Está ligado à Associação Empresarial do Baixo Ave (AEBA) quase desde a sua fundação e assumiu funções de vice-presidente e membro do conselho consultivo até chegar à presidência da direção. Alexandre Teixeira, licenciado em Arquitetura e responsável pela empresa de construção civil Manuel Alexandre, Teixeira & Mendonça, Lda, fundada pelo pai na década de 80, assumiu o desafio em plena pandemia, que afetou as empresas, algumas, irremediavelmente. Em entrevista ao NT, o novo presidente da AEBA falou da importância das empresas repensarem os modelos de negócio e modernizarem-se e defendeu que os municípios da região deviam alinhar numa “aliança estratégica”.

O Notícias da Trofa (NT): Porque decidiu assumir a presidência da AEBA?
Alexandre Teixeira (AT):
Antes de mais, aproveito para desejar a todos os leitores um bom ano, com muita saúde, muitas alegrias e muitos sucessos. O ano de 2020 foi muito exigente… difícil… e 2021 será, seguramente, um ano também com muitos desafios e é preciso que estejamos todos preparados para resistir e superar as dificuldades que já temos e as que vão surgir…
Respondendo concretamente à questão, eu candidatei-me porque fui desafiado… Entrei para a direção da AEBA em 2004, concretamente a 3 de fevereiro, no segundo mandato da Associação (fundada em 2000), ou seja, fiz parte da primeira lista candidata aos órgãos sociais depois da sua fundação. Desde essa data e até 2017, fui vice-presidente da direção, primeiro liderada pelo Sr. Manuel Pontes e depois pelo Eng. José Manuel Fernandes. Em 2017, passei com o Dr. Luís Portela para o Conselho Consultivo e agora, em 2020, os sócios confiaram-me a liderança da Associação e sou presidente da direção, enquanto sentir que posso acrescentar valor, enquanto sentir que sou acompanhado pelos empresários da nossa Região e enquanto sentir que somos capazes de fazer crescer este projeto associativo.
Decidi assumir este desafio porque há um conjunto de empresários que se disponibilizaram para constituir a equipa/lista comigo, os quais têm grande credibilidade, reputação e dimensão empresarial (independentemente da dimensão das suas empresas). No conjunto de todas as empresas que constituem os órgãos sociais da AEBA, representamos muita produção interna, muitas exportações, muitas pessoas, ou seja, assumimos uma grande responsabilidade regional. Em conjunto, representamos mais de dois mil milhões de euros de faturação e mais de 30.000 pessoas ao serviço. Em conjunto, temos a ambição de ajudar a crescer esta associação, mantendo a linha do apoio às empresas. Iremos reforçar os serviços e os apoios, sobretudo o apoio técnico aos empresários…
O nosso compromisso é manter e reforçar a atividade da associação ao serviço das empresas.

NT: Assume a presidência da AEBA num contexto difícil para as empresas, devido à pandemia de Covid-19. Que desafios atravessam as organizações associadas da AEBA, neste momento? Quais os setores que têm reportado maiores dificuldades em resistir à contração económica?
AT:
As empresas associadas atravessam grandes desafios, de facto. Um primeiro é, desde logo, a “sobrevivência”. As empresas que estavam mais débeis, estão hoje a passar por grandes dificuldades, esta situação é transversal e independente do setor económico em que operam. Um outro desafio, e que é também uma oportunidade, é acelerar o processo de adaptação à nova realidade socioeconómica em que os processos de digitalização assumem especial relevância. É, de facto, muito importante que as empresas pensem bem o seu modelo de negócio, a forma de atuar no mercado, que se foquem na eficiência e na eficácia. Dada a imprevisibilidade e a instabilidade atual é muito importante que as empresas consigam otimizar e flexibilizar as suas estruturas e que percebam que algumas das mudanças que se verificaram de forma abrupta, serão permanentes e as empresas e as organizações terão de se ajustar.
Os setores com maiores dificuldades atuais são o Comércio, a Restauração e a Hotelaria e os Serviços, sobretudo os que têm conexão com o Turismo, como são as agências de viagens e a organização de eventos.

