O itinerário da Via Romana que atravessou a Trofa é Monumento Nacional

Desde tempos imemoriais que os povos, para se comunicarem entre si, precisavam de se deslocar de um povoado para o(s) outro(s) e/ou de uma cidade para outra. Assim o fizeram também os romanos na Península Ibérica: “abriram” estradas -pequenas ou grandes – a que deram o nome de Viae (vias) romanas para o movimento terrestre dos exércitos, funcionários do governo e de civis. Segundo Flávio Ribeiro, “a rede viária do mundo romano constitui uma das mais impressionantes realizações da engenharia antiga… As grandes estradas romanas foram construídas de acordo com preocupações de ordem estratégica e administrativa, servindo, eventualmente, interesses económicos. Ligando as capitais regionais, as fronteiras e os portos, as vias contribuíram de forma notável para a difusão da civilização romana e para a unidade do Império”.

“O sistema viário romano era constituído por estradas estatais (públicas, militares) e municipais, a que se juntava toda uma série de caminhos secundários. Ao longo das vias principais, eram colocados de milha em milha, cipos ou colunas indicadoras das distâncias a percorrer em relação ao ponto de partida ou de chegada da via, os marcos miliários. Para além da indicação da milha, (milia passuum 1.481,50m) os marcos contêm outras informações, nomeadamente o nome do imperador que o mandou erigir”.
Em Portugal ainda existem muitos vestígios de estradas romanas, em especial das grandes “Viae(vias) Olisipo/Bracara,(Via XVI) Olisipo/Emerita, Bracara/Asturica, etc.

Através da DGPC (Direção Geral do Património Cultural), eis o que consta, sobre a Via Romana XVI-Bracara-Cale (Braga-Porto) no que concerne à Divisão Administrativa do Porto/Trofa (Bougado – São Martinho e Santiago, Alvarelhos e Muro- três freguesias do atual concelho da Trofa por onde “passava” a antiga Via Romana), com classificação de Monumento Nacional- Dec de 16.06.1910 , DG nº 136 de 23/06/1910: ‘ (parte)

“Classificada em 1910 como Monumento Nacional, a ‘Via romana de Braga ao Porto’ foi edificada durante o período de romanização do actual território português, identificada por oito marcos miliários pertencentes à antiga Via XVI, destinada a ligar as importantes cidades de Bracara Augusta (Braga) e de Olisipo (Lisboa), a primeira das quais constituía, ao tempo, o núcleo urbano mais relevante de todo o Conventus Bracaraugustanus.

O território abrangido, na atualidade, pelo concelho da Trofa é particularmente rico em vestígios da presença romana, nomeadamente no que se refere a elementos remanescentes do processo de afirmação do Império Romano, que contemplava a implementação de uma política administrativa assente em dois vetores vitais para a sua perpetuação: na definição de unidades político-administrativas e no traçado de vias que assegurassem uma ligação permanente e célere entre os principais centros (Cf. ALARCÃO, Jorge Manuel N. L., 1990).

É o caso da “Via de Braga ao Porto, 8 marcos miliários, série Capela”, designação tomada a partir do nome do Padre Martins Capela que os identificou na obra “Marcos Miliários do Conventus Bracaraugustanus”, publicada em finais do século XIX. Mas não só, pois a sua localização resultava, de igual modo, de uma ampla campanha de salvaguarda do património, promovida pelo Conselho Superior dos Monumentos Nacionaes, então adstrito ao Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria, no âmbito da qual a inventariação das (então) denominadas riquezas artísticas e arqueológicas ocupava um lugar central. Um esforço que resultaria na sua inclusão na primeira grande listagem de “monumentos nacionais”, decretada em 1910, num testemunho claro da relevância que os vestígios arqueológicos iam assumindo entre nós, e, especialmente, no seio das esferas de decisão política nacional.

Essencial à consolidação da nova administração territorial imposta por Roma, esta via servia os inerentes propósitos militares, ao mesmo tempo que assegurava o transporte de matérias-primas imprescindíveis ao bom desempenho das ordens emanadas do epicentro da nova ordem imperial, com especial relevo para os bens metalíferos. E bastaria examinar a notável concentração de marcos miliários e a própria citação de um número considerável de imperadores, para comprovarmos esta condição, traduzida nas permanentes intervenções de conservação realizadas ao longo do seu percurso.

