Excerto de quadra de António Aleixo

Dou comigo, qual Santo António a pregar aos peixes, como acontece na oratória do jesuíta António Vieira, pois os peixes ouvem, embora não falem, e os homens falam muito, mas ouvem pouco. Bem me esforço, mas o resultado é reduzido, como diria um outro pregador popular, J. Mário Branco de seu nome, anda aqui um tipo a pregar cheio de boas intenções e vejam bem o que recebe em troca: « só porrada e mau viver». Com certeza estarei enganado, o defeito será meu. Em Portugal não há desemprego, os salários são bons, as pensões melhores, os impostos baixos,  a gasolina a sete e coroa, a electricidade é económica, as auto-estradas são livres, sem portagens, bem como as scuts, o ensino e a saúde são completamente gratuitos, os sectores produtivos seguem a todo o gás, não há corrupção,  nem compadrios e a justiça funciona a todo o vapor.

Quando assisti no Domingo passado ao definhar do resultado nacional das eleições presidenciais, foi o que pensei. O meu país não é aquele que eu venho caracterizando mas um outro, o acima sucintamente descrito. Não, o país não está mal, o povo não está pobre, não há recessão económica, nem aumento dos preços, nem cortes nos apoios sociais, nem supressões nos salários e congelamento das pensões, nem privilégios dos grupos financeiros. Tudo isso são coisas inventadas por mim, criadas pela minha ficção. Só assim se justifica os votos que caíram em Cavaco, Alegre, Nobre e Moura, todos eles, cada um à sua maneira, altos dignitários de uma política que eu considerava extremamente nociva ao povo português, aos trabalhadores portugueses, aos jovens, aos menos jovens, aos pequenos e médios empresários.

Mas…estarei enganado? Quem, ao longo de anos, de décadas, de forma honrada e séria, andou na política portuguesa, na luta e prossecução de interesses colectivos com o fim de se atingir a melhor justiça social, a soberania nacional, da erradicação a pobreza, o fim da exploração e a distribuição justa da riqueza e da produção nacional, não é reconhecido. Quem sempre cumpriu com o que prometeu, quem tem apenas um discurso, seja na Trofa, seja na Assembleia da República, não é reconhecido, ou, pelo menos, não é devidamente reconhecido. Trata-se, no mínimo, de ingratidão. Refiro-me ao PCP e ao seu candidato Francisco Lopes. É certo que, no seu tempo, Jesus também não foi ouvido, ainda hoje apenas na teoria e na liturgia é seguido, Galileu foi obrigado a desdizer-se, Camões não foi reconhecido. Às vezes, dizem-me: «Vocês, comunistas, trabalham como ninguém, mas…»; «Vocês são sérios e honestos, mas…». «Vocês defendem a justiça social e os mais fracos como ninguém, mas…». Mas… o quê? Podem acusar, e já acusaram os comunistas de tudo, de comer crianças ao pequeno-almoço, de dar injecções aos velhinhos atrás da orelha, de incendiar o património florestal, e houve quem acreditasse, e há quem acredite. Mas não podem acusá-los de terem duas caras, de serem hipócritas, de venderem a alma  ao diabo, de não serem sérios, de não serem coerentes e consequentes com os seus ideais de justiça e igualdade.

É certo que mais de metade dos eleitores portugueses não votaram, num claro protesto e desacordo com a política que vem sendo seguida nos últimos anos, de que Sócrates, Cavaco, Santana, Durão e Portas, foram os principais actores. Mas mesmo assim… como se explica que pessoas que vivam, ou melhor, que sobrevivam, apenas com o rendimento de reinserção social, e eu conheço algumas, apoiem e votem em Cavaco, que foi apoiado pelos partidos que pretendem acabar com esse rendimento. E não foi por falta de aviso. Ainda agora aí vêm patrocinadas por PS, PSD, CDS e Cavaco Silva, indemnizações mais baratas para os despedimentos: 20 dias por cada ano de trabalho até ao máximo de 12 anos. Se o trabalhador tiver 20 anos de trabalho, receberá apenas 12 meses, a 20 dias por cada mês, quando até agora receberia 20 meses a 30 dias. Aí têm a paga pelos votos em Cavaco, Alegre e companhia. Esta contradição profunda é complicada e também de difícil digestão. Mesmo a história do Metro. Porque é que o Metro não vem para a Trofa? Simplesmente porque, apenas e só, o PCP tem as mãos limpas neste tema. Só o PCP, foi e é coerente e consequente, com o que sempre assumiu.

E esta é uma afirmação irrefutável. Mas continua a martelar a mesma questão: estarei enganado? Acredito que não. Sim, é possível, um outro país, uma outra Terra, neste cadinho periférico da Via Láctea do incomensurável Universo. Um mundo onde todos sejamos amigos, com pão, educação, justiça e saúde para todos. A Terra a produzir, fecundada, devolverá felicidade a todos os homens e a todos os seres vivos, porque a distribuição será justa e equilibrada. Poderão dizer: este tipo é um sonhador. Serei…ou talvez não…mas prefiro morrer envolvido num lindo sonho, do que atormentado por um pesadelo. E assim continuarei a luta com todos aqueles que preferem o sonho nessa tentativa de mudar e transformar este mundo, construindo um melhor, pois apesar deste e de outros resultados eleitorais semelhantes, não perderei, não perderemos, a razão pois «… a Razão, mesmo vencida / não deixa de ser Razão»

Guidões, 25 de Janeiro de 2011,

Atanagildo Lobo