Inexorável. Qual rio que se precipita pelas montanhas e se estende pelos vales, moldando o seu leito, o ritmo anímico da Trofa deteu-se, estático, na cronologia da obra que não foi e não é. Será?

A antologia principia no que, hoje, se vislumbra no lado de lá. Não nos colocamos num ponto de assacar responsabilidades pretéritas. Todavia, anos de Concelho de Santo Tirso pautaram-se, para a Trofa e os trofenses no seu conjunto, num esfíngico desprezo do poder local tirsense, frutificado na ausência de política urbana e de promoção de desenvolvimento das condições da população. A improfícua relação Santo Tirso – Trofa perpetuou-se, transtornante, até ao limite do suportável. Finalmente, a criação do concelho da Trofa: 19 de Novembro de 1998 tornou-se numa data inolvidável. Com ele, a autonomia administrativa tida, antes, por onírica.

Porém, as cambiantes à vida quotidiana dos trofenses – à excepção de água, saneamento e ligeiros melhoramentos urbanísticos nas vias públicas – tardam em anunciar-se. Ou melhor: anunciadas Helder Reisestão já em grande número, todavia não há quem delas tenha uma visão. E a rota da convergência teima em não se traçar da forma unívoca que imperava ser.

O primeiro sinal manifesta-se na ausência, ao dia de hoje, de um Plano Director Municipal para a Trofa, o verdadeiro instrumento de trabalho que se perde em estudos e pareceres de elaboração. Será este o modelo de administração pública local, em necessidade, urgente à Trofa. Vontades menos alinhadas prontamente considerariam existir uma voluntária situação relapsa, ideal ao comprometimento gradual das forças políticas governantes com interesses que conhecem novas auroras, do mesmo passo que surgem novas obras e negócios imobiliários.

Em abono da verdade, não abunda a visão macroeconómica estratégica que deveria dirigir o destino da política camarária. É acto fundamental e indispensável pugnar por atrair o investimento além-fronteiras, nomeadamente, diríamos nós, por uma questão geográfica, das empresas da Galiza. O défice adaptativo da Trofa à nova conjuntura não tem paralelo com a necessidade de criar mais-valia no produto, marca própria assente na qualidade e no desenvolvimento e investigação, o que, de forma decisiva, poderia traduzir o renovado alento do aumento da empregabilidade para a nossa região.

Não obstante, o empenhamento negocial e uma certa sensibilidade diplomática não serão trunfos suficientes para convencer os investidores estrangeiros. Grande parte da tarefa está em preparar os trofenses para tamanho desafio. Como tal, a criação de um Instituto Superior Politécnico ou de uma Escola para estudos pós-licenciatura, nas áreas técnicas e industriais afigura-se essencial. Trata-se de criar quadros técnicos médios e superiores em número suficiente à oportunidade de gerar um cluster numa área de interesse local e ainda não desenvolvido por concelhos limítrofes.

Este não é um tempo de, unicamente, encerrar janelas – novas portas se abrem para a afirmação da Trofa, enquanto entidade administrativa autónoma e independente. Será certamente útil abraçar a oportunidade da discussão do nova Mapa Judiciário, para exigir, enquanto medida de justiça retributiva, a criação de um Tribunal na Trofa, seja ele de Comarca ou de competência específica (na área, por exemplo, comercial ou até mesmo administrativa e fiscal), ponto assente que é a utilidade de um Julgado de Paz.

O tom de registo estende-se a outros domínios, nomeadamente quanto à relevância das Instituições Privadas de Solidariedade Social, na componente de importância que possuem no âmbito da iniciativa privada, não nos referindo aqui à economia, outrossim ao plano social. Tal vertente trará maior credibilidade ao sector empresarial, verdadeiramente imbuído de responsabilidade social.

Por outro lado, novas formas organizacionais e de gestão devem ser adoptadas pelas pessoas colectivas públicas. As Parcerias Público-Privadas possibilitaram-nos descortinar, de facto, uma nova perspectiva, muito mais consonante com a realidade do sector privado. Contudo, tal não é ainda suficiente. Devemos "confiar que as instituições superam e controlam os grupos de interesses, ao invés de os servirem", tal como preconizou em artigo recente a economista Teodora Cardoso.

Não devemos focalizar o ponto de ebulição, tão-somente, na estrutura orgânica e na gestão de recursos materiais e humanos. A necessidade de criar mais valia com a criação de novas tecnologias e novos produtos impõe-se-nos como uma muralha intransponível.

Não obstante, pese embora nos soe como empresa impossível, é preciso mais: como se expôs supra, a associação de uma marca forte e consistente a essas novas tecnologias e a esses novos produtos. A marca Trofa.

À Câmara Municipal, enquanto órgão de poder local, assentam várias responsabilidades, apenas visíveis com grande capacidade de atenção e focalização: criar as infrastruturas e fomentar o ambiente propício aos empresários que se pretendem abalançar a uma nova actividade ou desejem o crescimento da sua actividade. E sem nunca esquecer o essencial: as Câmaras Municipais em particular, e o Estado em geral, têm um papel eminentemente regulador, independente de interesses privados.

Falta, ainda, à Trofa ser capaz de convergir para o modelo de organização de espaço e território que pautam os concelhos vizinhos. O que implicitamente possibilitaria a convergência ao nível do bem-estar das populações, na tradução perfeita de criação de espaços verdes, de acessos livres e rápidos ao centro do concelho, de cada freguesia que o integra e às residências dos trofenses.

É, pois, óbvio que também a Trofa trilha uma pista, competindo com Maia, Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso. Ou cogitarão os nossos responsáveis pela governação local que jovens e menos jovens não ponderam na hora de traçar um plano de vida? Na hora de decidir a compra ou arrendamento de uma habitação, procede-se a um exercício aritmético arredado de maiores sentimentalismos e bairrismos. Tomam-se tais decisões não apenas com base na oferta de trabalho de cada concelho, mas também equacionando os serviços públicos de saúde prestados, a oferta pública de ensino (no que interessa conhecer a sua qualidade e se vai além do ensino secundário ou não), as acessibilidades para quem todos os dias tem que se deslocar para outros centros urbanos para trabalhar e estudar, a qualidade de ambiente com a devida consideração de parques de lazer e espaços verdes, o aspecto urbanístico das cidades… Esta situação vem entroncar numa matriz imponderável, consequente porém. 

A pedra angular da necessidade trofense está fixada numa possibilidade de rota crucial: que sejamos capazes de criar um efeito visual convincente, no sentido de que controlamos todo o arsenal descrito. Carregamos o fardo da busca da dignidade da Trofa. O mundo em nosso redor transmuta-se à velocidade já não da luz, mas do laser. Os outros países, os outros municípios. Em suma, os outros seres humanos. E a Trofa? Será capaz de travar a batalha? Ou permaneceremos ascetas do tempo perdido, cerceados no acto, compenetradamente em estado de contemplação?