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Ano 2011

Um trofense em Moçambique

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Ricardo Maia é de Alvarelhos e há três anos regressou de uma missão em Moçambique. Olhando à distância, com o calma e a ponderação que o tempo oferece ao passar, as palavras que escolhe para contar a experiência ainda sentem a “marca” do continente africano e não escondem a vontade de voltar…

“Era uma vez um jovem de nome Ricardo, que partiu para Moçambique, para terras macuas, com o intuito de trabalhar em comunidade com a equipa missionária de padres espiritanos que já há algum tempo por lá estavam em Missão.

Esse jovem sou eu e a história que vos conto foi por mim vivida e é com alegria que a partilho convosco. Foi em Outubro de 2006 que cheguei a Itoculo, uma paróquia da diocese de Nampula, no nordeste de Moçambique. Têm razão as pessoas que dizem que África marca para sempre e tal foi a força que, acabado de chegar, pude presenciar as cores e sabores, gentes e cultura, que em cada pedaço de chão deixa um traço no coração de quem lá passa. A paróquia de Itoculo é composta por 77 comunidades cristãs, espalhadas por uma vasta área (60×80 quilómetros), com 80 mil habitantes, dos quais apenas dez por cento são cristãos. A Missão de Itoculo, encontra-se numa zona rural, onde subsiste uma pobreza extrema. As vias de comunicação começam a ser restabelecidas. Contudo, havia sempre algum caminho matreiro que nos fazia perder na aventura de tirar o jipe das areias ou terras enlameadas. A educação e a saúde são dois sectores bastante carenciados. É precisamente na área da educação que vou dar o meu apoio enquanto professor de Educação Musical e Formação Cívica. A experiência de dar aulas neste contexto foi profundamente marcante, retendo ainda hoje na lembrança os olhares vivos e brilhantes das crianças sem nada, mas cheias de vontade de aprender, sem preocupação em percorrer, descalças sob um sol tórrido, quilómetros e quilómetros, durante horas e horas, até à escola apenas para… aprender. Que grande lição para as nossas crianças portuguesas!

Em geral, só a partir dos nove anos é que começam a dominar a língua portuguesa, falando primeiramente a língua nativa, o macua. E perguntam vocês: “‘O Ricardo dava aulas em macua?’” Não, não dava. Eram em português e apenas aos 6º e 7º anos de escolaridade, em idades compreendidas entre os 11 e os 18 anos. Alguns aí em casa poder-se-ão interrogar se alguns dos alunos não teriam “idade a mais” para estar no 6º e 7º anos de escolaridade. Contudo, a resposta é fácil, mas testemunha uma realidade difícil.

A escola ficava a muitos quilómetros de distância para alguns alunos e, portanto, como não havia carro, autocarro ou metro, apenas algumas bicicletas para poucos afortunados e uma dezena de motos em toda a paróquia, as crianças ficavam em casa com os pais, partilhando as tarefas domésticas, desde procurar água e transportá-la, lavar roupa, ajudar na machamba (campo de cultivo) no cultivo de milho, mandioca, gergelim, algodao, amendoim, feijao, batata-doce, ajudar na confecção dos alimentos, que tinha por base a “chima” (farinha de milho cozida), cuidar dos irmãos mais novos, tendo também momentos de convívio e brincadeira com as outras crianças do bairro. Só quando eram autónomas e capazes de se desenrascar, é que se mudavam para o centro da paróquia, onde estava a escola. Lá, ou ficavam em casa de um familiar ou partilhavam uma residência com outros estudantes ou então alugavam uma casa e tinham que colaborar nas despesas e pagar uma renda.