NT: Tem a relação das empresas do concelho/associadas que tiveram de encerrar desde o início da pandemia?
AT:
Na AEBA temos identificadas as empresas associadas que tiveram que encerrar/suspender a sua atividade por causa da pandemia, não temos identificadas as que encerraram atividade de forma definitiva.
Até este segundo confinamento obrigatório, a generalidade das empresas resistiram na esperança de conseguirem superar os resultados negativos iniciados no segundo trimestre de 2020. O Comércio a retalho, a Restauração e a Hotelaria foram os primeiros setores a sofrer e os que tiveram maior impacto negativo, mas com as vendas em consumo final a reduzir tão drasticamente, todos os setores irão ter de ajustar e irão absorver este impacto, ainda que de forma mais gradual, desde a indústria têxtil de vestuário e calçado ao automóvel ou à maquinaria… Um dos setores que tem mantido uma atividade constante é a construção, mas é sabido que a construção é sempre dos últimos setores a entrar em crise e é também dos últimos a entrar em retoma… teremos de ser muito objetivos nas decisões de gestão para superar esta crise, esta recessão, que em alguns casos trará novas formas e novos comportamentos. Como já referi, é fundamental que as empresas pensem e atualizem os seus modelos de negócios e incluam todas as formas e instrumentos para tornar as estruturas eficientes e o mais flexíveis possível.

NT: Quais os objetivos que traçou para o seu mandato?
AT:
Tal como consta do nosso programa eleitoral, esta candidatura propôs-se mobilizar as empresas para os ajustamentos estratégicos que urgem, tendo em conta a realidade e a evolução mundial, dentro do espírito de cooperação e partilha dos conhecimentos e das experiências empresariais, dando continuidade às orientações seguidas nos mandatos anteriores.
Os objetivos a que nos propusemos e que foram aprovados por unanimidade da Assembleia Eleitoral são aumentar a representatividade da AEBA na Região e no País, contribuir e defender a concretização de uma cúpula agregadora de todo o movimento associativo empresarial através da presença em iniciativas ou órgãos como o CSA da AEP e promover a elaboração e a divulgação de informação e análise económica e de conjuntura regional em cooperação com os poderes regionais autárquicos.
Também iremos trabalhar para valorizar a dimensão internacional exportadora das empresas associadas e criar condições de melhoria dos apoios para esse fim, assim como pretendemos reforçar e aumentar a base de apoio às empresas associadas, reforçar os programas de formação na AEBA, sobretudo sob a forma inter-empresarial, com empresas em estágios de desenvolvimento próximos e com desafios comuns.
A criação da informação digital para as empresas sobre fiscalidade, economia e artigos técnicos, promoção e divulgação das empresas associadas junto dos mercados e divulgação tecnológica, da cooperação e de oportunidades de subcontratação com fomento de serviços também está entre os nossos objetivos.
O processo eleitoral mandatou esta direção da AEBA para centrar a sua atividade em torno destas grandes linhas de ação, as quais reforçarão a representação institucional da AEBA e o seu papel junto dos diversos organismos, sempre na defesa dos interesses de todas as suas associadas para, assim, contribuir para o desenvolvimento económico, quer da região, quer do país.

