficiência física. Mesmo com os “nervos atrofiados” concretizou projectos que muitos consideravam impossíveis. Hoje, sente-se uma mulher “como as outras”.

Em frente ao espelho, Laura Cruz consegue ver do outro lado todo o seu passado e futuro. Ficou com os “nervos atrofiados à nascença” e desde então que todos os médicos têm dito que “não é uma menina como as outras”. Aos 41 anos, Laura orgulha-se de ter alcançado vários feitos que muitos, ditos “normais”, nem chegam a sonhar.

Já se sentiu diferente das outras mulheres, hoje sente-se apenas “igual”. Limpa a casa, cozinha, faz as compras, trata da roupa e, mesmo com dificuldades de locomoção, não rejeita nenhum desafio que lhe é proposto.

“Os médicos diziam que eu não ia ser ninguém e eu sou tão teimosa que, quando uma pessoa me diz que não sou capaz, ainda me dá mais gosto mostrar que consigo”, explicou.

Sentada no sofá da sala de sua casa, “Laurinha”, como é conhecida pelos amigos, abriu o “livro” da sua vida, onde estão descritos os contratempos por que passou, as discriminações… Um “pequeno” resumo daquilo por que passou pode ser lido num livro, iniciativa do Espaço t, onde várias pessoas contam as suas histórias. Laura foi convidada a fazer parte deste projecto a 1 de Abril e ao início até pensou que se tratava “de uma mentira”. Através de um quadro seu, pintado num ateliê, descreve o seu passado, presente e futuro e com a ajuda de André Domingues, formador do Atelier de Jornalismo do Espaço t da Trofa, conseguiu descrever aquilo que vê por trás do espelho.

“Pintei um frasco preto, que não significa nada, é apenas um objecto, porque os médicos diziam que eu nunca ia andar, nem ia ser uma menina como as outras. Depois pintei uma barra preta, do lado esquerdo, que significa o meu passado, aquilo que os meus pais passaram comigo, porque foi duro. Do lado direito desenhei outra barra preta que significa a morte da minha mãe e tudo o que eu passei quando ela esteve doente, há quatro anos. A faixa vermelha significa uma meta que eu queria atingir e o amarelo é a luz que a minha mãe me está a dar para eu poder ultrapassar tudo”, descreveu.

E à pergunta “Quais as metas que queria atingir?”, Laura respondeu prontamente: “Inscrevi-me no Centro de Novas Oportunidades da AEBA (Associação Empresarial do Baixo Ave) e conclui o 9º e o 12º ano. Fui uma das melhores alunas da turma e em Janeiro vou receber um diploma”.

O pai, homem de poucas palavras, sente-se orgulhoso da filha. “Nunca pensou que eu iria tão longe”, garantiu Laura.

Mas o percurso não termina por aqui… “Agora queria escrever um livro meu, para contar a minha história de vida, que tem muita coisa que se lhe diga”, concluiu.