Muitos de vós ao irem em direção a Vila do Conde certamente repararam que logo após as curvas do “Bicho” e já na chegada a Fornelo tem uma placa evocativa relativamente a uma vítima que teria falecido nas proximidades daquele local.
O indivíduo em questão era o Dr. António Maia, advogado de profissão que foi assassinado em finais de fevereiro ou início de março de 1907 enquanto estava a realizar a sua viagem de regresso para o seu lar, após ter viajado até Vila Nova de Cerveira para tratar de assuntos do foro jurídico para um dos seus clientes, teria sido atacado naquele local e sido morto.
A vítima viria a aparecer morta, apresentava sinais de uma grande contusão craniana e estava envolta em uma grande poça de sangue como se pode depreender pelos relatos do jornal “O Ave” que apontavam aquele crime como sendo algo terrível.
A figura era bastante estimada pela população vilacondense e esse sentimento de respeito e estima fez-se sentir quando a população por determinados momentos tentou fazer justiça pelas próprias mãos contra o principal suspeito daquele crime, obrigando inclusivamente ao reforço policial com vários soldados para evitar que tal acontecesse.
O suspeito de ter cometido tal violência era o “Caixeiro” como era conhecido na comunidade de S. Tiago de Bougado em que era natural daquela freguesia e após ter pendido sobre si inúmeros interrogatórios iria acabar por ser condenado pelo Ministério Público de forma provisória como sendo o autor daquele crime.
A suspeita recaia sobre a sua pessoa porque alegadamente ele teria sido o último a ver a vítima com vida, como também foi quem lhe fez o serviço de transporte em carroça desde a estação de caminhos de ferro da Trofa até Vila do Conde, todavia, a viagem seria interrompida em Fornelo.
Analisando a imprensa da época é de fácil perceção que os julgamentos rapidamente aconteciam nas folhas do jornal em que os ataques ao possível culpado são constantes, os julgamentos são imensos, ultrapassando o limite ético para um jornalista.
A 21 de março de 1907 iria ser formalizada a queixa em tribunal com o Juiz, acompanhado do delegado do Ministério Público a pronunciarem o arguido pelo crime de homicídio involuntário, por inconsideração e negligência, como também pelo crime de uso e porte de arma proibida porque ele teria uma pequena navalha na sua posse quando foi intercetado pelas autoridades.
A medida de coação foi a prisão preventiva até ao pagamento de uma fiança no valor de 2 mil reis, um valor extremamente elevado para aquele momento da história.
Os julgamentos na praça pública continuaram, as massas populares não aceitavam a acusação que tinha sido produzida, servindo possivelmente de alento que o suspeito ainda não tinha conseguido pagar a fiança e por isso continuava detido.
O caso apaixonou a opinião pública, teve ampla cobertura na imprensa em que vários jornais escreveram e escreveram sobre este processo, sendo uma circunstância alimentada por múltiplos fatores, desde alguns erros processuais em que inclusivamente o corpo da vítima é mexido antes da chegada das autoridades, inúmeros exames médico-legais, etc. etc.
Os dias foram passando e aquele caso até iria provocar discussões políticas/partidárias, concretamente entre o Partido Regenerador e o Partido Progressista.
O novelo desta história é enorme, passadas poucas semanas tudo apontava que o crime para o qual estava a ser acusado iria sofrer agravamento passando a ser acusado de homicídio voluntário e caia a argumentação de homicídio por acidente.
Quem sabe numa próxima crónica não irá surgir mais informações sobre este caso…