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Edição 766

Correio do leitor: O metro que não chega à Trofa

“Muito se tem falado sobre a continuação do metro com destino à Trofa e até à data nada se vislumbra. Tem sido uma miragem!”

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Muito se tem falado sobre a continuação do metro com destino à Trofa e até à data nada se vislumbra. Tem sido uma miragem! Foi há 20 anos, a 23 de fevereiro de 2002, que o comboio da via estreita atravessou pela última vez a estação da Trofa, sob a promessa de dar lugar ao metro, que nesse ano se estreou no Porto e não avançou para lá da cidade da Maia (ISMAI), até hoje. Este dia deixou má recordação ao Concelho da Trofa, principalmente à freguesia de S. Cristóvão do Muro, como para Santiago de Bougado, pelo apeadeiro de Cedões, e pelo apeadeiro de N.ª Sr.ª das Dores, em S. Martinho de Bougado. Ninguém gosta de evocar este dia, mas é difícil esquecer porque as populações ficaram sem este regular transporte até à Trindade, troço inaugurado pelo então Presidente da República, General Carmona.
A população sente-se revoltada e clama “justiça”, exigindo o que têm direito, para que os sete quilómetros desde a Maia até à cidade da Trofa sejam repostos e assim desapareçam as enormes vegetações que albergam bicharada rastejante a entrar pelas habitações. O povo pensou mudar para melhor, não para pior. Existem opiniões que a verba gasta em desviar o metro do percurso usual, junto ao Jardim Zoológico, para o centro da cidade da Maia e com as duas grandiosas pontes, terminando no (ISMAI), foi a razão para a linha não seguir até à Trofa. Acabaram-se os milhões e os últimos ficaram esquecidos, infelizmente.
Nem toda gente tem carro e quem o utiliza, com a carestia dos combustíveis, o metro era uma ótima alternativa para a população viajar para os seus empregos e estudos. Todos nos lembramos que o comboio em meia hora fazia o trajeto Porto-Muro, sem impedimento das longas filas de veículos e este transporte até atraía novos moradores no Muro, Alvarelhos, Guidões, Santiago de Bougado e S. Martinho. Sem transportes regulares e desajustados, a população local faz correria para cumprir horários. Só lhes resta o carro para chegar ao Porto num calvário de filas.
Se os governantes incentivam as pessoas a andar de transportes públicos e a reduzir os automóveis, não é assim que vão conseguir diminuir o problema da poluição. Se houver metro, parte das pessoas não vão encher a estrada de carros. Agora que chegou a famigerada “bazuca”, é hora de exigir ao Governo e à Área Metropolitana do Porto a reposição da linha em falta, desde o (ISMAI), ao antigo apeadeiro de Nossa Senhora das Dores, lugar privilegiado para os Munícipes tratar dos assuntos na nova Câmara Municipal. É crucial ter neste local transporte para a população a sul da Trofa.
O Sr. Presidente da Câmara deve lutar com todos os trunfos possíveis e em diálogo construtivo como já tem feito. Se nada avançar, devemos encetar formas mais musculadas, até mesmo o veto total do Concelho nas eleições. Tem de existir forte união entre as oito Freguesias. Que a Trofa recupere a sua dignidade…


Firmino Santos

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Edição 766

Memórias e Histórias da Trofa: O testamento luso-espanhol de António José de Oliveira Campos

Quem estuda história, ou simplesmente vai lendo documentação avulsa para adquirir mais conhecimento, como é o exemplo daqueles indivíduos de uma determinada idade que na Biblioteca Pública Municipal do Porto solicitam para consulta o Diário de Governo, sabe que este tipo de documentação que é produzida pelos Governos na fase inicial da época contemporânea irá permitir encontrar uma enorme diferença de textos informativos, alguns com situações que aos olhos do presente seriam estranhas.

