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Edição 726

Obrigado por tudo, professor

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A Trofa perdeu, cedo demais, um dos seus melhores. Homem de muitas causas e talentos, José Maria Moreira da Silva foi professor universitário, escreveu vários livros, deu dezenas, talvez centenas de palestras, ministrou inúmeras formações, esteve ligado ao associativismo, foi consultor de conselhos de administração de grandes empresas e envolveu-se na política local e nacional, actividade que o levou até aquele que terá sido um dos grandes momentos da sua vida, que se confunde com o momento mais marcante da nossa história moderna, talvez de toda a história da Trofa: a luta e subida a concelho.

Seria exaustivo e desnecessário continuar a enumerar as suas credenciais. Até por se tratar de uma pessoa que dispensa apresentações para a maioria dos trofenses e daqueles que estão a ler estas palavras. Falo-vos então do homem que conheci e que me marcou. Alguém com quem me cruzei pela primeira vez nas redes sociais, apesar de já lhe conhecer algumas crónicas, que lia neste jornal ou no Facebook, e de quem, naquele dia e em tantos outros, discordei profundamente. E não era tarefa difícil, encontrar pontos de discordância entre um conservador de direita e um liberal de esquerda. E foi precisamente dessa discordância, desse duelo argumentativo que se repetiu uma e outra vez, que outras conversas surgiram, primeiro na rede, mais tarde em sua casa, onde passamos tardes inteiras a conversar e a descobrir os muitos pontos que tínhamos em comum. E nada nos aproximava mais do que a Trofa, esse amor acima de qualquer ideologia.

Contudo, aquilo que mais me marcou, da minha curta mas intensa relação com o professor, foi a sua determinação, num momento em que fui alvo de uma campanha vil e absolutamente desonesta, conduzida por um gangue de corruptos, através do seu pasquim ilegal, de não só estar ao meu lado como de ser uma das poucas pessoas a ter a coragem de o assumir publicamente. Podia ter simplesmente manifestado o seu apoio de forma privada, podia até ter ignorado a situação, mas não hesitou nem teve contemplações. Não satisfeito, convidou-me ainda para escrever o prefácio de um dos seus últimos livros, “A história da criação do concelho da Trofa – Contributos”, e ainda me chamou para abrir a primeira apresentação da obra, na sede da junta de freguesia do Muro, bem como a seguinte, na Casa da Cultura. No momento mais injusto e revoltante, foi aquele que mais divergia ideologicamente de mim quem primeiro se chegou à frente e me disse para não me render. E eu não me rendi. E também lhe devo isso a ele.

A partida do professor deixou-nos a todos, trofenses, mais pobres. Mesmo que não o consigamos ou queiramos ver. Eu perdi uma referência, um conselheiro, um companheiro de lutas e projectos comuns e, sobretudo, um amigo. Mas ganhei muito, ao longo destes anos, e foi com ele, entre muitas outras coisas, que reaprendi a amadureci uma máxima essencial, sobretudo nestes tempos estranhos de novos extremismos, em que a nossa sociedade e a nossa forma de vida é permanentemente colocada em causa, de uma forma sem paralelo ou precedentes. Que a liberdade e a democracia não são de esquerda ou de direita. E que por elas, para as defender, todos os democratas se devem unir, sejam de esquerda ou de direita, porque não haverá esquerda nem direita no dia em que a democracia cair. Só opressão.

Neste momento de perda irreparável, não poderia deixar de homenagear este amigo que partilhou este e outros espaços comigo. Um amigo cuja marca e influência ficarão para sempre. Uma última palavra força, coragem e amor para a Dona Fátima, a eterna namorada do professor, para as suas filhas e restante família. Muito obrigado também a vocês por terem “partilhado” o professor com todos nós, trofenses e portugueses. Cá estaremos para honrar o seu percurso.

