"O negócio da minha vida tem mais a ver com a minha componente vocacional do que com uma componente de feelling, de fazer dinheiro." É desta forma que José Manuel Fernandes define a decisão de, em 1978, fundar a Frezite.

O brilho nos olhos aumenta quando mostra dois pequenos objectos que, à partida, nada têm a ver com as ferramentas de corte que, com tanta precisão,  são feitas na Frezite. Um deles é um pequenino diccionário de francês. "Era do meu pai e foi aqui que aprendi as primeiras letras, com quatro ou cinco anos", conta. O segundo é um esquadro, de metal, criado por si nos tempos de estudante.

José Manuel Fernandes, que durante anos foi director de produção de várias fábricas, confessa que a determinado momento entrou "num campo de saturação da actividade profissional". "Senti que devia correr riscos e empreender", adianta.

No pós-revolução de 1974, diz, Portugal "tinha um grande défice" no sector das ferramentas de corte. Assim, em 1978, nascia a Frezite, a primeira empresa em Portugal a "realizar a actividade industrial da produção de ferramentas de corte".

Sem concorrência interna e sem ter onde contratar know-how para a empresa, o presidente da Frezite diz que decidiu, de imediato, apostar na internacionalização, para estar próximo da concorrência. "A prova disso é que no segundo ano de actividade estávamos a expor em Hanôver", onde se realiza uma das mais importantes feiras do sector, e a confrontar-se, desde logo, com a concorrência internacional.

A recusa em cingir a actividade ao território nacional foi tal que, no início, a Frezite era "altamente deficitária para abastecer o território nacional". Já a nível externo, a actividade encontrava-se em crescimento. Rapidamente a Bélgica surge como o primeiro país onde a empresa marcou presença e com o qual mantém ainda uma forte relação.

No início, a actividade passou por momentos difíceis. "Tivemos de aprender muito com os nossos próprios erros, ninguém nos abriu as portas, as tecnologias da nossa concorrência eram fechadas e o acesso a informação era muito difícil", diz José Manuel Fernandes.

Treze anos depois, o projecto ganha maior pujança. Em 1991, o empresário abandona a figura de "homem total" e forma uma equipa de licenciados para o apoiar. "Admitimos um economista, um formado em Recurso Humanos e admitimos quatro engenheiros", diz.

A partir daí, a Frezite prepara um plano estratégico a dez anos que lhe permite dar um salto em termos de internacionalização. "Mesmo aí, já se contemplava a posição em que nos encontramos hoje", refere o empresário, que ocupa simultaneamente o cargo de primeiro vice-presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP).

As prateleiras da sala de reuniões da Frezite ostentam algumas distinções recebidas ao longo de quase 29 anos de existência. A última distinção, aliás, foi entregue esta semana pelas mãos do ministro da Economia, Manuel Pinho, que lhe atribuiu o diploma Inovação e Excelência, galardão com que o ministério tem distinguido algumas empresas portuguesas. Mas um dos orgulhos do empresário é um enorme quadro em que está espelhado muito do que é a Frezite. O globo terrestre, a visão e o Sol são os elementos que, em cada canto da pintura, incidem sobre o mundo da Frezite, que é completado, ao centro, com um dos mais conhecidos símbolos dos Descobrimentos portugueses: a caravela. "É também isso que aqui fazemos, descobrir através da inovação", diz José Manuel Fernandes. |

HELDER ROBALO / JORGE MIGUEL GONÇALVES (imagem) in dn