Os dias de S. Gonçalo são mais ou menos como aqueles em que há jogos grandes de futebol. Não importa se o preço do combustível subiu, se o IVA passou para 25 por cento ou se o IMI é calculado pelo nível de exposição solar. Nestes quatro dias, que em 2020 calharam de 16 a 20 de janeiro, nada mais importa que Covelas, terra sagrada de todos aqueles que salivam pelas papas de sarrabulho ou que buscam por um santo graal dentro de uma malga de cerâmica.

“Ó mãe, já chegamos à festa?” A pergunta surgia inocente da boca de uma criança que, chegada a pé ao monte do Meco da Guerra, defrontava-se com um frenesim de gente em movimento ou parada junto de barracas mais ou menos apetrechadas que apresentavam opções de pequeno-almoço ou lanche matinal mais robusto, no qual o leite era substituído pelo vinho do Porto e a manteiga para o pão dava lugar a uma bifana ou outro petisco de natureza suína.

É ali que se faz já o reforço para a maioria dos romeiros que, a pé ou de bicicleta, percorrem quilómetros pelos caminhos florestais tendo como destino a festa de S. Gonçalo, em Covelas. E é ali que a festa continua no caminho reverso, porque o dia é para aproveitar, principalmente se o sol der o ar da sua graça, como este ano.

À medida que a temperatura ambiente subia para níveis a roçar o agradável (e inesperado) para um mês como o de janeiro, o reboliço aumentava, sinal que o meio da manhã é o clímax de movimento naquele ponto do caminho em direção a Covelas. E à medida que o número de pessoas cresce por metro quadrado, aumentam, de forma exponencial, as manifestações de boa disposição, que não têm género nem idade. Este ano, Fátima Peixoto, residente no lugar da Abelheira, foi uma das figuras mais vistosas, graças à entrevista cedida à TrofaTv e que, em três dias, ultrapassou as 260 mil visualizações no Facebook. Entre apitos, lá ia cantando aquele hit popular famoso “fora da bouça”, contribuindo para a “borga”, como definiu, que é a festa de S. Gonçalo. Mas afinal o que é que esta romaria tem que as outras não têm? “Tem a bengala para puxarmos por ela e tem o vinho do Porto para abastecermos”, respondeu, antes de voltar à cantoria e aos apitos.

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No Meco da Guerra confluem romeiros de toda a parte. Elisabete Dias é de S. Miguel da Carreira, Barcelos, mas iniciou a caminhada junto à estação ferroviária da Trofa. Aventurou-se pela primeira vez e confessou que não esperava encontrar “tanta gente” no caminho, mas apesar de estreante, sabia bem ao que ia: “Quando chegar, vou comer um rojão”.

Manuel Araújo, da Trofa, estreou-se o ano passado e garante que, desde aí, está o ano inteiro “à espera deste dia”. O entusiasmo foi tanto que até montou uma tenda no Meco da Guerra e levou uma mota que deu nas vistas pelos ruidosos “rateres” e o atrelado em forma de pipa, onde estava armazenado o combustível, vulgo “vinho tinto”. “Este dia é especial e enquanto for vivo, participarei sempre na festa”, garantiu.

Para o S. Gonçalo de Covelas há quem vá pela caminhada, em contexto desportivo, lúdico ou até religioso, pela gastronomia, para provar o caldo de nabos, as papas de sarrabulho, o rojão ou a bifana, ou pela experiência enóloga, na qual, entenda-se, são dispensados tiques como maneiras de segurar o copo, fazer girar o líquido e dispô-lo sobre um fundo branco para lhe apreciar a cor. Aqui, os especialistas do verde enchem a malga, degustam e pedem para voltar a encher. O número de vezes pode variar, consoante a coragem e o número de horas que permanecer em território covelense. É que, mesmo não dispondo de capacidade financeira para reabastecer, não faltarão, a cada esquina, voluntários altruístas dispostos a “matar a sede” a um romeiro.

Os resistentes não baterão a porta à festa sem antes “matar o bicho” com um chiripiti bem forte, capaz de curar de qualquer hipotética maleita proveniente de excesso de abastecimento alimentar. E para quem acha que este gesto é indigno de qualquer pessoa de bem, recorro à definição incontestável da Porto Editora que atesta estarmos perante uma “bebida, fortemente alcoólica, preparada com bagaço e mel, que pode tomar-se a par de café quente, em combinação tida como apropriada para enfrentar o tempo frio”. E como sabemos, nos últimos dias – e noites! -, as temperaturas estiveram abaixo da dezena de graus naquela freguesia. Pelo exposto, estão todos perdoados, assim como os que, durante o fim de semana, se fartaram de pronunciar “quilhõezinhos”, pois não têm culpa de o doce de S. Gonçalo ter como nome um vocábulo que, não existindo no dicionário (não vale a pena ir procurar), só tem o significado que a população lhe dá. Viva a cultura popular!

Para a história fica a ideia, por muitos propalada, de que em 2020 se registou um recorde de romeiros no S. Gonçalo. Não dispondo de tecnologia adequada para aferir da premissa, arrisco-me a concordar, usando como principal argumento as imagens recolhidas pela TrofaTv, que perpetuará na História mais uma edição de sucesso da festa.

Dito isto, já se passou quase uma semana. Falta muito para janeiro de 2021?