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Crónicas e opinião

Presidenciais 2026: democracia liberal ou populismo autoritário?

Daqui para a frente já não é sobre socialismo, liberalismo, conservadorismo ou social-democracia. É sobre escolher um de dois caminhos: democracia liberal ou populismo autoritário.

João Mendes

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Daqui para a frente já não é sobre socialismo, liberalismo, conservadorismo ou social-democracia. É sobre escolher um de dois caminhos: democracia liberal ou populismo autoritário.

É entre um político moderado, com a rara característica de não se lhe conhecerem telhados de vidro, e um extremista que os tem com fartura, que faz da mentira uma arma, do ódio estratégia e do medo o meio privilegiado para atingir o fim que sempre o moveu: poder unipessoal.

É entre um democrata que respeita a constituição, os poderes presidenciais e as instituições, e um protofascista que propõe ao país 3 Salazares, o que equivale a defender a destruição das instituições democráticas e a abrir espaço ao regresso da miséria, da fome, da censura, das prisões arbitrárias, da tortura, do analfabetismo e da corrupção que caracterizaram o Estado Novo. Em triplicado.

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É uma escolha fácil, para um democrata. Daí a quantidade de figuras destacadas da direita democrática a anunciar o seu voto em António José Seguro.

Cavaco Silva, Poiares Maduro, Pedro Duarte ou Pacheco Pereira do PSD.

Mariana Leitão, Carlos Guimarães Pinto, Rodrigo Saraiva ou Mário Amorim Lopes da IL.

Cecília Meireles, Francisco Rodrigues dos Santos, Diogo Feio ou Paulo Portas do CDS.

E figuras exteriores ao arco partidário, como o colunista conservador Henrique Raposo, o mandatário de Cotrim de Figueiredo, José Miguel Júdice, ou as mais de 200 personalidades que assinaram a carta “Não-Socialistas por Seguro”, que inclui os nomes de Adolfo Mesquita Nunes, Diana Soller, João Carlos Espada, João Cerejeira, Pedro Norton ou Teresa Violante.

Todos eles apoiam Seguro, sem hesitações.

E porquê?

Porque percebem algo muito simples: quando a escolha é entre democracia e autoritarismo, a ideologia torna-se irrelevante.

É esta a escolha que teremos pela frente no dia 8 de Fevereiro.

E se no primeiro round tivemos uma vitória clara da democracia sobre o autoritarismo, a segunda volta não serão favas contadas. Com Montenegro e Cotrim de Figueiredo a fazerem fretes ao saudosista da ditadura corrupta de Salazar, tudo se torna mais difícil. E irónico, também, ou não fosse o objectivo de Ventura ocupar o lugar do PSD. E esvaziar a IL.

Infelizmente, e a julgar pelo histórico recente, outra coisa não seria de esperar.

Valeu pela clarificação.

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“Mas será que quem não concorda com a tua visão do mundo é fascista?”

Boa pergunta.

E começo a resposta por constatar o seguinte facto: existe quem à esquerda veja fascismo em tudo o que mexe à direita. E isso não é só patético. É sintomático de quem tem um enorme défice de cultura democrática. E é também contraproducente, como agora se verifica. Não espanta, por isso, o desaparecimento dos partidos dos proponentes desse discurso.

Mas, convenhamos, verifica-se o mesmo fenómeno à direita. Porque, para uma certa direita, igualmente patética, tudo o que mexe à esquerda é comunismo, extremismo ou, pior, cabe numa definição absurda de socialismo, que, no mundo delirante destas pessoas, pode ser mortal. Como se a social-democracia nórdica e o estalinismo fossem uma e a mesma coisa.

Mas voltemos ao fascismo: podemos considerar André Ventura um fascista idêntico aos originais do século XX? Não, não podemos. Como os comunistas do PCP de 2026 também não são comparáveis aos comunistas dos anos 50 e 60 do século passado. Nem os liberais do século XVIII são comparáveis aos militantes da IL. Porque o mundo e a sociedade evoluem. E as ideologias, não são estanques: são processos histórico-político e permanente transformação.

