A conjugação da Natureza com a natureza do homem foi o ponto de partida para a obra que Alberto Carneiro deixa a S. Mamede do Coronado. O artista contemporâneo decidiu eternizar o papel que tem no mundo com um Jardim-Escultura contíguo à habitação onde cresceu – e brincou com o amigo Zacarias -, na Rua Dr. David Assoreira, e no ambiente que foi fonte do seu potencial criativo.
Trata-se da maior obra, em dimensão, do mestre e é composta por 435 esteios de granito e um tronco de castanheiro. Para Alberto Carneiro, tem “um significado especial” por estar “em S. Mamede” e por “ser constituída com matéria que vem da paisagem”. “O granito e a articulação entre os vários elementos criam uma espécie de labirinto através do qual se passa e se pode ir reconstruindo a imaginação”, definiu o artista.
O segundo dia da primavera de 2015 marcou a inauguração de mais uma obra do mestre, que em criança conviveu com santeiros, mas aprofundou a sua arte tendo como arquétipos a Natureza, a arte e o corpo. Perante uma tenda cheia de pessoas para o homenagear, Alberto Carneiro explicou que a obra “é o testemunho do reconhecimento à terra” que o viu crescer e propiciou a formação da identidade e “convívio com a Natureza que tão importante tem sido na obra”.
O significado da obra explica-se também com a existência do artista, mas não sobe ao pedestal do espólio que deixa em Portugal e no Mundo. Alberto Carneiro recusa afirmar que se trata da escultura mais importante que assinou, porque, “são os outros que classificam”, defendeu.
Para o executivo da Junta de Freguesia do Coronado, a inauguração é sinónimo da vitória da perseverança. O presidente José Ferreira afirmou ao NT que o processo iniciou em 2009, quando ainda liderava os destinos de S. Mamede. “Lancei o desafio ao professor para que deixasse um legado às gerações futuras da freguesia e uma figura tão ilustre não podia passar despercebida. Não foi fácil, porque as primeiras respostas foram negativas, mas a perseverança deu frutos e, em 2012, ele acabou por ceder”, contou.
Para José Ferreira, hoje a freguesia do Coronado e o concelho da Trofa “estão mais ricos cultural e artisticamente” com uma “obra ímpar” à qual Alberto Carneiro “se dedicou de corpo e alma, com uma intensidade e dinâmica extraordinárias”.
Mas para José Ferreira a parceria com Alberto Carneiro pode não terminar por aqui. O autarca anunciou que tem “outros desafios” para lançar, mas só adiantará pormenores “depois de falar com o artista”.
Alberto Carneiro tentou antever o assunto: “Se calhar tem a ver com o projeto inicial que era transformar aquele edifício (contíguo ao Jardim-Escultura) numa futura galeria”. O escultor diz estar “sempre disponível” para outras parcerias, apenas espera que “sejam criadas condições”.
Alberto Carneiro nasceu em S. Mamede do Coronado em 1937. Depois da tropa, decidiu viajar pelo Oriente e pelo Ocidente para interiorizar outras culturas. Desenvolveu competências artísticas em vários locais do Mundo, mas são as origens que marcam o processo criativo, como se houvesse um fio imaginário e inquebrável que o liga à terra Natal. É em S. Mamede que o homem sonha e a obra nasce.

“Pena os executivos da Trofa  não terem garantido  algum espólio”

José Ferreira não deixou de manifestar alguma mágoa por ver que “ao longo de 16 anos de concelho, os sucessivos executivos camarários não tenham conseguido garantir que algum do espólio do artista ficasse para património cultural e artístico da Trofa”. “Pelo que consigo perceber, o próprio professor Alberto Carneiro tem alguma mágoa por não ter havido um diálogo e uma interação mais estreita entre a entidade pública e o artista”, frisou.
Recorde-se que o artista está a ultimar as negociações para ceder o espólio à Câmara de Santo Tirso, concelho pelo qual nutre grande afetividade e onde existe o Museu de Escultura Contemporânea, do qual é diretor e foi um dos grandes impulsionadores.
Joaquim Couto, autarca tirsense, foi convidado de honra de Alberto Carneiro na inauguração do Jardim-Escultura, em S. Mamede.