Crónicas e opinião
Linha do Equilíbrio | Mentira e Verdade: desafio profundamente humano!
A época da Páscoa, na tradição cristã, costuma estar associada à reflexão, à renovação e à busca pela verdade interior. No entanto, ao explorarmos algumas narrativas centrais da doutrina cristã, percebemos que a mentira e a traição também fazem parte do drama humano retratado nesse período. A história de Judas Iscariotes, o discípulo que, aparentemente, traiu Jesus Cristo, é um dos exemplos mais marcantes de como a mentira pode infiltrar-se nas relações humanas e condicionar a verdade.
Pelo que percebemos da história bíblica, Judas caminhou ao lado de Jesus, ouviu os seus ensinamentos e testemunhou os seus gestos de compaixão. Ainda assim, foi ele quem negociou a sua entrega às autoridades. A traição, simbolizada pelo famoso beijo, não foi apenas um ato de deslealdade, foi também uma manifestação da aparente fidelidade que escondia uma intenção contrária. Esta narrativa atravessou séculos, justamente, porque reflete um dilema profundamente humano – a mentira.
Mentir é, assim, um comportamento humano antigo e universal. As pessoas mentem por diferentes razões: para evitarem a punição, protegerem a própria imagem, obterem vantagens ou até preservarem os sentimentos de outras pessoas. Nem toda a mentira nasce da maldade, muitas podem surgir de conflitos internos, medo ou insegurança.
Na psicologia, costuma-se distinguir a mentira social e a mentira patológica. A mentira social é aquela que aparece no quotidiano, muitas vezes com a intenção de evitar conflitos ou preservar relações. A mentira social pode ser considerada relativamente comum e, em certos contextos, até funcional. São as chamadas “mentiras sem maldade”, que são pequenos “desvios da verdade” que tentam suavizar situações desconfortáveis, ou seja, são pequenas distorções da verdade usadas para manter a harmonia social, tais como elogiar algo que não gostamos muito ou evitar uma resposta que possa ferir alguém. Embora possam parecer inofensivas, quando repetidas ou naturalizadas podem corroer a confiança das relações e a autenticidade das mesmas. Em contrapartida, a mentira patológica é um fenómeno mais complexo, onde a pessoa mente, de forma compulsiva ou habitual, muitas vezes, sem uma vantagem clara. Esse comportamento pode estar associado a dificuldades emocionais profundas, à necessidade de validação ou à construção de uma identidade baseada em narrativas fictícias. Diferente da mentira social, aqui o ato de mentir torna-se um padrão psicológico persistente.
Para além da mentira, há outro aspeto psicológico importante a refletir nesta história: a confiança. As relações humanas, sejam familiares, profissionais ou sociais, são construídas sobre expectativas de confiança. Quando a mentira rompe esse pacto, o impacto emocional pode ser profundo, conduzindo a sentimentos de deceção, traição e insegurança e, quando associados a interesses e conflitos pessoais, pode gerar dilemas psicológicos profundos, ou seja, o conflito entre os valores pessoais e as escolhas motivadas por circunstâncias externas, como poder, dinheiro ou pressão social. Algumas pessoas que se encontram nesta situação podem experimentar, ainda, culpa intensa. Estas emoções podem, assim, surgir quando as ações entram em incongruência com os princípios, o que leva a pensar nas contradições humanas, ou seja, a capacidade de estar próximos da verdade e, ao mesmo tempo, escolher caminhos inversos. Esta situação ajuda a refletir sobre os dias de hoje, onde se vivem tempos de desinformação e de narrativas distorcidas, que circulam com facilidade, onde o compromisso com a verdade se torna ainda mais necessário, tanto nas relações pessoais quanto na vida pública.
A psicologia entende que reconhecer erros é frequentemente o primeiro passo para mudanças reais de comportamento. A consciência moral, o arrependimento e a busca de reparação são processos que ajudam o indivíduo a reconstruir vínculos e a própria identidade. Num mundo onde as pequenas mentiras sociais convivem com enganos mais graves, refletir sobre a verdade, quer nas relações com os outros, quer consigo mesmo, continua a ser um desafio profundamente humano.
Crónica da psicóloga Sandra Maia