Quais são, então, as principais características do fascismo antes da chegada ao poder, que é o patamar no qual se encontra Ventura?

O consenso académico aponta, sobretudo, as 10 características que se seguem:

1 – Ultranacionalismo palingenético: crença num renascimento nacional após um período de alegada decadência moral, cultural ou civilizacional.

2 – Mitificação do passado: uso selectivo e idealizado da história para construir uma identidade nacional homogénea.

3 – Anti-iluminismo: rejeição do racionalismo, do liberalismo, do individualismo e do universalismo.

4 – Primazia da emoção sobre a razão: mobilização política assente no medo, no ressentimento, na humilhação colectiva e no orgulho ferido.

5 – Aceitação instrumental da democracia: participação eleitoral vista como meio táctico, nunca como valor.

6 – Deslegitimação das instituições: parlamentos, tribunais, imprensa e produção científica são apresentados como corruptos, decadentes ou traidores.

7 – Retórica antipolítica: afirmação enquanto força “anti-sistema”, apesar de depender do sistema que pretende destruir.

8 – Mobilização dos descontentes: pequena burguesia em declínio, veteranos de guerra, juventude politicamente frustrada, etc.

9 – Violência paramilitar: uso sistemático de milícias para intimidação de adversários e normalização da violência política.

10 – Liderança carismática: emergência do chefe como figura providencial e salvadora da nação.

Das 10 características enumeradas, ainda não é possível verificar a nº 5. Quanto à nº 9, a recente operação da Polícia Judiciária, que levou à detenção de dezenas de delinquentes neo-nazis do grupo 1143, alguns dos quais militantes e ex-candidatos do partido CH, dá-nos pistas sobre o que poderá vir aí. Até porque o grupo planeava actos violentos e estava bem armado.

Com a excepção destas duas características, todas as restantes estão já presentes no discurso e na prática política de Ventura. Sem excepção.

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Perante o exposto no ponto anterior, podemos considerar André Ventura um líder fascista?

Para sermos academicamente sérios e rigorosos, não.

O termo correcto é protofascista.

Mas o que é, então, o protofascismo?

Protofascismo é o termo usado para descrever um conjunto de ideias, práticas, discursos ou contextos sociais e políticos que antecedem a construção de uma sociedade fascista. Uma fase embrionária marcada pela adopção parcial e progressiva de valores, imaginários e práticas típicas do fascismo, antes da sua formalização enquanto movimento organizado ou regime de poder.

E que características tem?

Várias, e em vários planos.

No plano ideológico e discursivo:

– Ultranacionalismo difuso, frequentemente apresentado como “patriotismo”

– Narrativa de decadência: a ideia de que a nação ou a sociedade está “doente” e em declínio irreversível.

– Identificação de inimigos internos (minorias, imigrantes, elites, imprensa).

– Desconfiança ou hostilidade face à democracia liberal, ainda que sem rejeição explícita.

– Relativização da verdade e ataque à autoridade do conhecimento, da ciência e da imprensa.

No plano cultural e social:

– Normalização da linguagem autoritária: apelos à força, à ordem e à obediência.

– Aceitação crescente da exclusão como solução política legítima.

– Ansiedade identitária ligada à perda de estatuto social, cultural ou demográfico.

– Estetização da política: símbolos, rituais e manipulação emocional no discurso público.

No plano político-institucional:

– Personalização da liderança e desprezo pelas mediações institucionais.

– Deslegitimação gradual das instituições democráticas, sem ruptura formal.

– Normalização da violência verbal, que pode evoluir para violência física.

– Erosão das normas democráticas, mais por hábito do que por imposição legal.

André Ventura reúne em si todas estas características.

Todas.

Se isto significa que os militantes do CH são todos protofascistas?

É claro que não.

Existem inúmeras razões que levam alguém a militar num partido, e a ideologia não é sequer a mais importante.

Mas Ventura é um protofascista.

E a maioria dos portugueses, acredito, não quer ter um protofascista como Presidente da República.

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