-Amanhã vai chover!
-Que chatice! Ontem esteve tão bom e hoje também está!…
Esta conversa que se desenrolava no café, na mesa ao lado da mesa onde estava sentado, em que depois de debatida a ida de Cláudio Ramos para a TVI, a preocupação é o Tempo que faz, a minha preocupação, além de tentar manter uma postura charmosa, porque ao balcão estava uma mulher com quem tinha contas do passado a ajustar, e queria que ela se apercebesse do que perdeu, preocupa-me, em contraste com o Tempo que faz, o Tempo que passa.
Este Tempo que passa, indiferente ao Tempo que faz, confunde-me, parecendo ter várias dimensões, aquela, precisa e compassada que observamos nos ponteiros do relógio e a outra com vontade própria, em que o Tempo, alheio às nossas vontades, ora abranda, como o condutor que põe o pé ao travão para ver um acidente, ora acelera, como um guarda-sol levado por uma nortada de Agosto no litoral norte.

Deste Tempo lento, lembro-me que tudo era eterno: as férias de Verão, as aulas, as viagens (lembro-me de perguntar ao meu avô, quando chegávamos ao fim do mundo, “Já chegámos Vozinho?” e ele respondia, “Ainda falta um bocadinho.”), as amizades, os sonhos, a criancice que não passava e eu que tanto queria crescer (ainda não percebi porquê),…e a família, os meus bisavós, os meus avós, os meus pais, tios e primos, era tanta gente, sentia-me tão protegido, que era fácil não acreditar em Deus…não precisava Dele!

Mas houve um momento, que não sei precisar muito bem (vou apostar, por volta dos meus vinte anos) que o mês de Agosto do Tempo, o das nortadas, chegou para ficar…pelo menos na minha vida! Dou por mim a recordar momentos de há seis meses atrás e alguém me corrige, “Isso foi há seis anos”…e antes de ontem em conversa com um grande amigo recordava um jogo épico que fiz no ano passado (apesar de ter perdido), e ele corrige-me com aquela matemática irritante, dizendo-me, “Ó Calheiros, esse jogo que perdeste, mas que não tenho a certeza se foi épico, foi há vinte anos!”.
Sim, sinto-o acelerado, mas sei que abranda quando ouço outros (sempre gente muito jovem) a dizer ”Poça, o Tempo não passa!”. Sinto que partilhamos o mesmo espaço, mas que não partilhamos o mesmo Tempo. Acho que era isto que Einstein queria explicar na sua “Teoria da Relatividade”!
Se me preocupa a “Nortada do Tempo”? Não penso muito nisso, encaro com a mesma resignação e fatalidade com que a Maria, quando tinha seis anos, dizia à mãe quando esta se debatia com coisas que não podia alterar, “É a vida mãe!”. Não me preocupa muito não ter feito as coisas na altura certa, porque fazendo-as depois não significa que seja na altura errada…e é neste Tempo, que podemos fazer a derradeira descoberta!
Já não tenho bisavós, nem avós e alguns tios e primos também já cá não estão. De “ontem” para “hoje” tudo mudou, de protegido por muita gente, sou hoje protetor de alguém ou de alguns…e a mim, quem me protege? É neste momento que a ideia de Deus tilinta em mim, com dúvidas e incertezas!
Mas não me achem velho, o meu corpo não acompanha o correr do Tempo. Por vezes, depois de me admirar em frente a um espelho após uma corrida em que o meu corpo se comporta como um seminovo acabadinho de sair do stand, telefono à minha mãe e pergunto-lhe:

  • Mamã, tens a certeza da minha data de nascimento?
  • Tenho meu filhinho! 26 de Dezembro de 1973.
  • O dia e o mês estão certos, mas o ano? Não terei nascido em 83?
  • Agora que perguntas, filhinho…!

Mas ao olhar para aquela mulher sentada ao balcão, gostava que o Tempo voltasse atrás.
O bilhete que lhe enviei na 1ªclasse, com uma certeza e uma pergunta escritas, “Gosto de ti. Gostas de mim?”e por baixo um quadrado para o “Sim” e outro para o “Não”, desta vez punha apenas um quadrado…o do “Sim”.