Ano 2009
Alta Corrupção
O jornalismo de investigação, tem vindo a ser menosprezado pelos leitores da comunicação social escrita, mas a ele se deve o despoletar de assuntos que originaram processos, aos quais a justiça tardou a aplicar as penas aos prevaricadores. Foi assim no caso da pedofilia; É assim em muitos e graves casos de corrupção. No caso Freeport, os jornais portugueses alertaram o assunto há mais de 7 anos, mas foi preciso uma investigação estrangeira, neste caso inglesa, para que a justiça retomasse a investigação.

Em resumo: um ministro do governo socialista de António Guterres, terá recebido dinheiro para facilitar a legalização do Freeport. Um dos problemas com a legalização, seria afinal resolvido pela aprovação do mesmo, em Conselho de Ministros, três dias antes de o PS ter perdido as eleições.
São estes os factos relatados, para além da dificuldade sentida pelos investigadores portugueses, que desde 2005 estão à espera de uma resposta das autoridades inglesas acerca de contas bancárias do Freeport e da firma Smith e Pedro, entidade pagadora das tais luvas. Por seu turno, os ingleses esperavam a colaboração activa das autoridades portuguesas e até agora sabe-se que o dinheiro saiu de Inglaterra para Portugal, passando por offshores da Suíça e Gibraltar, acabando eventualmente nos bolsos de corruptos.
O caso está a ser investigado pelo DCIAP – Departamento Central de Investigação e Acção Penal. E também está a ser investigado pelos ingleses. Como é que se faz uma investigação destas, envolvendo políticos de topo, em Portugal? É uma pergunta que ainda ninguém fez como deve ser. Que meios podem ser usados. Como é que a lei processual penal permitirá ou não, uma investigação destas, no seio do poder político.
Não é o dvd ou a validade da prova que está em causa. É o facto de alguém, importante e directamente implicado no caso, ter afirmado a existência de corrupção, através de afirmação de factos. Não é uma denúncia anónima. Não é uma suspeita completamente infundada e fantasiosa, na medida em que provém de quem tem o domínio dos factos. Pode ser falsa? Pode. Mas antes de tal, pode ser afirmado com grau próximo da certeza, é preciso investigar. A fundo e em força.
Se continuarmos nesta senda de estratégia de avestruz, de comunicados habilidosamente redigidos, para negar suspeitas que se tornam evidentes na sua acusação básica e fundamental, vamos mal. De mal a pior.
Espera-se e deseja-se que a investigação seja capaz de chegar ao fim para depois o poder judicial o julgar e condenar os corruptos, se os houver. Se isso acontecer, será um dia para ficar marcado no calendário do nosso sistema democrático e judicial.
Mas, possivelmente, isto é um país sonhado. O real pode muito bem ser outro.
José Maria Moreira da Silva
moreira.da.silva@sapo.pt