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Quem estuda história, ou simplesmente vai lendo documentação avulsa para adquirir mais conhecimento, como é o exemplo daqueles indivíduos de uma determinada idade que na Biblioteca Pública Municipal do Porto solicitam para consulta o Diário de Governo, sabe que este tipo de documentação que é produzida pelos Governos na fase inicial da época contemporânea irá permitir encontrar uma enorme diferença de textos informativos, alguns com situações que aos olhos do presente seriam estranhas.
A publicação de um testamento em pleno Diário do Governo era exemplo disso. O testamento de António José de Oliveira Campos que falecia em território espanhol, ainda no estado solteiro e sem descendentes que fossem conhecidos, tendo falecido concretamente em Santa Eulália de Mondariz, diocese de Tuy, que é província de Pontevedra.
Afirmava-se que tinha património dos dois lados da fronteira, o que fazia com que o seu testamento fosse devidamente analisado, com os seus pais a serem os seus herdeiros.
Os seus pais eram Bernabé José de Oliveira e Bernardina Maria de Campos e estavam a proceder, como manda a lei, na tentativa de serem os legítimos herdeiros do seu filho recentemente falecido.
Estávamos a 31 de agosto de 1893 e o escrivão Guilherme da Costa Leite informava que não iria haver audiências nas segundas e quintas-feiras de cada semana, sendo que sempre que fosse dia santo, a audiência passava para o dia útil seguinte.
Assiste-se a um processo com elevada carga burocrática que não era de todo aconselhável para quem ainda estava a realizar o seu luto, mas também a comunicação não era de todo facilitada devido às dificuldades para a sua concretização.
Ocorreu uma pesquisa pela informação relativamente aos bens que estariam a ser arrematados pela herança, mas não foi possível encontrar a mesma, devendo referir, todavia, que o facto de o indivíduo estar em Espanha, possuir património nos dois lados da fronteira pode e deve ser encarado como um sinal que falamos de alguém que tinha um certo estatuto social e, obviamente, também económico.

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Escrita com Norte: O falecido

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Como nem todos à volta da mesa se conheciam bem e tinham vontade de ser levados a sério, apesar dos assuntos banais, a conversa mantinha-se quase de “estado”, conferida pela expressão sisuda e o tom solene das palavras. Depois de um transmitir que não deita açúcar no café e outro revelar que usa braçadeiras na piscina, o Tone pede desculpa por ser mensageiro de uma triste notícia e diz – O nosso conhecido Tino, hoje, acordou morto!
Depois de hora e meia de conversa da treta com postura hirta, três pessoas deste grupo relaxam e mostram os dentes a esboçar, vergonhosamente, um riso e intervenho – Não se riam! – e conto a estória do Berto.
Era uma vez o Berto, homem de família, que por ser casado com uma mulher e ter uma filha, a quem oferecia bonecas em criança, e um filho, com quem jogava à bola, era conotado como ultraconservador. De segunda a sexta tentava não se deitar tarde, já que o despertador teimava em cumprir a sua missão, despertá-lo sempre às sete e meia.
Numa noite, de quarta para quinta, o coração de Berto deixou de funcionar durante o sono sem que ele o tenha notado e, quando o despertador toca, Berto acorda falecido! Levanta-se, trata da sua higiene e desce para a cozinha onde já lá estão os filhos e a sua mulher, que com os afazeres domésticos e a canalha não olha para o marido, com olhos de ver, há dez anos.
A pequena, ao ver o pai, levanta-se da mesa e vai ter com a mãe:

– Mamã, o papá está morto.
A esposa vira-se e olha para o marido com olhos de ver – É verdade! Ele está morto! – pensa para si. Mas como era o último dia do mês, e para esse dia não ser descontado no ordenado, não o avisa do falecimento e Berto sai de casa às oito e trinta.
No local de trabalho pica o cartão e até à saída não falou com ninguém, sem ninguém ter notado nele…
Estranho, ninguém ter reparado no Berto – digo eu ao grupo que ouvia a estória com atenção, e prossigo – Está bem que ele era calmo e para o paradito, mas daí a não verem que estava morto!
… Apesar da condição de falecido, sem ainda o saber, só pensava na futebolada dessa noite com os amigos no pavilhão do ciclo local.
Na hora em que Berto entra no pavilhão, a esposa entra na funerária, para escolher o caixão,
(caso durante o dia ninguém o tivesse avisado que estava morto, ela própria o diria à noite, quando Berto chegasse a casa)
Apesar de Berto não estar nos seus dias, onde a personalidade um pouco apagada durante o dia se mostrava mexida no jogo da bola, nos últimos segundos da partida, com o empate no marcador, recebe a bola, finta dois, finta o guarda-redes e, com a baliza aberta, prepara o remate para o golo da vitória e Tó, o seu melhor amigo, que não gosta de perder nem a feijões e joga na equipa adversária, berra:

– Ó BERTO, TU BATESTE A BOTA.
Este cai, estatelando-se no chão sem sinais de vida, e a bola, como muitas vidas de valor relativo, saiu pela linha de fundo!

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