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Crónicas e opinião

Escrita com Norte: Velório

José Calheiros

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Estava sentado quatro cadeiras ao lado da filha. Apesar de mal a conhecer e de totalmente desconhecer o pai defunto, entrei na capela mortuária com a expressão sóbria, a condizer com a ocasião. Todas as pessoas estavam sentadas, alinhadas em “U”, à volta do caixão; duas caras conhecidas; muitas mais, sem saber quem eram; o caixão, entre duas colunas, com velas acesas e arranjos florais por baixo e ao lado; uma ou outra conversa, em tom arrastado, para não descompor a ocasião e um telemóvel que toca e algumas pessoas acordam. Com esperança, apesar de não conhecer o defunto, pessoa já idosa, olhei para o caixão!

Este dia, sábado, prometia ser igual aos outros, felizmente, e com um pormenor de classe: não chovia!

A manhã, passada em algumas tarefas domésticas, provocava um sorriso à Cristina, que, com orgulho, olhava para mim e dizia, – És um querido! – enquanto eu, olhava para ela e respondia com outro sorriso, a pensar, “Logo, no fim do futebol, vou à tasca com os suspeitos do costume: a malta da bola”.

Já de noite, acabada a futebolada e instalados na “Canzoada”, estava eu na transição do primeiro para o segundo prato e a encher o sétimo copo, quando toca o telefone. Abano a cabeça e expresso um: – Fogoooo. Pouso o prato, dou um gole no copo de vinho e pensei, “Não atendo”. Para saber com quem não iria falar olho para o telemóvel e é a Cristina!

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– Olá! – atendi. – Tudo bem?

– Faleceu o pai da Maria.
Fiquei a pensar quem era.

– Que Maria? – perguntei.

Após uma breve explicação, a Maria é uma conhecida dela, que me foi apresentada há muito tempo e, depois disso, voltei a vê-la mais uma vez.

– O funeral é amanhã. Vamos?

– Vamos. A que horas é? – pergunto.

– Às onze.

– Não posso. Tu sabes que tenho futebolada (com outros “suspeitos do costume”) a essa hora!

– Então vamos daqui a pouco ao velório?

– É isso, vai ao velório, fazes bem! – incentivo.

– Não…VAMOS, os dois.

– É isso, Morzinho, vai!

Detesto quando estragam o meu sábado ordinário! Enquanto “comia” caminho por entre montes, em direcção à casa mortuária de Rindo, tinha que transformar a minha sentida expressão de zangado. Muito facilmente cheguei ao local do velório com uma expressão de extremo pesar, lembrando-me das épocas em que o meu clube, o Sporting, não ganhava nada!

Deixo a Cristina entrar à frente, cumprimento quem ela cumprimenta, dou os pêsames a quem ela os dá e sento-me.

Após uma breve observação pela sala, respiro fundo e deixo-me “afundar” na cadeira. Sem me aperceber, pára um senhor em frente a mim:

– As minhas condolências!

– O quê? – pergunto, sem perceber.

– É neto do Antunes? – pergunta-me o senhor.

– Não, nem o conhecia! – respondo, ficando a saber o nome do falecido.

A minha expressão de extremo pesar confundiu aquele senhor e, de imediato, parei de pensar no Sporting dos tempos em que não ganhava nada! Decidi manter uma expressão normal, pensando em…nada!

Desvio o meu olhar para a filha, que recebia o consolo de uma senhora, certamente conhecida, com quem mantinha conversa!

– É dura a morte!

– É, é dura! – responde a filha.

– E a tua mãe, não conseguiu vir?

– Não, amanhã tem que se levantar cedo para fazer umas coisas antes do funeral!

– E está a sofrer muito? – insiste a senhora, no seu consolo piedoso.

– Não! O meu pai sempre foi muito mau para ela, batia-lhe…

– Mas era bom pai? – interrompe a senhora, sem deixar a Maria terminar a sua frase, tentando descobrir algo de bom naquele homem.

– Também não! Basicamente, só nos procriou! Nunca foi bom pai!
(“Foste um maroto, Antunes!”, pensei, olhando para o caixão)

– Mas ajudava lá em casa?! – insistia a senhora.

– Sim! Se fazer “nada” for ajudar! E, ainda por cima, agora estava acamado e a minha mãe já não tinha idade nem saúde para cuidar dele…
(Abstraí-me da conversa e olhei novamente para o Antunes, sentindo um verdadeiro pesar por ele)

– Vamos embora? – pergunta-me a Cristina.

– Sim, vamos!

Levantei-me, dei três passos até à Maria, e:

– Parabéns e um bom 2026 para a família!

Obrigada! – respondeu-me.

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