NT: Há assuntos que permanecem por resolver na Trofa e que condicionam a progressão económica do concelho, nomeadamente a vinda do metro e a variante à EN14, com a construção da nova ponte sobre o Rio Ave. Considera que a Trofa é desconsiderada pelos decisores políticos? Ou é a Trofa que não tem peso suficiente para fazer valer as suas pretensões?
AT:
A Trofa é um concelho que se afirma pela capacidade económica instalada, pela capacidade/competências das pessoas e pela sua localização geográfica. Todos sabemos que estas capacidades poderiam ser potenciadas, podiam ser muito mais relevantes e expressivas se a acessibilidade e a mobilidade nesta região fosse melhorada. Se todos sabemos esta verdade e não fomos capazes de mobilizar uma solução ao nível das nossas necessidades, que promova a eficiência das empresas, a defesa do ambiente, a qualidade de vida dos que cá vivem e dos que cá trabalham, todos falhamos!
Os pais e as mães ficam nas filas de trânsito o tempo que poderiam estar com a família, os recursos humanos das empresas ficam nas filas de trânsito o tempo que poderiam estar a produzir nas empresas… os gases e a poluição acumulam-se na atmosfera que respiramos… os euros evaporam-se no combustível queimado desnecessário… Imaginemos o que seria viver nesta região sem problemas de acessibilidades nem de mobilidade… em que os transportes públicos fossem adequados às necessidades destas populações… imaginemos quanto não se produziria a mais… imaginemos a qualidade de vida que as famílias teriam…
A variante à EN14, a construção da nova ponte sobre o Rio Ave e outras obras de acessibilidade são importantes, sem dúvida, mas a par com essas preocupações dever-se-á dar prioridade máxima à integração de uma rede de transportes públicos confortáveis e acessíveis que, efetivamente, venham a retirar veículos das estradas. Imaginemos o que seria se as principais empregadoras da cidade da Trofa (PREH, FREZITE, INAPAL METAL, BRASMAR, METALOGALVA, EURICO FERREIRA…) pudessem ser servidas por uma rede confortável de transportes públicos. Já foram anunciadas soluções a este nível, mas ainda não nos apercebemos de concretizações. O Metro a chegar à Trofa, ou a passar pela Trofa até aos concelhos vizinhos (solução que deveria mobilizar a Região), só terá sucesso se se conseguir criar uma rede coordenada de transportes públicos. Esta deveria ser, em nossa opinião, uma prioridade também e com essa solução de transportes públicos, a concretizar-se antes da chegada do Metro, já se poderá recolher e analisar os novos perfis de trânsito e desta forma “ajustar” e justificar o investimento público, nomeadamente conseguir-se-á perceber melhor os benefícios ambientais que uma solução dessas poderá aportar.

NT: Falta na Trofa uma definição político-estratégica para liderar e fazer o concelho singrar em termos económicos este município?
AT:
Penso que uma aliança estratégica entre os Municípios desta região, nomeadamente entre Trofa, Santo Tirso, Famalicão, Vila do Conde e Maia beneficiaria toda esta região e todos os munícipes sairiam beneficiados. Os municípios não são ilhas autónomas, penso que ter hoje em dia a visão da afirmação municipal individual é cada vez menos viável. O desenvolvimento económico é gerado de forma “supra municipal”, esta foi e é a visão dos empresários e foi esta a razão porque há quase 21 anos um conjunto de empresários Trofenses fundaram a AEBA e não uma associação concelhia.
Definição político-estratégica? A falta de recursos, nomeadamente a falta de recursos financeiros do Município da Trofa condiciona todo o desenvolvimento socioeconómico do concelho e o sucesso de qualquer definição político-estratégica.

