Crónicas e opinião
Espaço LUST | Agulhas no lixo comum? Um problema silencioso que nos diz respeito a todos
A diabetes é uma das doenças crónicas com maior prevalência em Portugal. No nosso concelho da Trofa, como em todo o país, muitos utentes realizam diariamente insulinoterapia, utilizando agulhas, lancetas e outros materiais cortoperfurantes.
O que muitas pessoas desconhecem é que estes materiais, após utilização, passam a ser considerados resíduos perigosos.
Quando são colocados no lixo doméstico comum, podem causar acidentes perfurocortantes em trabalhadores da recolha de resíduos, funcionários de limpeza, familiares e até crianças. Para além do risco físico imediato, existe a possibilidade de transmissão de infeções como hepatite B, hepatite C ou VIH, caso ocorra contacto com sangue contaminado.
A Organização Mundial da Saúde classifica os resíduos cortoperfurantes como resíduos de risco, recomendando que sejam acondicionados em recipientes rígidos, resistentes à perfuração e devidamente fechados antes da sua eliminação. Também os Centers for Disease Control and Prevention defendem programas de educação contínua dirigidos aos utentes que realizam terapêutica injetável.
No entanto, em Portugal não existe atualmente um programa nacional estruturado para a recolha de resíduos cortoperfurantes produzidos no domicílio. Em muitos casos, a solução depende de iniciativas pontuais de algumas farmácias ou unidades de saúde.
No concelho da Trofa, não existe um circuito formal amplamente divulgado e acessível a todos os utentes. Esta realidade cria desigualdade no acesso a práticas seguras e aumenta o risco para a comunidade.
É importante esclarecer:
– Agulhas e lancetas nunca devem ser colocadas soltas no lixo comum.
– Devem ser acondicionadas em recipientes rígidos (por exemplo, garrafões de plástico resistente bem fechados, quando não existe contentor próprio).
– Perguntar no centro de saúde qual o local adequado para a deposição.
Mas a responsabilidade não pode ser apenas individual. A literacia em saúde é uma responsabilidade partilhada entre utentes, profissionais de saúde e instituições.
A LUST considera que este é um problema silencioso, mas com impacto real na saúde pública e na segurança comunitária. Por isso, irá promover o diálogo com as Unidades de Saúde Familiar e outras entidades locais, no sentido de perceber que soluções existem e como podemos melhorar a informação e os circuitos de recolha.
Proteger quem vive com diabetes é também proteger quem trabalha na recolha de resíduos, quem cuida e toda a comunidade.
A saúde pública começa muitas vezes em pequenos gestos — e o destino de uma agulha usada pode fazer toda a diferença.
LUST – Liga de Utentes de Saúde da Trofa



