Já disse por aqui, e quem me conhece sabe ainda melhor, que sou um profundo pós-crítico das redes sociais. Digo pós-crítico pois, como tudo na vida, essa sensação negativa advém da utilização errónea que nós, humanos, damos àquilo que são as permanentemente presentes redes sociais, e não a sua existência propriamente dita. Desde o Facebook, ao Twitter, passando pelo Instagram. Todas elas têm as suas características específicas, embora cada vez mais tentem tornar-se iguais.
Tenho a impressão que o exagero nesse uso está a levar a um atrofio mental da população dita “normal”. E para mim, um eterno teórico da conspiração, nada me contraria a ideia de que esta fama dos dispositivos móveis e destas redes viciantes que prometem conectar todo um mundo, fazendo exatamente o oposto, são a distração perfeita para que as pessoas não pensem no que realmente importa em termos civis. Quem quer saber dos debates quinzenais do parlamento ou da aprovação desta ou daquela lei, enquanto tem ovelhas para alimentar num qualquer jogo do Facebook? Ou que importância tem, realmente, a morte de 150 crianças num qualquer país do médio oriente, quando a famosíssima (porquê?!) Kim Kardashian publicou uma foto toda nua no seu Instagram para os seus mais de 109 milhões (!!!) de seguidores. Está tudo parvo.
Lia a revista do Expresso desta semana, que traz Kendall Jenner na capa, e pensei precisamente sobre tudo isto. Diz a reportagem que esta mulher, que aos 11 anos viu câmaras entrarem por sua casa para mostrarem à América a vida da sua família (Super Nanny, alguém?), é, supostamente, a modelo mais famosa do mundo, e parece que o mundo da moda se deixou invadir pelas redes sociais. Hoje em dia, a interação das modelos com os “fãs” das redes sociais é um dos requisitos a ter em conta na hora da sua contratação. E, por cada foto que Kendall publica no seu Instagram, ganha, em média, 180 mil euros. Se este valor já é absurdo, imagine o leitor que a marca por trás da imagem de Kendall tem um retorno, por cada publicação, que pode atingir os 3 milhões de euros.
É absurdo pensar que existem pessoas que ganham dinheiro apenas por respirar. Se o dinheiro que o futebol move é – justamente – criticável, porque não este mundo bizarro, em que uma qualquer personalidade ganha, por publicar uma foto, mais dinheiro do que muitos agregados vêem na vida? Como é possível que não exista uma consciência global do quão errado isto é?
Porque não existe consciência global. Esta pessoas enriquecem à custa dos leitores, dos seguidores, dos fãs e desse povo idiota (por opção) que dá tempo de antena a quem não o merece. O advento das redes sociais veio solidificar uma ideia global de carneirização que, cada vez mais, com a ditadura do politicamente correto e do questionamento geral idiota, consegue abafar e calar os dissidentes, que são cada vez mais olhados de lado por colocarem em causa o status quo definido. Hoje em dia, quem criticar reality shows que são, pura e simplesmente, ridículos antros de estupidificação, quem criticar a utilização das redes sociais, ou as revistas cor de rosa, é insultado e vaiado. Sou completamente a favor da liberdade de expressão. Mas também sou a favor de alertar para aquilo que é, a meu ver, o declínio cada vez mais acentuado da intelectualidade social.
Literariamente, estamos conversados.