Comemorámos esta semana o trigésimo segundo aniversário do 25 de Abril de 1974. Mais que o encontro da efeméride com o calendário, importa reflectirmos sobre o que fizemos nas últimas décadas.

Passaram 32 anos do momento em que os portugueses, todos os portugueses, puderam viver em liberdade e participar, verdadeiramente, na definição do seu futuro colectivo. Porque, na verdade, nesse dia marcámos encontro com o futuro. Dissemos ao mundo que queríamos viver em liberdade, que desejávamos construir um país mais próspero, mais justo e mais desenvolvido, que queríamos participar de uma Europa forte e rejuvenescida.

foto_dr1._joao_s__01022006.jpgTrinta e dois anos depois, o nosso país mudou muito. Seria uma total irresponsabilidade não assumirmos isso. Portugal cresceu e desenvolveu-se. A população portuguesa, na generalidade dos casos, vive hoje melhor que há 32 anos atrás. A nossa qualificação melhorou significativamente, o acesso à cultura é hoje mais fácil, melhorámos exponencialmente as acessibilidades, construímos escolas, hospitais, recintos desportivos, enfim, o país modernizou-se, é um facto indesmentível.

Mas este é, na minha opinião, o momento de lançarmos um olhar sobre a nossa sociedade e de nos confrontarmos com os sonhos de Abril, com o que pensaram para o nosso país os heróis da revolução. Será que cumprimos tudo o que sonhámos e aspirámos em 1974? Ou será que uma boa parte dos objectivos estão ainda por cumprir?

Como referi anteriormente, é inegável que Portugal cresceu e se desenvolveu. Mas será que este sentimento chega a todos? Parece óbvio que não. O sonho da Justiça Social para todos parece ainda muito longe de estar cumprido. Persistem no nosso país profundas desigualdades entre o Interior e o Litoral, as chagas urbanísticas nas grandes cidades criam um conjunto enorme de excluídos económica e socialmente, o fenómeno do desemprego carrega atrás de si um misto de revolta e angústia nas novas gerações.

Portugal é o país da União Europeia que apresenta maior desigualdade na distribuição de rendimentos. Estamos a criar uma sociedade cada vez mais desigual: uma classe cada vez mais rica, uma fragilidade cada vez maior da classe média, aumentando a cada dia que passa o número de desprotegidos e excluídos da nossa sociedade.

É ou não verdade que dia após dia assistimos a maiores fenómenos de exclusão dos nossos idosos? Como crescem as nossas crianças? Estaremos a tratar bem as novas gerações? Estaremos a dar-lhes esperança e confiança no futuro? Ou ao invés estaremos a criar gerações de pessoas sem esperança no futuro, revoltadas, com cada vez maior propensão para resvalarem para movimentos marginais da sociedade, a que se segue inevitavelmente o caminho da delinquência, quantas vezes irreversível?

Este é o grande desígnio colectivo que temos para os próximos anos – a protecção dos mais pobres e desprotegidos da sociedade. Desenganem-se, no entanto, os que pensam que este objectivo se atinge apenas com políticas assistencialistas. Muito pelo contrário, importa ganhar a batalha do crescimento e do desenvolvimento, tornando-nos mais competitivos e promovendo o crescimento do emprego e do bem estar social.

Para este desiderato, todos estamos convocados. Todos temos a obrigação de dar o nosso contributo mesmo que isso implique a diminuição de alguns dos nossos privilégios. Deste modo, poderemos ter condições para promovermos a justiça social e assim ajudarmos a cumprir os sonhos de Abril.

João Moura de Sá

P.S. Fui durante 9 anos, com muita honra, Deputado à Assembleia da República.

Considero o exercício deste mandato de vital importância para o nosso país. Por

isso, o episódio das faltas às votações na semana da Páscoa foi profundamente

lamentável.