A vacinação não é um termo novo para nenhum de nós, não é algo inédito, não é uma tendência.

Atualmente, vivemos uma incessável busca pela vacina contra o vírus SARS-CoV-2, no entanto existem outras doenças, que, recorrentemente, nos afetam em períodos específicos do ano, sendo que para algumas temos vacinas disponíveis.

A gripe sazonal é um dos exemplos, e apesar da sua recomendação habitual em anos anteriores, no momento de pandemia que atualmente vivemos, considero a sua administração ainda mais importante, ponderando a toma simultânea da vacina da pneumonia em grupos com risco acrescido.

Não pretendo dizer que ao ser vacinado estará protegido para a Covid-19, pelo menos não de forma direta. Contudo, na minha opinião, representará um importante aliado no seu combate.

Algumas semanas após o início da disponibilização da vacina da gripe, é notável uma elevada procura desta relativamente a anos anteriores. Os sentimentos de insegurança e preocupações face a pandemia são evidentes pelos utentes que passam pelas consultas/teleconsultas onde sou confrontada com dúvidas frequentes sobre a decisão de ser (ou não ser), sentindo na maioria delas o expresso desejo de o ser.

Porém, a procura excessiva resulta num “problema” adicional – a falta de vacinas que se começa a notar – podendo parecer um contrassenso perante a tentativa de sensibilização da sua toma. O culminar desta situação é comportamentos menos adequados, desde aglomerados de pessoas à porta de farmácias a relatos de “ameaças” aos profissionais por falta de vacinas.

No entanto, a administração da vacina da gripe a um maior número de pessoas levará uma redução dos casos de gripe sazonal. Como resultado, a afluência aos serviços de saúde será menor, reduzindo os aglomerados de pessoas e desta forma a propagação de gripe e Covid-19.

É da consciência de todos que os recursos do Sistema Nacional de Saúde se encontram sobrelotados, sendo o seu limite um horizonte cada vez mais visível. Do meu ponto de vista, isto pode representar um alívio do Sistema Nacional de Saúde, esperando-se uma melhoria da capacidade de prestação de cuidados a quem a assistência é indispensável.

Em termos do indivíduo de forma singular, a toma da vacina resulta no fortalecimento do sistema imunológico pelo aumento das defesas do organismo contra a gripe, deixando disponível um maior foco no combate a uma possível infeção por Covid-19. Além do referido, considero que ajude a evitar também eventuais confusões entre hipóteses diagnósticas (gripe e Covid19) por sobreposição de sintomas.

A vacina da gripe deve ser administrada durante os meses de outono/inverno. Com base nos dados da norma n.º 016/2020 de 25/09/2020, a vacinação contra a gripe é gratuita, no Sistema Nacional de Saúde, para determinados grupos de risco. Estes abrangem:
• grupos etários de idade igual ou superior a 65 anos;
• grávidas;
• pessoas com mais de 6 meses de idade:

  • Com determinadas patologias crónicas.
  • Residentes em instituições, incluindo estruturas residenciais para pessoas idosas, utentes de Serviço de Apoio Domiciliário e Doentes da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e reclusos em estabelecimentos prisionais.
    • Saúde ocupacional.

    Se pertence a um dos grupos de risco, não deve adiar a sua administração! Não é apenas uma proteção individual, mas também coletiva!

    Contudo, importa salientar que não funcionará como substituto das medidas atualmente vigentes como o distanciamento social, o uso de máscara e a lavagem das mãos. É uma medida adicional!

    Deixo-vos um pensamento com uma premissa: se o tratamento de uma pessoa infetada com Covid-19 só por si exige um esforço elevado, numa pessoa que tenha contraído Covid-19 e, simultaneamente, gripe sazonal ou pneumonia, o aumento da dificuldade e dos riscos associados é exponencial. Assim, não tenho dúvidas que a vacinação constitui um recurso de vital importância perante o atual panorama de saúde pública.

    Como profissional de saúde, considero que os médicos desempenham um papel fulcral na transmissão da informação mais adequada aos nossos doentes, de forma a cultivar uma toma de decisão informada e corresponsável. Por vezes, talvez muitas vezes, vezes demais do que aquelas que gostaria, esta comunicação tem sido comprometida, pela sobrecarga de tarefas impostas, fruto da pandemia. Contudo, são feitos os possíveis (e impossíveis), para que no meio do caos, alguma ordem prevaleça e a sua saúde seja a prioridade.

Sílvia Garcia
Médica na USF Uma Ponte Para a Saúde – Trofa