Chegou esta semana ao fim a novela das sanções que, afinal e para tristeza de alguns actores políticos da direita portuguesa, não verão a luz do dia. Tudo começou com movimentações em Bruxelas no sentido de punir Portugal pelo incumprimento do défice no período 2013-2015, algo raro no seio da União em que países como a França ou a Alemanha, por diversas vezes, violaram os limites permitidos por Bruxelas. A acontecer, teria sido algo de profundamente injusto e contraproducente, na medida em que sancionar o nosso país apenas levaria a mais recessão e ao aprofundamento da fragilidade económica de Portugal.

Importa reforçar, porque se disse e escreveu muita falsidade nas últimas semanas, que tais sanções, caso tivessem ido avante, seriam da inteira responsabilidade do anterior governo, que governou o país no período em questão. Bruxelas deu conta disso mesmo, por diversas vezes, porém, internamente, forjou-se um discurso bizarro que tinha como objectivo atribuir a culpa pelos resultados negativos ao actual governo, que iniciou funções no final de Novembro, sem que a sua acção pudesse ter impacto na resolução ou aprofundamento da situação. Não sou eu que o digo. Foram os senhores de Bruxelas.

Na Europa, as forças aliadas do bloco PSD/CDS-PP fizeram o que puderam para que as sanções acontecessem, com o ministro das Finanças alemãs Schäuble a liderar a investida, ladeado pelos burocratas do Eurogrupo e pela família política europeia do anterior governo, o Partido Popular Europeu, que pedia “força máxima” nas sanções a aplicar aos países incumpridores. Eles queriam a nossa cabeça.

Em Portugal, o delírio instalava-se. Pedro Passos Coelho não perdeu tempo e declarou a sua concordância com a posição assumida pelos seus pares europeus, afirmando-se favorável a uma punição que resultava da sua acção governativa. Maria Luís Albuquerque reagia também ao ultimato, afirmando que, se fosse ainda ministra, tal cenário nunca se colocaria, como se não tivesse sido ela a responsável máxima pelas contas do país durante a maior parte do período em questão. Por todo o lado, comentadores, bloggers, personalidades ligadas ao PSD e CDS-PP e jornais alinhados com o anterior regime pediam sangue e construíam uma narrativa alucinada de desresponsabilização, como se o anterior governo nada tivesse que ver com as metas que não atingiu. Foram dias de mentiras e manipulações, em Lisboa como na Trofa.

Chegada a hora do veredicto, ficamos a saber que não serão aplicadas quaisquer sanções ao nosso país. António Costa, instado por Assunção Cristas durante o processo a fazer “voz grossa” em Bruxelas, que entretanto mudou de opinião acusando o primeiro-ministro de “brincar com o fogo”, ameaçou, na recta final de todo este processo, que estaria disposto a levar o caso ao Tribunal de Justiça da União Europeia. Isto contrasta com a anedótica acusação conjunta de PSD e CDS-PP, duas semanas antes deste desfecho, que o actual governo não defendeu Portugal. O que vindo de quem governou de forma submissa e vassala perante a União Europeia, só pode ser uma brincadeira de mau gosto para enganar os menos atentos e caçar uns quantos votos para as próximas Autárquicas. As Dalilas são assim, dissimuladas e venenosas.