“Não queiram fazer de Covelas a ‘cagadeira’ da Trofa”. A frase é, admitida pelo autor, forte, mas espelha bem o sentimento da população de Covelas. Proferidas pelo pároco da freguesia, José Ramos, as palavras são um grito de “revolta” adotada pelo sacerdote, que esteve na linha da frente da manifestação que aconteceu, na tarde deste sábado, na cidade da Trofa.

José Ramos foi uma das centenas de pessoas que se reuniram, de forma ordeira e respeitando o distanciamento social, para mostrar a sua oposição à construção do aterro sanitário na freguesia, apesar de alegadas tentativas de fazer esmorecer a ação de protesto.

“Chegou-me aos ouvidos que houve pressões e ameaças. A mim ninguém me pressionou nem ameaçou e se o tivessem feito eu não me tinha calado”, disse o padre.

E foi mesmo o que aconteceu. Depois de ter gritado “não queiram fazer de Covelas a ‘cagadeira’ da Trofa”, José Ramos foi interpelado pelo vereador do ambiente, Sérgio Araújo, que condenou as palavras fortes do sacerdote. Segundos depois, José Ramos voltou ao microfone e transmitiu à audiência o que tinha ouvido do autarca, sublinhando que falou “português”.

Ao microfone do NT e da TrofaTv, José Ramos apresentou argumentos que explicam o porquê de achar que “fazem de Covelas o parente pobre do concelho da Trofa”.

“Veio o caminho de ferro e Covelas ficou espartilhada, mas não tem uma estação, apenas um apeadeiro. Veio a autoestrada e ficou, novamente, espartilhada, mas não tem uma entrada nem uma saída. Quantas e quantas pessoas gostariam de ter construído casa em Covelas, mas não podem porque ali é zona verde. Tivemos a lixeira lá em cima (Santa Cristina do Couto), temos o mau odor todo o dia. E agora querem colocar uma lixeira em Covelas? Haja paciência, haja paciência”, exclamou.

O passo atrás dado pela Câmara Municipal da Trofa 24 horas antes da manifestação não convenceu a população, que apupou o discurso do vereador do Ambiente.

Quem também se colocou do lado da população foi a Junta de Freguesia, que admitiu ter sido “apanhada de surpresa” pelo processo que decorre desde o fim de 2017. “Quando soube da notícia, tivemos uma reunião com a Câmara Municipal e foi aí que soubemos que este processo estava em andamento. Ficamos admirados e sentidos por termos sabido por terceiros e não através da Câmara Municipal”, frisou o presidente da Junta, Feliciano Castro, que sublinhou que a freguesia “já foi massacrada com poluição e ainda está”.

A Câmara Municipal também se fez representar e pela voz do vereador do ambiente, diz que, afinal, “está contra” a construção do aterro, apesar de ter negociado com a Resinorte que com este projeto ficaria saldada uma dívida de cerca de dois milhões de euros que a autarquia tem para com a empresa.

Sérgio Araújo socorreu-se do “comunicado” assinado pelos elementos do executivo municipal e diz que a posição da Câmara Municipal “é clara como a água”. “Aterro em Covelas não, mas mais do que isso, aterro no concelho da Trofa não”, referiu o vereador, que acrescenta que o processo “não é tabu” para a autarquia.

Quem não acha que o processo tenha sido assim tão claro como a água é o presidente da Junta de Freguesia. “Claro para quem esteve a despoletar a situação. Certo é que o executivo de Covelas nunca foi chamado para nenhuma reunião com a Câmara nem foi colocada a par desta situação. Soubemos por terceiros. É uma certa revolta que as pessoas têm de saber desta situação de um momento para o outro. Foi quase como um covid que apareceu em Covelas”, sublinhou Feliciano Castro.

O progresso não se vende e a freguesia de Covelas não está à venda”

Depois de saber pelo jornal O Notícias da Trofa que a Câmara Municipal e a Resinorte estavam a negociar a construção de um aterro sanitário em Covelas, a população mobilizou-se e fez-se ouvir de forma categórica, este sábado.

“O aterro surgiu de uma semana para a outra sem ninguém saber de nada, nem detalhes nem dos resíduos que vão para lá. A democracia participativa tem de ser de todos e todos temos de estar envolvidos”, referiu Hugo Devesas, uma das faces da manifestação, que não deixou de sublinhar que “o progresso não se vende e a freguesia de Covelas não está à venda por dois milhões de euros nem por nenhum valor”. “Estas contrapartidas que se falam, o investimento nas infraestruturas, as tecnologias e tudo isso são necessárias, independentemente de ir para lá um aterro ou não. Não podem vir a troco de um aterro”, acrescentou.

O jovem diz que “as pessoas recordam-se de como era o aterro antigo”, com as “centenas de gaivotas”, o “lixo espalhado” e “os maus odores”, a que se juntavam os da empresa Savinor. “As famílias não querem isso para os seus filhos, não querem isso para as suas famílias”.

O “volte face” da posição assumida pela Câmara Municipal é considerado pela população como “uma forma de tentar desmotivar e desmobilizar”. “Não nos tentem passar por burros. Temos muita força e, se calhar, se não nos tivéssemos organizado e lutado, este processo teria continuado. Há uma semana, pessoas diziam-me que isto já estava feito e que era inevitável, entretanto, já está toda a gente connosco. Muito se fez numa semana e contamos fazer mais até termos a certeza, clara como a água, de que não haverá aterro”, frisou Hugo Devesas.

Ao lado das centenas de anónimos a protestar estiveram deputados de quase todas as cores políticas assentes na Assembleia da República, como os trofenses Joana Lima (PS) e Alberto Fonseca (PSD), Maria Manuel Rola (Bloco de Esquerda) e Diana Ferreira (PCP).

Para a história fica uma manifestação realizada em plena pandemia de covid-19, não abafada pelas máscaras nem por comunicados de última hora, e a mostrar que a população não vai dormir sobre o assunto.

O aviso ficou dado no Parque Nossa Senhora das Dores e em plena sede do município, em forma de lixo ensacado, colocado no jardim dos paços do concelho.

“Alguém nos tentou vender nas costas, um alguém que, há bem pouco tempo, nos dizia que Covelas era igual a outra freguesia qualquer e que teria o mesmo direito de se defender. Quando demos por ela, estávamos entregues ao diabo. Se não fosse a informação do jornal O Notícias da Trofa, ainda hoje continuávamos serenos e a dormir tranquilos, enquanto o bicho da madeira roía tudo por trás. Quando déssemos por ela, eles já estavam dentro de Covelas a fazer lixo durante mais 50 anos”.

Domingos Faria, manifestante