A disseminação do novo coronavírus e a pandemia daí resultante constituem um poderoso teste aos sistemas sociais e de governação. As autoridades governamentais de muitos países têm-se colocado em campo para testar novas soluções tecnológicas que possam monitorizar e travar este surto. Contudo, no âmbito da assistência aos idosos em isolamento social, é necessário continuar a dar respostas às suas necessidades.

A prestação de cuidados às pessoas idosas tem sido muito discutida no âmbito da adaptação dos sistemas de saúde à realidade tecnológica atual. Com a questão do isolamento social em tempos de doenças emergentes, a preocupação com a falta de assistência aos mais velhos torna-se uma barreira que tem de ser rápida e eficientemente ultrapassada.

De alguns anos a esta parte, que as políticas de saúde se têm debatido com as novas soluções tecnológicas com potencial de serem inseridas no quotidiano dos idosos. As tecnologias Active Assisted Living (AAL) traduzem-se no uso de novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para criar um ambiente inclusivo e de apoio, permitindo aos mais idosos, ou indivíduos com algum grau de incapacidade, viverem de forma ativa e independente por mais tempo. Esta aposta crescente na criação de soluções digitais tem tido um selo muito forte da Comissão Europeia, ao financiar projetos europeus para dar resposta a algumas das necessidades mais prementes nos dias de hoje.

Se no vulgar dos dias algumas dificuldades já se colocam, imaginemos neste momento em que a recomendação passa pelo isolamento físico. No que diz respeito à saúde e, assumindo que a maioria dos idosos consegue manter alguma autonomia no seu quotidiano, o recurso às tecnologias digitais em saúde (eHealth) permite a recolha e gestão de dados clínicos de apoio a intervenções terapêuticas à distância. A correta adesão à terapêutica farmacológica continua a ser uma grande dificuldade nestas faixas etárias, pelo que o recurso a eHealth pode ser parte da solução. No mercado já existe uma oferta alargada de Smart Pill Boxes, com funções de calendarização das tomas, dispensa, controlo da prescrição e lembretes, permitindo que a equipa de saúde ou o cuidador acompanhe, pelo menos em parte, a correta adesão ao tratamento. É um dado adquirido que a maioria destes dipositivos não se substitui à função do cuidador (formal ou informal); no entanto, permite um controlo “remoto”, ainda que limitado, mas essenciais para dar resposta às necessidades.

Evidentemente que as tecnologias AAL ultrapassam a gestão de saúde e bem-estar pessoal. Atualmente, podemos encontrar uma grande oferta de soluções digitais, algumas em testes, no âmbito da interação social, cuidados formais ou informais ou desenvolvimento de competências. Dos dispositivos mais acessíveis à data, temos os wearables ou dispositivos clínicos adaptados ao contexto domiciliário (seguindo a lógica do home care), prolongando-se para transformações digitais mais complexas, tais como robôs de apoio doméstico ou exoesqueletos robóticos para deficientes motores.

Muitas são as barreiras na hora de implementação deste novo paradigma de cuidados de assistência nos idosos, sobretudo com condições clínicas mais frágeis. Creio estarmos ainda muito longe de uma cobertura de assistência com recurso a novas soluções tecnológicas, mas que nos pese na consciência a necessidade urgente de repensar alguns níveis de assistência, tendo por base contextos extraordinários como os que vivemos hoje.

Renato Ferreira da Silva |Farmacêutico
Investigador na Universidade do Porto