A Trofa perdeu, cedo demais, um dos seus melhores. Homem de muitas causas e talentos, José Maria Moreira da Silva foi professor universitário, escreveu vários livros, deu dezenas, talvez centenas de palestras, ministrou inúmeras formações, esteve ligado ao associativismo, foi consultor de conselhos de administração de grandes empresas e envolveu-se na política local e nacional, actividade que o levou até aquele que terá sido um dos grandes momentos da sua vida, que se confunde com o momento mais marcante da nossa história moderna, talvez de toda a história da Trofa: a luta e subida a concelho.

Seria exaustivo e desnecessário continuar a enumerar as suas credenciais. Até por se tratar de uma pessoa que dispensa apresentações para a maioria dos trofenses e daqueles que estão a ler estas palavras. Falo-vos então do homem que conheci e que me marcou. Alguém com quem me cruzei pela primeira vez nas redes sociais, apesar de já lhe conhecer algumas crónicas, que lia neste jornal ou no Facebook, e de quem, naquele dia e em tantos outros, discordei profundamente. E não era tarefa difícil, encontrar pontos de discordância entre um conservador de direita e um liberal de esquerda. E foi precisamente dessa discordância, desse duelo argumentativo que se repetiu uma e outra vez, que outras conversas surgiram, primeiro na rede, mais tarde em sua casa, onde passamos tardes inteiras a conversar e a descobrir os muitos pontos que tínhamos em comum. E nada nos aproximava mais do que a Trofa, esse amor acima de qualquer ideologia.

Contudo, aquilo que mais me marcou, da minha curta mas intensa relação com o professor, foi a sua determinação, num momento em que fui alvo de uma campanha vil e absolutamente desonesta, conduzida por um gangue de corruptos, através do seu pasquim ilegal, de não só estar ao meu lado como de ser uma das poucas pessoas a ter a coragem de o assumir publicamente. Podia ter simplesmente manifestado o seu apoio de forma privada, podia até ter ignorado a situação, mas não hesitou nem teve contemplações. Não satisfeito, convidou-me ainda para escrever o prefácio de um dos seus últimos livros, “A história da criação do concelho da Trofa – Contributos”, e ainda me chamou para abrir a primeira apresentação da obra, na sede da junta de freguesia do Muro, bem como a seguinte, na Casa da Cultura. No momento mais injusto e revoltante, foi aquele que mais divergia ideologicamente de mim quem primeiro se chegou à frente e me disse para não me render. E eu não me rendi. E também lhe devo isso a ele.

A partida do professor deixou-nos a todos, trofenses, mais pobres. Mesmo que não o consigamos ou queiramos ver. Eu perdi uma referência, um conselheiro, um companheiro de lutas e projectos comuns e, sobretudo, um amigo. Mas ganhei muito, ao longo destes anos, e foi com ele, entre muitas outras coisas, que reaprendi a amadureci uma máxima essencial, sobretudo nestes tempos estranhos de novos extremismos, em que a nossa sociedade e a nossa forma de vida é permanentemente colocada em causa, de uma forma sem paralelo ou precedentes. Que a liberdade e a democracia não são de esquerda ou de direita. E que por elas, para as defender, todos os democratas se devem unir, sejam de esquerda ou de direita, porque não haverá esquerda nem direita no dia em que a democracia cair. Só opressão.

Neste momento de perda irreparável, não poderia deixar de homenagear este amigo que partilhou este e outros espaços comigo. Um amigo cuja marca e influência ficarão para sempre. Uma última palavra força, coragem e amor para a Dona Fátima, a eterna namorada do professor, para as suas filhas e restante família. Muito obrigado também a vocês por terem “partilhado” o professor com todos nós, trofenses e portugueses. Cá estaremos para honrar o seu percurso.