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Crónicas e opinião

Corrupção do Bem?

Fui alvo de vários insultos e ameaças por causa do meu último artigo neste jornal. É o preço a pagar por não ter medo de ter opinião e de enunciar factos que não agradam a todos, pese embora só aconteça quando o Chega é visado.

João Mendes

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Fui alvo de vários insultos e ameaças por causa do meu último artigo neste jornal. É o preço a pagar por não ter medo de ter opinião e de enunciar factos que não agradam a todos, pese embora só aconteça quando o Chega é visado. Lamento o chorrilho de mentiras e insultos, bem como a total ausência de contra-argumentação, mas outra coisa não seria de esperar. O fanatismo e o extremismo político são mesmo assim.

Mas porque aquele artigo foi muito extenso, e mais dado a interpretações e manipulações, vou regressar a ele, e focar-me apenas na corrupção. Em particular na forma como o CH a usa internamente para crescer, enquanto cultiva relações de proximidade e amizade com alguns dos governantes mais corruptos do mundo.

A pergunta que se impõe é esta: como pode um partido como o CH afirmar-se como cruzado anti-corrupção, com uma retórica impiedosa e punitiva, e, ao mesmo tempo, apoiar e celebrar líderes profundamente corruptos como Orban ou Trump?

Prometo dedicar um artigo inteiro a Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro e emissário de Vladimir Putin no Conselho Europeu, que fez do seu amigo de infância, Lorinc Meszaros, o homem mais rico da Hungria. Mas deixemos o dirigente europeu mais corrupto em funções para outro dia.

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Falemos de Trump.

Em Abril de 2025, Donald Trump Jr., filho do presidente, lançou um clube privado, o Executive Branch. Integrá-lo custa 500 mil dólares e garante acesso directo ao próprio Donald Trump. No fundo, o filho de Trump vende acesso ao pai e à presidência dos EUA por 500 mil dólares.

Imaginem que estávamos em 2007 e o filho de José Sócrates cobrava 500 mil euros para garantir o favor do então primeiro-ministro a quem estivesse disposto para pagar.

Ainda no campo da compra do favor presidencial: pouco depois de ser eleito, Trump lançou a sua moeda digital, a $TRUMP, que lhe garantiu lucros superiores a 800 milhões de dólares.

Para o ajudar neste projecto, Trump perdoou o fundador da Binance, o chinês Changpeng Zhao, que se declarou culpado por permitir que terroristas e pedófilos usassem a sua infraestrutura para fazer negócios e lavar dinheiro. Entre outros crimes. Justin Sun, outro bilionário da área das criptomoedas, viu a investigação do SEC aos seus negócios ser cancelada, poucos dias após ter investido 75 milhões na empresa de Trump. Uma vez mais, trocar “Trump” por “Sócrates” poderá ajudar ao entendimento da gravidade do caso.

No plano internacional, o caso do Qatar é impressionante. O ditador do Qatar, regime-albergue dos terroristas do Hamas, ofereceu um avião de luxo a Trump, no valor de 400 milhões de dólares, algo que a lei americana proíbe. Em resposta, Trump assinou um contrato de defesa mútua com o Qatar e anunciou algo inédito: a construção de uma base militar do Qatar nos EUA. Para os americanos fica a conta para remodelar o avião ao gosto de Trump, que tudo indica custará algumas centenas de milhões de dólares.

Podia encher este jornal com casos idênticos. Um bom exemplo é o da empresa GEO Group, que recebeu um contrato estatal de 1,2 mil milhões após ter doado 1,25 milhões para a campanha de Trump e 500 mil para a sua tomada de posse. Ou o caso dos vários escritórios de advogados que “ofereceram” 940 milhões de euros em serviços jurídicos pro-bono para cair nas boas graças de Trump. Ou o facto de todas as ditaduras do Médio Oriente que Trump visitou no início do mandato terem anunciado investimentos na ordem das centenas de milhões em projectos da Trump Organization.

Nunca mais saíamos daqui.

Bem sei que isto me vai valer mais umas ameaças e uns insultos. Contudo, e para aqueles que já chegaram à idade adulta e quiserem contestar estes factos, estou disponível para um debate público e civilizado, transmitido em directo. Desafiei em tempos dois dirigentes do CH Trofa, que também quiseram contestar factos com base em afirmações sem fundamento, mas nenhum aceitou. Compreende-se. Argumentar e debater dá trabalho e encerra riscos que nem todos têm a coragem de correr.

Seja como for, importa sublinhar o seguinte: cada um pode contar a si mesmo a história que quiser e acreditar nela. Mas factos são factos e quem defende o trumpismo, hoje, está na barricada de Putin, da censura do escândalo de pedofilia Epstein, do assassino saudita, do tráfico de influências na Casa Branca, do empobrecimento do povo em benefício da elite e, sim, da corrupção.

É lidar.

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