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E o vencedor da guerra do Irão é… Vladimir Putin

João Mendes

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Uma das consequências mais interessantes da guerra lançada por Israel e EUA contra o Irão teve lugar mais a leste. E o seu impacto mede-se na alteração da relação de forças entre dois aliados de ocasião, com longo historial de escaramuças entre si, mas que, perante um poder maior, e uma oportunidade maior ainda, perceberam ser do interesse de ambos ter boas relações. Pelo menos por agora. Depois logo se vê.

Até há poucas semanas, a Rússia encontrava-se numa situação de enorme dependência em relação à China. Algo que se arrastava desde o início da invasão total da Ucrânia, em 2022. Moscovo viu as vendas de energia para a UE cair abruptamente, foi alvo de inúmeras sanções e a sua economia foi atacada em várias frentes pelo bloco ocidental. Acossado, Putin virou-se para oriente.

Para termos a noção do desequilíbrio de forças, a China é hoje o maior parceiro comercial da Rússia. Só nos primeiros meses de 2026, as suas compras de energia russa representaram 50% do total exportado pelo país. A preço de saldo. No total, a China é o destino de mais de 30% do comércio internacional russo. Já a Rússia representa apenas 3% das exportações chinesas. O maior parceiro comercial da China, ironicamente, são os EUA. Não menos irónico, o maior dos EUA é o México. Adiante.

Com o início desta guerra, contudo, a China sofreu um duro golpe no fornecimento de energia. Cerca de 30% das suas importações de petróleo vêm do Golfo e passam pelo estreito de Ormuz. Arábia Saudita, Kuwait e EAU estão entre os seus principais fornecedores. Tal como o Irão, que por razões óbvias deixou de exportar para a China. Assim como a Venezuela.

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E quem sai a ganhar com tudo isto?

Vladimir Putin.

Torna-se no único dos principais fornecedores cujas exportações não são afectadas pelo conflito. E isso equilibra a balança com a China a seu favor, que precisa do seu petróleo mais que nunca. E favorece também a sua posição na Ucrânia, não apenas porque Moscovo depende de tecnologia chinesa – que assim se torna, digamos, mais acessível – mas sobretudo porque esta crise no Médio Oriente também afecta o sector energético europeu. E enfraquece os únicos aliados fiáveis que restam à Ucrânia.

E como se tudo isto não fosse já um sonho para o Kremlin, Trump, que está a derreter com o Irão o stock de mísseis Patriot que Zelensky nunca receberá, decidiu há dias levantar algumas sanções contra países que comprem petróleo russo. Segundo o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, a decisão pretende “promover a estabilidade nos mercados energéticos”. Porque Bessent, como a administração que integra, está muito preocupado com a estabilidade dos mercados energéticos. Daí lançarem uma guerra desnecessária que os desestabilizou. Na lógica alucinada do trumpismo, isto faz todo o sentido. Até porque já há por lá malta que garante que isto é uma guerra santa, que Trump foi escolhido por Deus para trazer Jesus de volta, e que caminho da Ressurreição passa por um Armagedão no Irão.

Entre aflitos para conseguir petróleo, o Golfo mergulhado no caos, a Europa refém da sua própria inércia e a Casa Branca controlada por corruptos, pedófilos e fundamentalistas cristãos, a realidade torna-se mais bizarra que a ficção e a vida não podia correr melhor ao carniceiro de São Petersburgo. Não percebo como é que Trump ainda não o convidou para o Board of Peace. E Putin que não se faça rogado, no dia em que o convite chegar. Donald Trump foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido.

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