O exercício do poder seduz. Seduz e oblitera o sentido de dever. Esta será talvez a conclusão principal a retirar da avaliação de dois anos de governação do Eng. Sócrates e seus ministros.

O Primeiro Ministro português, qual camaleão, teve a habilidade de moldar a sua personalidade aos novos tempos e aos novos consumidores. E aqui reside a primeira premissa relativa à consolidação da imagem do governo: porque os eleitores são consumidores moldáveis a estratégias de Marketing e Publicidade, interiorizaram o conceito de rostos de rigor, firmeza e Helder Reisnenhumas simpatias. Ainda que esses rostos, mais ruga, menos simpatia, fossem maioritariamente os mesmos que integraram o executivo do Eng. Gueterres. Irónica comparação: o governo do Eng. Guterres, piedoso até à sua essência, dialogante, compreensivo, colhendo no primeiro mandato (numa época em que gozava ainda os últimos resquícios de crescimento económico de Portugal, a reboque do crescimento económico europeu e dos fundos estruturais europeus) o beneplácito dos portugueses à sua afabilidade, esgotado o seu modelo na inconsequência prática, na ineficácia das medidas governativas e, na grande maioria dos casos, na ausência de medidas que conduziram à estagnação do país, enfrentou a meio do segundo mandato o descontentamento geral. Portugal havia-se cansado de um modelo, que agora se mostrava desadequado à realidade económica e social do país. Os novos tempos de desemprego e arrefecimento económico exigiam o assumir de rostos de austeridade. Nessa medida, o Eng. Sócrates permitiu-se adaptar às circunstâncias e realizar uma operação de restyling que lhe permitisse enfrentar o eleitorado como o a firmeza e a determinação em pessoa: largou o seu rosto humano, para assumir uma outra identidade, com o rosto semelhante ao de uma estátua. O comportamento cambiou de igual forma, propendendo-se agora para um iluminismo próprio chefes de Estado com laivos de autoritarismo – realce-se o mais recente caso de concentração, no primeiro ministro, de todo o sistema de informações e polícias, assemelhando-se, desde já, a promover um poder discricionário e insindicável.

Na verdade, em certos aspectos, este tem-se mostrado um governo determinado: determinado em esgotar os fundos europeus até 2013 com o Aeroporto da Ota e a construção das linhas (que variam de localização consoante o mês do calendário) do Comboio de Alta Velocidade para nos ligarem a Espanha; determinado a anunciar medidas, planos e estratégias, cuja implementação prática jamais se alcança, como constitui paradigma o Plano Tecnológico. Supomos, no entanto, que estejam os nossos governantes a desenvolvê-lo, uma vez que o Ministro da Economia, Manuel Pinho, mostra-se pródigo em anunciar além portas, aquilo que já adquirimos por realidade há algum tempo: Portugal tem mão de obra barata e portanto não qualificada, pronta a ser empregada nas empresas estrangeiras de base tecnológica que pretendam investir em Portugal!

Assim, entre o deve e o haver, podemos afirmar com segurança que o governo deve explicações e medidas concretas aos portugueses e que há pouca margem de paciência para maiores devaneios políticos. Aliás, as anunciadas e virtuosas (como nos foram apresentadas) reformas do Estado, parecem querer tirar-nos do sério: do mesmo passo que se nos apresentam a reforma da administração pública, o primeiro ministro coloca em prática a defendida máxima do Eng. Guterres – jobs for the boys! E cada vez mais em lugares de destaque, seja em empresas públicas ou institutos públicos, ultrapassando-se todos os limites da desfaçatez. Menos mal: nos lugares que dependem de nomeação política não chegou ainda o espectro de desemprego. Já os trabalhadores que exercem a sua actividade for a do Portugal Europeu que é Lisboa, esses, sujeitam-se como podem ao flagelo do encerramento de empresas, com especial relevo no Norte do país, em que todos os dias, sem excepção, encerram unidades de produção nacionais e internacionais. E este fenómeno, em boa medida, é também um fruto da actividade governativa: taxa de IRC ao nível da Europa, taxa de IVA bem acima da média europeia. Tudo, em nome da abolição do défice (sendo certo que asfixia as empresas, que, assim, encerram, e deixam de gerar receita), sem cuidar de levar em linha de conta a situação periférica do nosso país (o que acrescenta custos aos produtos) em relação ao centro da Europa.

Em 2005, Portugal registou um crescimento económico de 0,5%; em 2006, esse emsmo crescimento cifrou-se em 1,3%. Em termos comparativos, em 2005 houve um país na Europa comunitária a crescer menos que Portugal; em 2006, nenhum.

Apesar da insistência na bandeira eleitoral da criação de emprego, certo é que a taxa de desemprego já ultrapassou a fasquia dos 8% e mostra-se galopante: há, hoje, um nível recorde de desempregados, e a situação mostra-se principalmente preocupante no Norte e no nosso Vale do Ave. Não só isso, como também se deteriora o apoio do Estado a quem mais necessita – desempregados, idosos e crianças: não há investimento público, encerram-se as urgências dos hospitais e as maternidades e escolas. A perspectiva economicista, fria e insensível, é feita imperar pelo Governo, sem aferir dos custos humanos e sociais.

Não obstante, o modelo governativo em voga – firme, frio, económicamente calculista no que respeita aos deveres de Estado – não tardará a dar lugar a um novo. Com o aumento do desemprego e a diminuição da protecção social, aumenta a precariedade, a pobreza. Em casos extremos que começam a abundar, deparamo-nos já com a mendicidade e a falta de segurança. Urge uma política governativa humana, emocional, mas com critérios bem definidos, sob pena de assistirmos todos os dias, não como espectadores, mas como actores, a uma tragédia clássica.