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Edição 726

A Trofa na Rota do Linho? ( 1943-1979)

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“Triste linho. O que ele padeceu para chegar a ser branco e útil. Foi semeado, arrancado, ripado, moído, espadelado, sedado, fiado, ensarilhado, meado, cozido, corado, dobrado, novelado, urdido e tecido”. São estas as fases por que passa a transformação do linho, desde o seu cultivo até ao branqueamento final…

Mas, o que é o linho e qual a sua composição? É uma planta herbácea, que chega a atingir um metro de altura e pertence à família das lineáceas (com flor azulada). O linho compõe-se basicamente de uma substância fibrosa, da qual se extraem as fibras longas para a fabricação de tecidos e de substância lenhosa. Produz sementes oleaginosas e a sua farinha é utilizada para cata-plasmas de papas, usadas para fins medicinais. O linho é um dos tecidos mais antigos da humanidade; acredita-se que foi descoberto há mais de 36.000 anos. Para a antiga sociedade egípcia, era de uma importância fulcral, sendo igualmente reverenciada pelas tribos de Israel.

Esta crónica só pode ser lida integralmente na edição impressa do jornal ou através da edição disponível para assinaturas online. Mais informações aqui

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Maria Júlia Padrão (1923-2020): A menina da Farmácia partiu

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Em poucos dias, a Trofa perdeu duas referências, que, à boleia de um sentido cívico e muita ousadia, ajudaram a escrever a história do concelho. Uma dessas referências foi Maria Júlia Padrão, figura incontornável da sociedade trofense, que partiu a 2 de outubro, aos 96 anos, deixando um legado quase impossível de replicar. Para os anais da história desta comunidade fica o espírito emancipado e muito à frente do seu tempo, a mostrar o caminho do progresso.

Mais velha de cinco irmãos, dois rapazes e três raparigas, Maria Júlia herdou a vocação artística da mãe, exímia tocadora de piano, tendo sido orfeonista no Orfeão Universitário, mas inclinou-se mais para a pintura. Ainda assim, foram as pegadas do pai, Avelino Moreira Padrão, conhecido como “médico dos pobres”, que sustentaram muito do que foi a vida desta jovem que se formou, em 1945, na Faculdade de Farmácia do Porto.

Prontificou-se a apoiar o progenitor no atendimento aos doentes, mais concretamente na administração de vacinas e injetáveis, mas Avelino Moreira Padrão era exigente e quis que Maria Júlia se especializasse também em enfermagem. E assim foi. No último ano de licenciatura, a jovem inscreveu-se na Faculdade de Medicina do Porto e tirou, simultaneamente, o curso de enfermeira visitadora.

O sonho de ser médica, anulado por quase não ouvir do lado esquerdo, foi substituído pelo projeto que criou com a irmã, Maria José, depois de cinco anos a ajudar Avelino nas consultas: a Farmácia Moreira Padrão abriu em 1951, um ano depois do falecimento do pai. Este tinha aprovado os intentos das filhas, com uma condição: não entrar em guerras comerciais com a farmácia já existente na Trofa.

E naquele tempo, corrido sem o percalço de uma pandemia, as Marias foram empreendedoras, ao prestar serviços de enfermagem e entrega de medicamentos ao domicílio. Faziam-no a pedalar. Maria Júlia e Maria José saíam pelas aldeias de bicicleta, muitas vezes revezavam-se nas corridas. “Nesse tempo, não havia horário de trabalho. Aplicávamos injeções de penicilina de quatro em quatro horas. Enquanto uma descansava, a outra ia”, contou, numa entrevista à Saúda.

Teve a felicidade de nunca ter tido “um mau encontro” e de ser “muito respeitada” pela comunidade. À imagem do que acontecia com o pai, também estas jovens não cobravam nada pelos serviços que prestavam e quem podia oferecia géneros, como batatas, pão e hortaliças.

Maria Júlia não se destacou apenas nos cuidados médicos. Na política, também deixou marca, e bem vincada tendo em conta o tempo em que viveu. Tinha o “bichinho da política”, porque não conseguia “ficar alheada dos problemas do país”. Também neste capítulo, seguiu inspirada pelo pai, alistando-se no Partido Popular Monárquico. Mas apesar de preferir “um Rei, educado para isso”, em Portugal, não se furtava ao dever cívico do voto, mesmo nas presidenciais.

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Era amiga próxima de D. Duarte Pio, que a ajudou, aliás, a criar a Caixa de Crédito Agrícola na Trofa, e seguiu os preceitos do catolicismo, tendo apoiado vários projetos comunitários.

Viveu intensamente, trabalhou até ao fim, disponibilizando sempre um sorriso, sem exagerar na dose. A doutora Maria Júlia partiu sem dever nada a ninguém. A Trofa deve-lhe muito.

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