Alguns traumas e complexos políticos, que nasceram com abril, ainda estão enraizados em muitos portugueses, que os levam a pensar que todo aquele que não é de esquerda é da reação, e como tal não é «boa peça». Talvez por isso, muitos conservadores, muitas pessoas que nada têm de esquerda, passaram-se a assumir como sendo de esquerda, e até revolucionários de pacotilha se assumem. Ser de esquerda é uma moda fora de moda, mas que para muitos ainda está na moda.

Na opinião pública feita por medida, e à medida de alguns, onde o pensamento dominante é de esquerda, ainda se tem a ideia que o pensamento político de esquerda é que é o pensamento politicamente correto. Uma ova! Há muitas pessoas que dizem «bacoradas esquerdistas», pensado que são os maiores revolucionários, mas não passam de reacionários, como eles próprios gostam de apelidar os que não são de esquerda.

É a esquerda política portuguesa, a esquerda «caviar», que veste «Armani» ou «Chanel», tem carros de gama alta e vive em casas de luxo; é a esquerda política que temos, que alberga personalidades pouco recomendáveis, que não sabem o que é na prática a igualdade e a fraternidade, mas apregoam-na. Estão na política para engordarem as suas contas bancárias, cá e lá, no offshore do seu contentamento. Há muito tempo que assim é. Infelizmente!

Talvez por tudo isto é que alguns portugueses têm ideias formadas pela opinião pública dominante, que tem muitos órgãos de comunicação na mesma «onda». Por isso, têm uma atitude bem diferenciada na culpabilização dos diferentes atores políticos e não só, aquando do julgamento de processos jurídicos mediáticos. Quando um político de esquerda se aproveita para enriquecer ilicitamente é porque é esperto, soube aproveitar as oportunidades. Se não é de esquerda é porque é um reles gatuno. Porque será?
Um autarca de freguesia, um autarca municipal, um deputado, um ministro ou um primeiro-ministro, que enriqueceu ilicitamente, tem por parte de muitos portugueses uma opinião divergente em função do partido político que fez eleger esse oportunista, e não do ato ilegal que praticou. A justeza opinativa está, entre muitos portugueses, pelas «ruas da amargura».

Se um individuo foi eleito por um partido político de esquerda e enriqueceu ilicitamente é considerado esperto, astuto, um «rato» que soube aproveitar as oportunidades, pois ele «foi eleito para se safar», a si e aos seus apaniguados, amigos ou familiares. Quando um indivíduo desses é apanhado nas malhas da lei, surge de imediato vários «agentes de limpeza» a tentar, junto dos órgãos de comunicação social, desviar o assunto para a forma do processo, tentando escamotear o que originou o processo. É a pútrida opinião de interesses obscuros. Ao contrário, se não for de esquerda é considerado um gatuno da pior espécie, um ladrão que andou a roubar o «dinheiro do povo». São resquícios de abril, talvez!

Qualquer tipo de crime, de pedofilia, de usurpação do erário público, de enriquecimento ilícito, ou outros, deve ter da nossa parte um distanciamento emocional, para podermos opinar e julgar. Quem é apanhado nas malhas da lei, o seu julgamento deve ser imparcial e se for considerado culpado, deve ser condenado, seja de que cor política for, seja do nosso partido ou do partido dos outros.

É urgente, começarmos a colocar justeza nas nossas opiniões, mesmo que venham a ser contra o partido a quem emprestamos o nosso voto. Precisamos de mudar, urgentemente! Precisamos de ter justeza e nobreza no ato opinativo, assim como no ato da culpabilização!

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