Curioso o sentido patriótico do povo moçambicano, em especial os estudantes, que todas as manhãs se concentravam e entoavam o hino enquanto se hasteava a bandeira nacional. Quando pensamos em escolas, pensamos que são “uma seca”, no dizer dos estudantes de hoje em dia. Esses mesmos estudantes que não valorizam as condições em que têm essas mesmas aulas e o facto de as terem. Na Escola de Itoculo, as crianças não tinham mesas nem cadeiras. Sentavam-se em bancos e colocavam os cadernos sobre as pernas. As salas não tinham electricidade. Não havia chegado o choque tecnológico, tão em moda nos dias de hoje. Contudo, não se deixava de ensinar e muito menos de aprender. Sim, aqueles olhares atentos e sedentos de sabedoria, de conhecimento, que dariam gosto a qualquer professor de hoje em dia. Além de mim, como professor estrangeiro e missionário, estava a irmã Felicité, missionária espiritana, que leccionava Inglês. Ao todo éramos nove professores, três nacionalidades: Moçambicana, Portuguesa e República Centro Africana. Ser professor é abrir as portas do conhecimento. E, sem dúvida que se aluno havia que as queria escancarar, esse era o Albertino. Impossível deixar de me lembrar dele. Impossível deixar de admirar aquela vontade, aquele entusiasmo e determinação com que enfrentava cada dia. Com o seu sorriso e alegria espalhava um tom diferente naquelas terras para mim já por si diferentes. Uma diferença que contagiava e fervilhava nas outras crianças da turma do 7º A, como num atrelar a uma onda que se espraia em sonhos, esperanças, risos, olhares… de crianças.

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Podemos julgar que isto é um passado, quando já é o futuro, muito mais que sonho puro, embarcado num projecto, talvez de uma utopia discreta, mas pelo Albertino muito apetecida e que o vai levar longe. O sonho do Albertino, que ele criou e recriou, é o sonho de muitas crianças macuas, que não se entregam à euforia do destino e se recusam ser folhas de papel, números gritantes do Terceiro Mundo, mas tinta do amanhã, alicerce sólido do futuro de um país, o seu país, Moçambique.

O dia-a-dia na Missão de Itoculo era passado entre a escola e a visita às comunidades cristãs. A equipa missionária desdobrava-se de maneira a dar asas a um trabalho que passava pela formação de leigos e de líderes comunitários, pela formação na justiça e paz e em cuidados básicos de saúde, na elevação do papel das mulheres, na execução de uma rede de escolinhas espalhadas pela paróquia, de maneira a suprir as carências na área da educação e, em especial, pela formação catequética.

Dos momentos belos que guardo de Moçambique, e que foram muitos, dando para uma enciclopédia bem grossa, vem-me neste momento à memória o céu à noite. Todo aquele céu imenso, estrelado e cintilante, era silêncio, depois de um dia marcado pela agitação,  conversas, ideias, correrias, trabalho e alegria. Aquele céu era a prova de que Deus estava com aquele povo e que o envolvia ternamente, na certeza de um futuro melhor, na fé acesa e desperta porque vivos e não poetas, que é coisa de sofrer, mas poemas, saídos da pena de Deus, na terra dos homens.

Quanta coisa quis fazer e quanta coisa não fiz. De um lado Deus permitiu. De outro lado o tempo não quis. E é por isso que sonho um dia voltar, para um lugar tão longe e tão perto, mas que se revelou um mundo que me era tão certo”.

Ricardo Maia

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Ano 2011

O ano de 2012 não será uma hecatombe, mas…

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A passagem de mais um ano, obriga-nos a meditar sobre o ano que passou e o ano que está a chegar. Não é que se viva de recordações, mas elas são muito úteis para se poder fazer um balanço da nossa vida; de onde viemos, para onde vamos. É o tradicional «reveillon», talvez o mais triste dos últimos anos.

O ano que agora finda é provavelmente, aquele que mais afetou a vida de quase todos nós, que ainda por cá andamos. O ano que virá, não será uma hecatombe, mas será um ano de muitas falências, de desemprego, de recessão e de depressão. Será a continuação da crise, ainda mais agravada com o passar do tempo.

Não vai ser possível escapar a mais um ano de recessão e caos económico, uma situação que não vivemos desde a segunda guerra mundial. O ano que agora festejamos o seu fim, brindou os portugueses com algumas medidas de carácter económico, que fizeram abalar a “carteira” de muitos, a começar com os cortes, para alguns, nos subsídios de férias e de natal, no fim das borlas nas SCUT, o fim do passe social para todos e os diversos e sucessivos aumentos em produtos necessários ao nosso dia-a-dia.

