O projeto Vive Cabo Verde, desenvolvido pela Associação Ser+ Dar+, incentiva o voluntariado de intercâmbio pela valorização e educação em Cabo Verde e foi esta viagem que Ana Luís Reis quis partilhar com O Notícias da Trofa.
Uma semana para ajudar a mudar vidas. Foi com esta missão que um grupo de voluntários portugueses desembarcou a 10 de setembro em Cabo Verde. Boavista e S. Vicente foram a sua casa durante sete dias. Depois de descer as escadas do avião e encarar a dura e diferente realidade que os seus olhos testemunhavam, Ana Luís Reis foi invadida por um misto de emoções, “uma tristeza por ver as construções tão degradadas e uma alegria por estar a iluminar o dia daquela gente”.
O grupo, composto por farmacêuticos, terapeutas ocupacionais e da fala e fisioterapeutas, partiu com “o objetivo de ajudar crianças, famílias, escolas e bairros carenciados”. Durante a estadia por solo africano, os voluntários trabalharam essencialmente o campo da saúde. Deram “formação a monitores, professores e adultos de hábitos de higiene, primeiros socorros, tratamento de picadas, queimaduras, uso do preservativo, reconhecimento de sintomas de AVC e melhor alimentação”, relatou Ana Luís Reis. Mas não se ficaram por aqui. Houve ainda tempo para pôr em prática “atividades didácticas com as crianças, no âmbito da higiene pessoal e da criatividade, com pinturas e desenhos, e dar consultas à população”. Também o Centro de Dia foi alvo desta intervenção voluntária, com atividades para idosos e auxílio na medicação.
Algumas crianças com paralisia cerebral estavam já referenciadas e a equipa visitou-as no sentido de “auxiliar os familiares a lidar com a criança”, com o intuito de ajustar a medicação, ajudar com estratégias não medicamentosas, melhorar a alimentação e a postura da criança. Kleidson, de 9 anos, é exemplo disso. O menino viu a sua vida melhorar com a chegada deste grupo de portugueses. Com diagnóstico de paralisia cerebral, epilepsia e outras complicações associadas às alterações neurológicas severas e progressivas, os voluntários, com o apoio da Associação Portuguesa de Celíacos, conseguiram vários tipos de bolachas, papas, cereais sem glúten, fraldas, medicação e outros alimentos que vão permitir a Kleidson ter uma vida melhor. A Associação conseguiu ainda devolver o sorriso a um menino, dando-lhe a oportunidade de ouvir os sons da vida através de um aparelho auditivo.
Do lado de lá, onde tudo parece distante e inacessível, há falta de muitas coisas, mas sobretudo de amor. “As crianças são muito carentes. Tudo o que querem é um colo, dar a mão ou um abraço, ter um pequeno brinquedo ou um lápis de cor para pintar”, descreveu a voluntária, que afirma que os meninos cabo verdianos ficaram “eufóricos com a presença da equipa”, que foi brindada com “café cabo verdiano e uma festa de despedida”. “Ainda hoje recebemos mensagens de agradecimento e saudade”, realça Ana Luís Reis.
Numa viagem com uma carga emocional desta dimensão, há coisas que não mais saem da memória muito menos do coração. Para a trofense, “a falta de água corrente nas casas de banho, as instalações de uma das escolas e o facto de imensas crianças dormirem num único colchão” foram aspetos que não mais esqueceu. Mas a tal festa surpresa antes do adeus marcou Ana Luís Reis. “Enquanto fazíamos as atividades, eles fizeram bolos e bolachas típicas de Cabo Verde. Pedimos para não fazerem, porque sabíamos as dificuldades deles, mas era um orgulho para eles retribuir dessa forma”, explicou a farmacêutica.

Voluntários angariaram produtos que encheram dois contentores
Mas esta missão começou a ser desenhada muitos meses antes de os voluntários aterrarem em Cabo Verde. Desde fevereiro que Ana Luís Reis preparava a sua partida. “Cada voluntário fez uma ação, como por exemplo um almoço solidário, uma caminhada ou um sorteio, onde as pessoas pagavam um valor simbólico, que revertia a favor da Associação”, explicou a farmacêutica. “Também foram pedidos donativos em produtos a empresas, como fraldas, escovas de dentes, livros ou material de farmácia”, acrescentou. No caso de Ana Luís Reis, em dois dias conseguiu angariar “imensos sacos com roupas, brinquedos, calçado e livros”. Uma onda de solidariedade que permitiu levar para Cabo Verde “dois contentores de 20 pés, inclusive mobília para um infantário inteiro e muitas camas”. “É imenso”, considerou a voluntária.

“Ser feliz por fazer feliz”
Ana Luís Reis começou esta aventura por incentivo de uma amiga. Candidatou-se e surgiu um segundo grupo, que permitiu à trofense fazer as malas e embarcar. Começou aqui a aventura de Ana Luís Reis, que viu no projeto “uma oportunidade de ajudar crianças e adultos, num local desfavorecido, onde os cuidados de higiene e saúde falham”. A farmacêutica viu nesta missão “um desafio” por “contactar com realidades muito distintas das nossas e por melhorar um pouquinho a vida destas pessoas”. No regresso a casa, o sentimento é misto. Se por um lado “todas as atividades foram muito bem sucedidas”, por outro lado “ficou muito por fazer, muitas pessoas para ver e acarinhar”. Na bagagem trouxe “muitos contactos e parcerias para que, dentro do possível, a ajuda continue a ser feita de cá”, explicou Ana Luís Reis.
“O contacto com esta realidade traz um crescimento pessoal que pode ser transposto para a vida”, realçou a voluntária que considera que “a adaptação ao local e às pessoas, incluindo aos voluntários, é um desafio”. Os interessados no projeto devem seguir o grupo do Facebook “Projeto VIVE Cabo Verde” e estar atentos à abertura de candidaturas para uma nova missão. Depois devem enviar o Curriculum Vitae e esperar que lhes seja dada a passagem para embarcar na próxima aventura. Para a farmacêutica esta foi uma experiência “muito gratificante e que valeu muito a pena”. Ana Luís Reis regressou a Portugal a 17 de setembro com uma mala repleta de recordações e o coração cheio por “ser feliz por fazer feliz”.