O século XIX foi profícuo em reformas e contrarreformas que marcaram a organização do espaço territorial até à atualidade. Nos primeiros anos desse século as estruturas administrativas revelavam-se inadequadas e incapazes de dar resposta às necessidades do próprio Estado absoluto, já na sua fase decadente. 

A mudança estrutural do sistema organizativo, só foi possível quando ocorreram transformações políticas e sociais de fundo. Só foi possível, depois de consumada a substituição das Monarquias absolutas por regimes liberais democráticos, com a consequente edificação de novos aparelhos de Estado. É a Mouzinho da Silveira que se deve a primeira Reforma Administrativa do liberalismo, feita num sentido fortemente centralizador. Os diplomas legais de 1832 fizeram com que Portugal tivesse uma Organização Administrativa quase inalterável até aos dias de hoje. É neste período da história de Portugal, que se assiste a uma série de tentativas de reestruturação da organização administrativa do território, com imensa legislação, que fazia desaparecer as Províncias, reintroduzia os Distritos, que haveriam de perdurar até hoje, que eliminava muitos Concelhos minúsculos e criava as Freguesias.

À solução centralizadora de 1832 sucede-se, em 1836, uma solução descentralizadora de Passos Manuel. Para que ela pudesse funcionar, foi preciso extinguir mais de metade dos Concelhos existentes (de 817 para 351), procurando racionalizar a administração autárquica e eliminando muitos Concelhos, cuja única justificação era a existência de forais distintos. Em 1834 nasce o Concelho de Santo Tirso e só em 1835 é que as oito freguesias que constituem o atual Concelho da Trofa são retiradas das Terras da Maia para incluírem o recém-criado Concelho de Santo Tirso. Uma aberração sociológica, que só foi reparada século e meio mais tarde, aquando da Criação do Concelho da Trofa. Depois de uma longa luta emancipalista, deram entrada, em 1998, na Assembleia da República três Projetos de Lei propondo a criação do novo Município: o primeiro foi do CDS/PP (6 de fevereiro), depois um do PSD (19 de fevereiro) e o do PCP (27 de fevereiro). Para gáudio da maioria dos trofenses e de todos os partidos político locais, incluindo o PS. 

Está bem gravado na memória de muitos, aquele fantástico dia 19 de Novembro de 1998, em que milhares e milhares de trofenses rumaram à capital, de modo ordeiro, para exigirem legitimamente a “carta de alforria” a que tinham direito. Iam engalanados com bandeiras, t-shirts e chapéus em formato de barco, que pelo simbolismo fazia lembrar as “caravelas quinhentistas”, que dobraram o Cabo das Tormentas e, numa metáfora suprema foi transformado no Cabo da Boa Esperança. Lá como cá; nesse tempo e na atualidade, mas ao invés. Da esperança para as tormentas. Foram 14 anos de esperança na construção de um Concelho exemplar, mas foram oportunidades desperdiçadas; capital humano e financeiro delapidado; expectativas e sonhos destruídos.

Desejava-se um Concelho modelo, sem “vícios” do passado e harmonioso no seu desenvolvimento. O Concelho da Trofa, quando nasceu, tinha todas as condições para ser Concelho em que todos vivessem condignamente e com qualidade de vida. Infelizmente, os interesses pessoais têm prevalecido de uma forma confrangedora e os trofenses foram sempre relegados para segundo plano e apenas lembrados em épocas de campanhas eleitorais. E mais uma campanha eleitoral está a chegar! Não foi isso que aconteceu; não foi para isto que o Concelho da Trofa nasceu há 14 anos.

Por tudo isso, mais uma vez se festejou com a lágrima ao canto do olho, mas sem perder a esperança que o sonho coletivo seja concretizado. Um dia!

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

 www.moreiradasilva.pt

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