A 18 de maio assinala-se o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, estabelecido em 2012 pela Organização Europeia da Ciência das Plantas, para celebrar a vida misteriosa e fascinante das plantas. Para marcar esta data, o NT foi falar com duas floristas para tentar perceber o segredo que escondem as flores para fazerem a diferença na vida de muitas pessoas.

Márcia Neves diz que caiu na profissão “de paraquedas”. Sem nunca antes ter alguma afinidade especial com as flores, foi a vontade de sair da escola e de se tornar financeiramente independente que a catapultou para um mundo do qual agora só quer sair “quando for velhinha”.

Depois de concluir o 9.º ano, disse adeus aos livros e entrou pela porta da loja Fatinha Florista, onde aprendeu a amar a profissão. “Do que sou hoje, também lhe devo a ela, que sempre disse que eu tinha capacidades para muito mais e incentivou-me a continuar nos momentos em que quis desistir”, conta.

Como diz o provérbio que não podia combinar melhor com esta reportagem, nem tudo são rosas e Márcia atravessou um período de grande incerteza, não fosse ela uma adolescente numa atividade profissional ainda pouco explorada na Trofa e, por isso, bastante solicitada. “Trabalhávamos muitas vezes, nalgumas situações dia e noite, quando tínhamos de preparar arranjos para casamentos, por exemplo”.

Nessa altura, e apoiada nalguma imaturidade própria da idade, decidiu abandonar o ofício, mas rapidamente percebeu que o caminho já desbravado tinha posto a descoberto uma vocação: “Surgiu a oportunidade de eu tirar um curso e foi nessa altura que eu percebi que ser florista era o que eu queria, porque adorava trabalhar com flores”.

Depois de mais de uma década a trabalhar por conta de outrem, Márcia decidiu criar o próprio negócio, que germina há 12 anos, no centro da cidade da Trofa.

Orgulha-se de ver clientes que a conhecem “desde o início” a confiar nos serviços que presta e que passam, constantemente, por evolução. “Temos sempre de apresentar coisas novas, com materiais inovadores na área e soluções que antigamente eram mais difíceis de obter, por falta de meios. Hoje, damos asas à imaginação, desenvolvemos ideias novas e fazemos coisas que, realmente, nos dão muito gosto”, referiu, sem deixar de sublinhar que não se arrepende “nada” de ter arriscado ao estabelecer-se por conta própria.

“Contei com o apoio de muita gente, de clientes que trabalham comigo quase desde o início e que, ao incentivarem-me, ajudaram-me imenso a avançar. Nunca mais esquecerei a ajuda que me deram e o facto de, muitos, ainda me acompanharem. E depois, também tenho o apoio da minha família, do meu marido, das minhas irmãs e dos meus pais, que são o meu pilar”, frisou.

A sua história foi contada enquanto fazia o arranjo de uma coroa de flores, que a ocupava numa manhã de sábado atipicamente calma, devido à pandemia de Covid-19. Apenas foi interrompida por um telefonema de uma cliente que encomendou um arranjo para embelezar a casa. É esta a magia das flores, capaz de contribuir para o bem-estar de um ser humano. “Nesta fase de pandemia, em que se está mais tempo em casa, há pessoas que precisam de ter uma jarra de flores bonita para alegrar os dias e dar ânimo”.

Também na cidade, mas bem mais nova no ramo, Patrícia Lopes decidiu abrir a sua loja junto ao cemitério, depois de anos a partilhar o gosto pelas flores com a mãe. “Eu ajudava-a nos arranjos que ela fazia no cemitério e com a morte do meu afilhado ganhei ainda mais vontade de ir enfeitar. Decidi, entretanto, tirar o curso de florista e arrancar com esta aventura. Tenho a loja há oito anos”, contou.

Atualmente, vive um dos momentos mais complicados do negócio, com o abrandamento drástico das vendas e serviços, à custa da pandemia de Covid-19. Mas, para já, o vírus não belisca em nada o que conquistou e a satisfação dos clientes quando veem o resultado das encomendas que fazem.

Não esconde que o trabalho é árduo e “sem horas marcadas” e requer uma gestão muito criteriosa, não fossem as plantas produtos de pouca duração. Nalgumas épocas, principalmente no Dia de Todos os Santos, Patrícia Lopes não tem hora de saída, para conseguir fazer face aos cerca de 200 arranjos que tem de fazer. “São dois dias a trabalhar quase ininterruptamente. Na última vez, fui a casa só uma hora, porque já não aguentava com dores nas costas”, confessa.

A Páscoa e os dias do pai, da mãe e dos namorados são as épocas em que o negócio corre melhor.

As flores mais vendidas e os principais erros a tratar delas

“Ama as tuas rosas”, já dizia Fernando Pessoa. E a verdade é que são elas as “rainhas” por entre as flores mais vendidas. Márcia e Patrícia confirmam que rosas “saem todos os dias”, durante todo o ano. “É uma flor delicada e é aquele miminho que qualquer pessoa gosta de receber”, justifica Patrícia Lopes.

Na lista das mais solicitadas estão também, segundo as floristas, as tulipas e as margaridas, mas para Márcia as mais fascinantes são as orquídeas, principalmente as brancas. “Dão-me a sensação de leveza, mas não consigo explicar tudo o que representam para mim. Estas flores parece que se riem para nós”, confessou.

Já para Patrícia, a flor que a fascina é a tulipa, porque “não é estática, ganha vida própria e vai atrás da luz”.

As floristas partilharam ainda aqueles que são os erros mais comuns no tratamento das flores. Ambas referem que, muitas vezes, as pessoas esquecem de fazer a troca, frequente, da água para manter as flores mais espevitadas: Patrícia Lopes fala ainda da necessidade de, no caso das flores de corte, ir removendo o fundo do caule já a apodrecer, para que as plantas tenham capacidade de absorver a água.

Já Márcia sublinha também a questão da luminosidade em dose suficiente e na “delicadeza”. “Temos que nos lembrar que se tratam de seres vivos que precisam de atenção e carinho”, frisou.

Quanto à eterna questão sobre se falar com as flores ajuda ou não, as floristas concordam de que essa prática é benéfica, mas para o humano.