« …E assim se faz Portugal…Uns vão bem e outros mal…» é um refrão de uma canção com 30 anos de Fausto Bordalo Dias. Frase actual. Mas com diferenças. Hoje são menos os que vão bem e muitos mais os que passam mal.

Os que vão bem estão cada vez melhor, mais ricos. Os que vão mal, além de serem mais, cada vez têm menos. Vejamos alguns dados: O maior dos maiores, Belmiro de Azevedo, dobrou a fortuna num ano de 1 779 milhões para 2 989 milhões. As fortunas dos 100 mais ricos em Portugal ampliaram 35,8 % num ano, atingindo o valor de 34 mil milhões de euros e representam ¼ da riqueza nacional. Os proventos dos 5 maiores grupos bancários em conjunto com a GALP, PT, EDP e SONAE somaram mais de 5,3 milhões de euros em 2006. A remuneração média de cada membro do conselho de administração das empresas cotadas na bolsa representa 31,5 mil euros/mês. Grande parte deles foi aumentada 50 vezes mais do que um trabalhador comum. José Sócrates recebe, ao que se diz, 5287 euros/mês. Os que vão mal não param de crescer. A taxa de desemprego atingiu no 2.º trimestre de 2007, 7,9 por cento, ou seja, 440 599 trabalhadores. Em relação a igual período do ano passado há mais 34 900 desempregados. Se acrescentarmos os inactivos disponíveis ( 80 300 ) e o subemprego visível ( 68 100 ) o numero de desempregados sob para 588 999 trabalhadores, 10,4 por cento do total de trabalhadores. A taxa de desemprego dos jovens atingiu o valor de 15,3 por cento, quase o dobro da média nacional. Existem hoje 50 800 licenciados no desemprego, mais 10 200 do que no 2.º trimestre de 2006. Desde que este governo entrou em funções o número de desempregados cresceu de 399 300 para os actuais 440 500. No entanto, na campanha eleitoral, o PS PROMETEU CRIAR 150 MIL POSTOS DE TRABALHO. No momento atingiu-se o valor mais elevado de sempre de trabalhadores contratados a prazo, 863 700. Somando os 379 135 trabalhadores que estão na situação de «falso recibo verde», conclui-se que 1 242 835 trabalhadores têm um vínculo precário. Ou seja, 1 em cada 4 trabalhadores é precário. Existem em Portugal 2 milhões de pessoas no limiar da pobreza. Há um quadro negro do aumento de custo de vida, de agravamento das condições do crédito e da subida dos juros, da falência em série das PMES ( pequenas e médias empresas ), de liberalização total de despedimentos.atanagildolobo.jpg

« … E assim se faz Portugal… uns vão bem e outros mal…»

Assim, decorre da política deste governo o facto de ele ter levado por diante a maior destruição de sempre de postos de trabalho efectivo e, por outro lado, ter possibilitado e estimulado a ampliação do martírio anti-social do emprego precário, que ameaça alastrar-se. O trabalhador precário não é livre. Encontra-se na total dependência dos interesses do capital e do aumento constante dos seus lucros, sujeito à acção discricionária do patronato, que o limita, não só no desempenho dos seus direitos laborais mas inclusivamente coarctando o exercício dos seus direitos democráticos e de intervenção política. Esta total insegurança no emprego, aliada à chantagem e à repressão presentes todos os dias em milhares e milhares de empresas em que os trabalhadores correm o risco de serem despedidos ou são mesmo despedidos quando, usando de um direito constitucionalmente consagrado, lutam pela defesa dos seus interesses e direitos, fazem de Portugal um país deficitário em matéria de democracia cada vez mais distante do "D" ( de democratizar ) e do "D" ( de desenvolvimento ) emergentes da revolução dos cravos. Afinal democratizar e desenvolver implicam mais e melhor justiça social. E isso não é tão difícil. Os senhores do dinheiro e do poder, através dos "média" que controlam e dos «fazedores de opinião» ao seu serviço, vendem-nos a ideia da dificuldade de governar… teorizam… teorizam…mas, de facto, as coisas não são assim tão complicadas. Quem produz a riqueza? Os trabalhadores. Se os trabalhadores deste país deixassem de trabalhar por um dia, dois dias, 3 dias… o que se produzia? Nada ou quase nada. Os 100 mais ricos e mais alguns apenas são os proprietários, os detentores dos meios de produção. Bastava que pagassem mais alguma coisa ao fisco em função dos seus rendimentos e da sua riqueza para que houvesse mais justiça social, e logo seriam criadas condições para mais desenvolvimento e mais democracia. Para isso, seria necessário inverter-se a actual politica do PS a favor do dinheiro e do capital dos 100 mais ricos, e o governo passasse a incrementar outras políticas que tivessem por objectivo a felicidade humana e o fim da pobreza. No entanto, teria o PS de ser efectivamente socialista, coisa que não é, nem nunca foi. Apenas é no nome, no rótulo, à boa maneira do camaleão.

Entretanto, serão os trabalhadores, as suas associações de classe, os partidos políticos verdadeiramente de esquerda, os homens e mulheres deste país coerentemente de esquerda, a prosseguirem a luta, que apesar de todas as novas/velhas profecias, de todas as novas velhas/doutrinas, continuam e continuarão, a alimentar o verdadeiro motor da história – a luta de classes – e serão a causa essencial, o agente e a alma imprescindíveis para a mudança necessária para uma politica a favor do Homem.

Entretanto « …assim se faz Portugal… uns vão bem…a grande maioria vai mal…».

 

Guidões, 6 de Setembro de 2007.

 

Atanagildo Lobo.