A crise que estamos a atravessar é uma crise quase generalizada a todo o mundo: o Ocidente debate-se com uma grave crise económica, que dura há mais de três anos; a África continua com as suas tradicionais crises humanitárias, económicas e políticas; a Ásia está a viver um conjunto de problemas originados pelo crescimento económico muito rápido de diversos países. A crise – financeira, económica e social -, alastrou-se a todo o mundo e o ano de 2012 vai exigir um combate em todas as frentes, vai exigir soluções globais.

Os decisores políticos mundiais deverão ter em atenção algumas premissas para que o combate tenha o êxito desejado. Em primeiro lugar, deve ser dada a primazia da economia sobre as finanças, mas antes de tudo devem dar a primazia ao ser humano. Não se quer uma economia baseada no «capitalismo selvagem», mas uma economia centrada no homem. É no homem e para o homem e nos princípios da solidariedade, que a economia deve estar focada. Só assim é que faz sentido.

Vai ser preciso um combate eficaz à miséria, à fome, ao desemprego, que grassa por todo o mundo. Seguramente, o ano que se avizinha terá de ser um ano de grandes transformações, pois os desafios são tremendos. Vai ser preciso suster o descalabro das finanças públicas, deter o galopante crescendo da dívida soberana dos Estados e fazer crescer a economia.

A crise que o mundo está a atravessar interpela todos, pessoas e povos, homens e mulheres, jovens e menos jovens, empregadores e empregados, partidos políticos e grupos de reflexão a um profundo discernimento dos princípios e dos valores que estão na base da convivência social. A crise obriga a um empenhamento geral, numa séria reflexão sobre as causas e soluções de natureza política e económica não deixando de ter o homem como epicentro. Para o bem-estar da humanidade. Sempre!

José Maria Moreira da Silva

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moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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Ano 2011

Grupo de Jovens de Guidões recria presépio

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O Grupo de jovens S. João Baptista de Guidões deu vida ao presépio, numa iniciativa que é já tradição na freguesia.

Para muitos o dia de Natal é sinónimo de descanso e convívio familiar, mas em Guidões cerca de duas dezenas de jovens abdicam do conforto do lar para dar vida ao nascimento de Jesus, recriando o Presépio ao Vivo.

O último domingo, 25 de dezembro, começou bem cedo para o grupo. Ainda o relógio da Igreja Paroquial, onde é encenado o presépio, não assinalava as 7 horas e já os primeiros elementos chegavam para ultimar os preparativos. “Há certas coisas que apenas podemos fazer no dia, como colocar decorações e trazer os animais”, explicou o presidente do grupo de jovens, José Pedro Campos. Depois de tudo colocado no devido sítio, os animais acomodados nas suas cercas e dos jovens vestirem os trajes da época, era altura de ensaiar a encenação que deveriam levar a cabo durante a eucaristia de Natal. “Este ano, para além do presépio, também fizemos uma pequena atuação no momento de Ação de Graças”, esclareceu o responsável.

Esta é uma iniciativa que o Grupo de Jovens S. João Baptista de Guidões desenvolve há já vários anos: “Naturalmente que dá bastante trabalho”. “Toda a estrutura foi criada de raiz e é da responsabilidade dos elementos do grupo que soldam, pregam, serram e fazem o que for necessário para que tudo esteja pronto no dia de Natal”, acrescentou José Pedro Campos.

Neste presépio existem anjos, pastores, reis, José, Maria e muitas outras personagens que recriam os relatos da Bíblia, como a aparição do anjo a Maria, a falta de lugar na hospedaria em Belém para José e Maria pernoitarem ou a fuga para o Egito, depois de Herodes ordenar a morte de todos os bebés.

O objetivo é “diversificar as cenas todos os anos para não se tornar monótono”. Se ainda não teve a oportunidade de visitar o Presépio ao Vivo, pode fazê-lo no dia 1 de janeiro entre as 14 e as 17.30 horas.

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