Os miliários em análise foram mandados colocar ao longo de cerca de 20 anos, durante os impérios de Publius Aelius Traianus Hadrianus (Adriano) (76-138 d. C.), Marcus Aurelius Antoninus – Caracala – (c. 186-217 d. C.) – a quem se deveu a elevação de Bracara Augusta a capital da ‘Galécia’ (a actual Galiza) -, Flavius Galerius Valerius Licinianus Licinius (250-325 d. C.) e, por fim, de
Flavio Giulio Costante (321-356 d. C.). [Amartins]”.

“O itinerário romano de Bracara Augusta a Olisipo (Braga-Lisboa) estabeleceu a rota definitiva entre as cidades, que subsiste até hoje, sobrepondo-se sucessivamente a Estrada Real e a Estrada Nacional 1 até Conimbriga, mas a partir daqui a via segue para Seilium, a actual cidade de Tomar enquanto a EN 1 deriva para poente, por um outro trajecto também romano que ligava Conimbriga às civitas de Collippo, na região de Leiria e Eburobritium, junto a Óbidos. O itinerário utiliza várias vias romanas independentes; inicialmente seguia a via romana de Bracara a Cale (Braga-Porto) num total de 35 milhas para um trajecto hoje praticamente seguro e bem documentado por inúmeros miliários (com pelo menos 25 referências)…” (Itinerários das via Romanas).

Marcos Miliários
Eram padrões singulares que “aliançavam” (= ligavam) ao nome de César, imperador dos Romanos, a informação útil relativa ao número de pés percorridos ou a percorrer. Foram colocados ao longo da estrada do Império Romano (Via Romana XVI de Bracara ‘Braga’ a Cale ‘Porto’). Com intervalos de 1.481,5 metros, estas colunas, de base retangular, eram de altura variável (cerca de 20 polegadas de diâmetro) e pesavam cerca de 2 toneladas. Na base estava inscrito o número da milha relativo à estrada em questão. Na atualidade, são os miliários que permitem aos arqueólogos e historiadores estimar os trajetos das antigas estradas romanas…

Lista dos Marcos Miliários “achados” ou “descobertos”, ao longo dos tempos, no itinerário da Via Romana que atravessa(va) o atual concelho da Trofa:

Muro – Encontrado na Carriça 1 miliário na Quinta do Dr.Lima Barreto dedicado a Maximiano, que, entretanto, foi (destruído)? – ao km 12,7 da EN 14, indicando 23 milhas a Braga.
Alvarelhos – Dentro da Quinta do Paiço: 1 miliário com 1,14m de altura e 1,94m de circunferência (dedicado ao imperador Caesari Traiano Hadriano). Terá sido reutilizado num dos torreões da casa. Foi, certamente, deslocado da via romana, que seria, neste troço coincidente com a EN 14.
Peça Má – Encontrado 1 miliário, dedicado ao imperador Constâncio II, que estará na posse da Casa de Abade de Sousa Maia e 1 fragmento de miliário dedicado a Carino e que estará (hoje?) no jardim da casa antiga de Dr. António Cruz na Trofa Velha.
Antiga ponte sobre o rio Cedões (rio Trofa) na Trofa Velha – Encontrados quatro miliários dedicados aos imperadores Constante, Licínio, Magnêncio e Tácito. Dois estão, atualmente, na Casa da Cultura da Trofa (Constante e Licínio); dos restantes, um estará no Museu Abade Pedrosa, em Santo Tirso, e o outro, dedicado a Tácito (recolhido em 1875), estará desaparecido.
Entre a antiga Estação da CP e a Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado terá aparecido um miliário, dedicado a Carino, que estará em local desconhecido.
Ao todo, no decorrer de vários anos, foram encontrados, investigados e documentados ao longo do troço da antiga estrada romana, – no que ao nosso concelho diz respeito, – oito miliários e um fragmento de miliário, cujo património histórico – nos primeiros séculos da nossa era -, foi, é e será, para sempre, de um valor incalculável, mas, por incúria, desleixo e total desconhecimento pela história da nossa terra, (será ignorância?) ou por um pretenso “egoísmo”, desapareceram, (ou alguém fez desaparecer) a quase totalidade deles, restando na Trofa, em local “visível”e ao público apenas dois miliários, que estão na Casa da Cultura. É muito pouco!