Se na semana passada falei dos defeitos do egoísmo, sobretudo naquilo que é a vida das relações humanas, esta semana apraz-me louvar-lhe os méritos pois, como tudo na vida, assim acredito, o equilíbrio é o conceito fundamental a partir do qual devemos ver o mundo.
Há uma questão interessante e permanente a levantar sobre aquilo que são as nossas vidas individuais: é que são nossas. E isto parece um dado adquirido e irrelevante mas que, se formos analisar a fundo, não o é. E não o é porque permitimos vezes sem conta que outras pessoas e outras situações que são extra às nossas vidas, interfiram com aquilo que é o nosso curso natural.
Todos nós já passamos por uma situação dessas. Seja na vida profissional, em que grande parte dos casos nos obriga a prestarmos satisfações a alguém, vivendo em função de decisões tomadas por outrem na procura por uma recompensação (financeira) que transmite uma sensação ilusória de controlo, seja na vida pessoal, em que várias vezes nos vemos impelidos a viver em função de uma outra pessoa, seja de um parceiro, de um amigo, ou dos próprios pais.
A questão mais flagrante, porque mais comum, será talvez a da escolha do percurso universitário a um aluno acabado de sair do ensino secundário. Muitas vezes, este percurso é decidido pelos pais, pois estes, sem qualquer tipo de maldade, pensam saber melhor que os próprios filhos qual o rumo que a vida destes deve tomar. Esta ideia poderá ter algumas virtudes teóricas, mas na prática, não funciona. Porque a culpa de todos os percalços que esse percurso apresentar, será imputada, mesmo que de forma inconsciente, aos verdadeiros decisores, que foram os pais. Ou seja, existirá, não só, uma desresponsabilização por parte do filho, como também uma eterna frustração, se for o caso, por não ter podido escolher o seu próprio caminho.
A pressão exterior é uma situação normal do nosso quotidiano, pois vemos vezes sem conta as pessoas a tomarem comportamentos de manada, seguindo o carreiro de todos os outros, só para não se sentirem de parte, diferentes, ou motivo de conversa por parte do resto da manada. Esta pressão social está presente em todos os nossos dias e, quando acordamos para esta situação e começamos a perceber que, realmente, a nossa vida deixou de ser nossa, algures pelo caminho, ficamos com uma sensação de frustração. E vivemos um clima pessoalmente pesado, pois na fase de transição, se queremos ter a liberdade de decidir e escolher, a verdade é que continuamos a trazer connosco aquilo que foi a norma de toda a nossa vida.
Nessa altura, é importante respeitar aquilo que sentimos. Trazermos a nossa vida novamente até nós, fazer dela nossa novamente. Ou seja, tomar as rédeas do nosso caminho e não deixar que as opiniões dos outros nos possam influenciar, pelo menos de forma negativa. Teremos sempre de conviver com os outros e procurar aconselhamento naqueles aos quais reconhecemos maior competência é uma ferramenta que devemos procurar nunca perder. No entanto, devemos sempre ser senhores das nossas decisões, e ter a coragem e consciência de seguir os caminhos que entendemos serem os nossos, assumindo as suas virtudes e as suas consequências. É aí que o egoísmo é bom.
Literariamente, estamos conversados.