NT: Quais as decisões e medidas estratégicas que implementaria ao nível municipal para atrair investimento e investidores para a Trofa?
AT:
A Trofa, assim como toda esta região, tem características muito interessantes para a captação de investimento e de investidores. Quem anda pelo mundo, quem investe pelo mundo fora, tem essa perceção muito nítida. A experiência das empresas exportadoras e dos grupos internacionais com origem na Trofa é muito interessante e permite perceber que, de facto, estamos ao nível do melhor que se faz no mundo. Estamos ao nível dos melhores do mundo, e estou a ser modesto, pois todos sabemos que em muitas empresas, organizações e áreas temos os melhores do mundo. Estamos no topo: na indústria, na logística, no comércio, na gestão, nas tecnologias de informação e comunicação, na saúde, no futebol… temos os melhores operadores, temos os melhores profissionais. Somos um povo hospitaleiro que gosta de criar relações, falamos várias línguas… Temos uma gastronomia excelente. Temos vias de comunicação e comunicações excelentes, somos muito amigos das tecnologias… temos um clima fantástico. Ou seja, temos muito boas condições para atrair pessoas, pensamos que o que mais condiciona a captação e a retenção de pessoas e de empresas é a carga fiscal para quadros e empresas e a teia burocrática de obrigações das pessoas e das empresas. Lembremos as 4000 taxas a que o tecido empresarial está sujeito… é impensável e se a essa carga fiscal juntarmos a instabilidade fiscal, a situação agrava-se. Todos os dias mudam-se regras… esta situação deve acabar rapidamente para que as empresas e os empresários se concentrem nos seus negócios.
O País, o Governo de Portugal tem de tomar medidas. É imprescindível que Portugal caminhe para uma carga fiscal próxima da média Europeia, se possível abaixo, para que o nosso país possa/consiga manter investidores Nacionais e Estrangeiros. A perda de competitividade futura pode ser crítica para a nossa economia e para o equilíbrio socioeconómico do nosso país. É uma questão Nacional, a Trofa não consegue por si só alterar o contexto nacional.
Ao nível concelhio, e do concelho da Trofa em particular, as medidas mais imediatas passariam por baixar a carga fiscal, ou seja tentaria baixar todos os impostos e taxas municipais possíveis. A Câmara Municipal da Trofa já começou a intervir a este nível, mas pensamos que ainda há um longo caminho a percorrer.
Para complementar a captação de investimento e de projetos de elevado valor acrescentado, promoveria a instalação de centros tecnológicos ligados às tecnologias de informação e comunicação, bem como a instalação de centros de investigação ligados à saúde pois estas estruturas arrastam e geram a criação de empresas de alto valor acrescentado e de pessoas com elevados níveis de qualificação e por conseguinte, de elevados rendimentos.
Dentro das possibilidades legais e das estratégias mais atuais de planeamento urbano tentaria promover a criação de espaços de acolhimento empresarial modernos e de futuro bem como de habitação e a par com tudo isto reforçaria a comunicação e a publicidade das características mais distintivas deste concelho e desta região. Também aqui o Município está a dar passos mas é preciso que os privados criem soluções competitivas e criativas, coordenados com a estratégia do Município e da Região.

NT: Quais os setores que interessam ter a criar valor económico no concelho?
AT:
Há uma lição que se retira do nosso tecido empresarial: “não há bons ou maus projetos, depende de quem está por trás”… ou seja a qualidade dos empresários, da sua gestão, da sua visão, faz toda a diferença, pois a capacidade de “ver para além do obvio” está fora dos livros de gestão. Por isso eu diria que mais do que escolher setores, é importante escolher os melhores empreendedores (empresários e colaboradores), e nesse campo a Trofa será um concelho em que a capacidade empreendedora mais se afirmou nos últimos anos. Veja-se o crescimento de algumas empresas que deram origem a grupos empresariais de origem Trofense como é o caso da SANER, da METALOGALVA, da PROEF, da FREZITE, do TROFASAÚDE, da TRIFITROFA, da FALUAL e de outras empresas que cá se instalaram e cresceram, como é o caso da PREH, da BIAL, da INAPAL METAL, da PLASTIRSO e de muitas outras com crescimentos notáveis sobretudo na área da metalomecânica, mas também no setor têxtil, nos plásticos ou nos serviços.
Independentemente do setor, interessará ter empresas que gerem alto valor acrescentado, mesmo sendo empresas que se posicionem entre os setores ditos mais tradicionais e naturalmente as empresas que se posicionem nos setores mais tecnológicos e que valorizem, por isso, os melhores recursos da nossa região.