Ricardo Maia é de Alvarelhos e há três anos regressou de uma missão em Moçambique. Olhando à distância, com o calma e a ponderação que o tempo oferece ao passar, as palavras que escolhe para contar a experiência ainda sentem a “marca” do continente africano e não escondem a vontade de voltar…

“Era uma vez um jovem de nome Ricardo, que partiu para Moçambique, para terras macuas, com o intuito de trabalhar em comunidade com a equipa missionária de padres espiritanos que já há algum tempo por lá estavam em Missão.

Esse jovem sou eu e a história que vos conto foi por mim vivida e é com alegria que a partilho convosco. Foi em Outubro de 2006 que cheguei a Itoculo, uma paróquia da diocese de Nampula, no nordeste de Moçambique. Têm razão as pessoas que dizem que África marca para sempre e tal foi a força que, acabado de chegar, pude presenciar as cores e sabores, gentes e cultura, que em cada pedaço de chão deixa um traço no coração de quem lá passa. A paróquia de Itoculo é composta por 77 comunidades cristãs, espalhadas por uma vasta área (60×80 quilómetros), com 80 mil habitantes, dos quais apenas dez por cento são cristãos. A Missão de Itoculo, encontra-se numa zona rural, onde subsiste uma pobreza extrema. As vias de comunicação começam a ser restabelecidas. Contudo, havia sempre algum caminho matreiro que nos fazia perder na aventura de tirar o jipe das areias ou terras enlameadas. A educação e a saúde são dois sectores bastante carenciados. É precisamente na área da educação que vou dar o meu apoio enquanto professor de Educação Musical e Formação Cívica. A experiência de dar aulas neste contexto foi profundamente marcante, retendo ainda hoje na lembrança os olhares vivos e brilhantes das crianças sem nada, mas cheias de vontade de aprender, sem preocupação em percorrer, descalças sob um sol tórrido, quilómetros e quilómetros, durante horas e horas, até à escola apenas para… aprender. Que grande lição para as nossas crianças portuguesas!

Em geral, só a partir dos nove anos é que começam a dominar a língua portuguesa, falando primeiramente a língua nativa, o macua. E perguntam vocês: “‘O Ricardo dava aulas em macua?’” Não, não dava. Eram em português e apenas aos 6º e 7º anos de escolaridade, em idades compreendidas entre os 11 e os 18 anos. Alguns aí em casa poder-se-ão interrogar se alguns dos alunos não teriam “idade a mais” para estar no 6º e 7º anos de escolaridade. Contudo, a resposta é fácil, mas testemunha uma realidade difícil.

A escola ficava a muitos quilómetros de distância para alguns alunos e, portanto, como não havia carro, autocarro ou metro, apenas algumas bicicletas para poucos afortunados e uma dezena de motos em toda a paróquia, as crianças ficavam em casa com os pais, partilhando as tarefas domésticas, desde procurar água e transportá-la, lavar roupa, ajudar na machamba (campo de cultivo) no cultivo de milho, mandioca, gergelim, algodao, amendoim, feijao, batata-doce, ajudar na confecção dos alimentos, que tinha por base a “chima” (farinha de milho cozida), cuidar dos irmãos mais novos, tendo também momentos de convívio e brincadeira com as outras crianças do bairro. Só quando eram autónomas e capazes de se desenrascar, é que se mudavam para o centro da paróquia, onde estava a escola. Lá, ou ficavam em casa de um familiar ou partilhavam uma residência com outros estudantes ou então alugavam uma casa e tinham que colaborar nas despesas e pagar uma renda.

Curioso o sentido patriótico do povo moçambicano, em especial os estudantes, que todas as manhãs se concentravam e entoavam o hino enquanto se hasteava a bandeira nacional. Quando pensamos em escolas, pensamos que são “uma seca”, no dizer dos estudantes de hoje em dia. Esses mesmos estudantes que não valorizam as condições em que têm essas mesmas aulas e o facto de as terem. Na Escola de Itoculo, as crianças não tinham mesas nem cadeiras. Sentavam-se em bancos e colocavam os cadernos sobre as pernas. As salas não tinham electricidade. Não havia chegado o choque tecnológico, tão em moda nos dias de hoje. Contudo, não se deixava de ensinar e muito menos de aprender. Sim, aqueles olhares atentos e sedentos de sabedoria, de conhecimento, que dariam gosto a qualquer professor de hoje em dia. Além de mim, como professor estrangeiro e missionário, estava a irmã Felicité, missionária espiritana, que leccionava Inglês. Ao todo éramos nove professores, três nacionalidades: Moçambicana, Portuguesa e República Centro Africana. Ser professor é abrir as portas do conhecimento. E, sem dúvida que se aluno havia que as queria escancarar, esse era o Albertino. Impossível deixar de me lembrar dele. Impossível deixar de admirar aquela vontade, aquele entusiasmo e determinação com que enfrentava cada dia. Com o seu sorriso e alegria espalhava um tom diferente naquelas terras para mim já por si diferentes. Uma diferença que contagiava e fervilhava nas outras crianças da turma do 7º A, como num atrelar a uma onda que se espraia em sonhos, esperanças, risos, olhares… de crianças.

Podemos julgar que isto é um passado, quando já é o futuro, muito mais que sonho puro, embarcado num projecto, talvez de uma utopia discreta, mas pelo Albertino muito apetecida e que o vai levar longe. O sonho do Albertino, que ele criou e recriou, é o sonho de muitas crianças macuas, que não se entregam à euforia do destino e se recusam ser folhas de papel, números gritantes do Terceiro Mundo, mas tinta do amanhã, alicerce sólido do futuro de um país, o seu país, Moçambique.

O dia-a-dia na Missão de Itoculo era passado entre a escola e a visita às comunidades cristãs. A equipa missionária desdobrava-se de maneira a dar asas a um trabalho que passava pela formação de leigos e de líderes comunitários, pela formação na justiça e paz e em cuidados básicos de saúde, na elevação do papel das mulheres, na execução de uma rede de escolinhas espalhadas pela paróquia, de maneira a suprir as carências na área da educação e, em especial, pela formação catequética.

Dos momentos belos que guardo de Moçambique, e que foram muitos, dando para uma enciclopédia bem grossa, vem-me neste momento à memória o céu à noite. Todo aquele céu imenso, estrelado e cintilante, era silêncio, depois de um dia marcado pela agitação,  conversas, ideias, correrias, trabalho e alegria. Aquele céu era a prova de que Deus estava com aquele povo e que o envolvia ternamente, na certeza de um futuro melhor, na fé acesa e desperta porque vivos e não poetas, que é coisa de sofrer, mas poemas, saídos da pena de Deus, na terra dos homens.

Quanta coisa quis fazer e quanta coisa não fiz. De um lado Deus permitiu. De outro lado o tempo não quis. E é por isso que sonho um dia voltar, para um lugar tão longe e tão perto, mas que se revelou um mundo que me era tão certo”.

Ricardo Maia